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História

10 ocasiões em que o mundo quase acabou

Mal-entendidos, computadores dando pau, militares nervosos, ou simplesmente uma ferramenta caindo no chão. Conheça dez momentos em que a hecatombe nuclear chegou muito perto de acontecer.

Texto: Tiago Cordeiro | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria


Se não fosse a presença do supremo governante soviético Nikita Khrushchev em Nova York, em 5 de outubro de 1960, a União Soviética possivelmente teria sido atacada – e reagiria, é claro. No auge da construção de ogivas nucleares de alcance destrutivo cada vez maior, radares instalados em Thule, na Groenlândia, identificaram um ataque de mísseis soviéticos na direção dos Estados Unidos. O Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte entrou em alerta máximo. Acontece que o radar confundiu o surgimento da Lua nos céus da Noruega com um disparo de mísseis. Até que o engano fosse esclarecido, o único dado que levantou dúvidas sobre a necessidade de reação foi o fato de que Khrushchev estava nos EUA, para participar de uma conferência da Organização das Nações Unidas. Não faria sentido os russos atacarem o país onde ele se encontrava.

<strong>O primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev durante uma conferência de imprensa.</strong>
O primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev durante uma conferência de imprensa. Bettmann/Getty Images

Duas bombas atômicas Mark 39 foram lançadas sobre a cidade de Goldsboro, na Carolina do Norte, em 24 de janeiro de 1961. Elas tinham 3 e 4 megatons – somadas, eram 350 vezes mais poderosas do que a Fat Man que arrasou Nagasaki, em 1945. Não foi um ataque inimigo: um bombardeiro estratégico, Boeing B-52 Stratofortress, fazia um voo de rotina quando um vazamento de combustível provocou uma explosão no ar, 2.700 metros acima do solo. Havia oito pessoas dentro dele. Duas delas morreram antes de conseguir deixar a aeronave e uma faleceu depois de pular. As bombas foram ejetadas e lançadas para o chão com a queda amortecida por paraquedas de 30 m de diâmetro.

Em 2013, o governo americano liberou o acesso a documentos até então confidenciais a respeito do acidente. Eles atestam que uma das bombas arrebentou ao encontrar o solo e chegou muito perto de explodir: três dos quatro mecanismos de segurança foram desarmados. Não foi o único acidente grave envolvendo o bombardeiro B-52. Apesar de estar em operação desde 1952 e prosseguir na ativa até hoje, seus primeiros anos foram marcados por problemas técnicos. Em 10 de janeiro de 1964, outro avião despencou, desta vez nos arredores de Meyersdale, Pensilvânia. Também havia duas bombas nucleares a bordo, que caíram sem explodir.

O escritório de um dos principais centros de inteligência militar americana durante a Guerra Fria, o Comando Estratégico por Ar, ficou subitamente desconectado em 24 de novembro de 1961. Poderia ser sinal de um ataque massivo dos soviéticos, já que, em tese, as linhas de comunicação eram independentes, de forma que a troca de informações entre os principais centros das Forças Aéreas dos EUA nunca fosse interrompida em todos os locais simultaneamente. Mas foi o que aconteceu: um problema nos equipamentos de uma central telefônica no Colorado deixou os principais centros de tomada de decisão sem notícias dos demais. Sem saber de nada disso, o Comando Estratégico por Ar posicionou seus mísseis balísticos intercontinentais, capazes de alcançar a União Soviética. Não se sabe quem decidiu esperar para apertaro botão, mas a pessoa tomou a decisão correta: em minutos a comunicação foi restabelecida.

O dia em que o mundo esteve mais perto do inverno nuclear foi 27 de outubro de 1962. Três incidentes diferentes, todos de alto nível de tensão, aconteceram num prazo de poucas horas. Um avião U-2 de espionagem americano foi derrubado enquanto sobrevoava Cuba. Outro entrou 480 quilômetros dentro do espaço aéreo soviético, sobre a península de Chukotka, no extremo leste da Rússia. Foi perseguido por dois caças MiG soviéticos, que tinham por objetivo escoltar a nave de volta para águas internacionais. Ao saber que uma aeronave americana estava cercada, o comando militar mandou dois caças para dar combate.

Os F-102A estavam ambos armados com mísseis nucleares e dispostos a dispará-los, mas o U-2 deixou o espaço aéreo soviético antes que um confronto acontecesse. Mas o incidente mais grave foi outro: o mundo observava, aterrorizado, a crise dos mísseis. Em reação à instalação de armas americanas de longo alcance na Turquia, a União Soviética resolveu enviar seu arsenal nuclear para Cuba. A esquadra soviética que transportava o arsenal foi bloqueada no Oceano Atlântico por navios americanos.

Enquanto o presidente americano John Kennedy e o líder soviético Nikita Khrushchev negociavam, um dos submarinos russos B-59 estacionados no Atlântico mergulhou para dificultar um possível ataque americano. Quando o destróier USS Beale disparou cargas de profundidade na direção do B-59, para forçá-lo a subir à superfície, o comandante russo Valentin Savitsky resolveu disparar um torpedo nuclear de 10 kilotons. Mas os três comandantes da embarcação soviética precisavam concordar com o disparo. Um deles, Vasili Arkhipov, convenceu Savitsky a subir à superfície sem disparar. Assim, salvou o mundo.

<strong>Fragata soviética atravessa o Atlântico a caminho de Cuba.</strong>
Fragata soviética atravessa o Atlântico a caminho de Cuba. Carl Mydans/Getty Images

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No auge da crise dos mísseis, o militar russo Oleg Penkovsky, que agia como espião para os Estados Unidos, seguiu um procedimento previamente combinado para o caso de a União Soviética iniciar um ataque nuclear contra território americano: ligou para a embaixada do Reino Unido em Moscou, respirou três vezes e desligou, sem falar nada. Um minuto depois, repetiu o procedimento. Era o sinal necessário para os britânicos e americanos iniciarem a reação. Na verdade, o coronel Penkovsky havia sido preso pelos russos, que descobriram seus códigos e fizeram os telefonemas para a embaixada. Foi exatamente isso que os oficiais do escritório britânico em Moscou imaginaram que houvesse acontecido. Por isso, não levaram o alerta adiante. Penkovsky, que havia avisado os ingleses a respeito da intenção soviética de enviar mísseis a Cuba, foi condenado por traição e executado poucos meses depois, em maio de 1963.

<strong>O espião Penkovsky se defende dias antes de morrer executado.</strong>
O espião Penkovsky se defende dias antes de morrer executado. SVF2/Getty Images

Se, em 1960, os americanos quase iniciaram a Terceira Guerra Mundial por causa da Lua, sete anos depois o problema foi uma tempestade solar. Ao perceber que o sistema de comunicação na região do Alasca e da Groenlândia estava sofrendo interferências, oficiais instalados na sede do Comando Estratégico do Ar, em Omaha, começaram a buscar uma explicação natural. Se não houvesse uma, só poderia ser uma ação militar soviética, que demandaria uma resposta imediata. Mas os analistas trabalharam bem: em menos de dez minutos, identificaram que a pane era resultado do bombardeio de partículas vindas do Sol e que provocaram distúrbios magnéticos capazes de interromper as comunicações. Mas foram minutos muito tensos. Essa história foi mantida em segredo até 2016, quando finalmente veio a público em um estudo produzido pela Universidade do Colorado.

Com muita frequência, os computadores do Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte entravam em pane, ou simplesmente disparavam alertas falsos. Por isso, boa parte dos avisos era submetida a uma rechecagem. Mas, em novembro de 1979, o alerta parecia detalhado demais, e assustador demais, para ser um simples erro: tudo indicava que 250 mísseis balísticos haviam sido lançados em direção aos Estados Unidos. Pouco depois, a estimativa foi ampliada: agora eram 2.200 mísseis disparados. O país tinha de três a sete minutos para iniciar uma retaliação antes de ser atingido e perder parte considerável de sua capacidade de reação. Enquanto os bombardeiros eram carregados e posicionados para partir, o sistema de satélites era acionado para confirmar o alerta. Na verdade, tudo não passava de um cenário de testes, enviado por engano para o sistema central de computadores do comando. Uma tragédia só foi evitada porque os radares não confirmaram a informação.

Eram 18h30 quando dois técnicos faziam pequenos reparos no topo de um míssil balístico intercontinental Titan II dentro de uma instalação militar na vila de Damascus, no Estado americano do Arkansas. Às 15h do dia seguinte, uma explosão arremessou o míssil para o alto e a ogiva nuclear foi cair a 30 metros de distância. O motivo do acidente foi assustadoramente banal: um dos técnicos, Dave Powell, de 21 anos, manejava (usando luvas) uma ferramenta de 3,6 quilos quando a derrubou. A peça caiu por 24 metros e, ao chegar ao chão, ricocheteou e atingiu a base do míssil, abrindo um furo por onde começou a vazar combustível.

Não havia um procedimento padrão a ser adotado nesses casos. Depois de horas de vazamento, o míssil, de 31,3 m de comprimento, acabou explodindo e arrebentando a porta de 740 toneladas. Na época, o Titan II era uma das mais imponentes armas nucleares do país. A ogiva que ele carregava era 594 vezes mais poderosa do que a bomba que arrasou Hiroshima. Se tivesse sido detonada, poderia ter varrido boa parte do estado do mapa – e levado consigo o governador (e futuro presidente) Bill Clinton, que discursava em Little Rock, a 80 km do local. As Forças Armadas não se deram ao trabalho de reconstruir a instalação: ela foi coberta por terra e concreto e simplesmente abandonada. O acidente provocou a morte de um funcionário, David Livingston, e deixou 21 feridos. Em 1982, o presidente Ronald Reagan decretou a aposentadoria dos Titan II.

<strong>Policiais de Little Rock se organizam para patrulhar a região após o acidente na cidade vizinha.</strong>
Policiais de Little Rock se organizam para patrulhar a região após o acidente na cidade vizinha. Francois LOCHON/Getty Images

Está estranhando a quantidade de histórias envolvendo os americanos, em detrimento dos poucos casos em que os russos é que quase iniciaram a guerra? O motivo é simples: os Estados Unidos vêm liberando, com o passar dos anos, documentos sobre os bastidores da guerra fria, enquanto os russos são muito menos transparentes. Ainda assim, os dois casos mais recentes desta lista envolvem a União Soviética. No primeiro deles, em 26 de setembro de 1985, o planeta foi salvo pelo tenente-coronel Stanislav Petrov.

Ele tinha todos os motivos para informar seus superiores a respeito de um ataque americano – era exatamente isso o que aparecia no monitoramento a que ele tinha acesso naquele dia. Se não agiu, é porque contou com o instinto: o sistema de alerta informava que cinco mísseis haviam sido disparados e seguiam na direção da União Soviética. O militar desconfiou que o equipamento estivesse com defeito, por um motivo simples: se os Estados Unidos fossem atacar, ele pensou, não seria com míseros cinco mísseis. Decidiu então esperar, mesmo sabendo que a escalada de ameaças de ambos os lados vinha aumentando rapidamente.Petrov manteve a calma. Minutos depois, para alívio do técnico, o alerta desapareceu de sua tela.

O último episódio de tensão também teve a Rússia como cenário, anos depois do fim da União Soviética. O presidente russo Boris Yeltsin recebeu a informação de que um foguete norueguês havia sido disparado. Colocou submarinos capazes de lançar mísseis nucleares em alerta máximo e recebeu a Cheget, a maleta que seria utilizada para ordenar a retaliação. Minutos depois, o presidente desistiu, quando ficou claro que o disparo não tinha alvos militares; na verdade, o foguete tinha objetivos científicos. A Rússia havia sido informada com antecedência a respeito da ação da Noruega. Mas o aviso se perdeu na vasta burocracia interna do país e não alcançou os postos mais altos da cadeia de comando. Por pouco, Yeltsin não atacou a Europa, logo num momento em que ninguém mais esperava que o planeta pudesse testemunhar uma hecatombe nuclear.

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O fim está próximo?

Cientistas monitoram os riscos de extinção da humanidade.

Neste momento, faltam dois minutos para a meia-noite. Em 2012, faltavam cinco minutos. Em 1991, 17; em 1947, sete. É assim, usando a metáfora de um relógio, que o Boletim dos Cientistas Atômicos, lançado em 1945 por pesquisadores da Universidade de Chicago, avalia qual é o risco de o planeta mergulhar no inverno nuclear – expressão utilizada para fazer referência a um cenário em que o mundo esteja coberto por poeira radioativa, levantada por uma série de explosões nucleares espalhadas pelo globo. Em sete décadas de contagem do Relógio do Fim do Mundo, o ponto mais grave, 23h58, foi registrado apenas três vezes, em 1953, 2018 e 2019. Nos últimos dois anos, a organização acrescentou o aquecimento global como um fator decisivo para aproximar nossa espécie da extinção. Mas insiste nos riscos provocados pela falta de controle sobre o arsenal nuclear planetário. “Os EUA abandonaram o acordo nuclear com o Irã e o dilema nuclear da Coreia do Norte continua sem solução”, diz o relatório deste ano.

<strong>Míssil com ogiva nuclear disparado pela Coreia do Norte.</strong>
Míssil com ogiva nuclear disparado pela Coreia do Norte. Handout/Getty Images

O perigo vem do mar

A energia nuclear e os submarinos de guerra provaram ser uma combinação etal (e irresistível) para fins militares.

Texto: Victor Bianchin | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria


Durante a Segunda Guerra Mundial, uma das providências adotadas por Hitler foi reativar a produção dos U-boats, submarinos que haviam entrado em linha na Primeira Guerra. Eram armas estratégicas para o Terceiro Reich porque usavam técnicas de matilha: circundavam os alvos (navios e comboios) e atacavam juntos. Entre 1939 e 1943, quase 5 mil embarcações foram afundadas assim.

Ótimo para o Führer, péssimo para os tripulantes dos U-boats, que não tinham vida fácil. Os submarinos da época eram movidos por uma mistura de motor a diesel (igual ao dos navios) e baterias elétricas. Na superfície, usava-se o motor. Quando o veículo submergia, porém, não havia o oxigênio necessário para a combustão e nem uma forma de ventilar os gases emitidos. Portanto, era preciso usar as baterias, que duravam apenas algumas horas. Por isso, a estratégia era ficar emerso o maior tempo possível à procura de alvos e só submergir na hora da ação – um risco em tempos de guerra.

Quando os Aliados aprenderam a lidar com a ameaça dos U-boats, a reação foi rápida: a partir de 1943 e até o fim da guerra, os submarinos nazistas foram destruídos às centenas. Para cada dez U-boats que deixavam os portos, sete nunca retornavam.

Mas, depois da guerra, a energia nuclear promoveu uma revolução para os submarinos, porque eliminava as inconveniências causadas pela combustão do diesel e pela vida curta das baterias. As únicas limitações eram as de suporte humano, ou seja, os estoques de comida, água e ar para a tripulação. Finalmente um submarino poderia dar a volta ao mundo sem nunca vir à superfície.

<strong>Um U-Boat sobe à tona: o submarino alemão dominou os mares até 1943.</strong>
Um U-Boat sobe à tona: o submarino alemão dominou os mares até 1943. ullstein bild Dtl./Getty Images

Kraken moderno

Os modelos mais avançados de submarinos nucleares hoje são os da classe Seawolf, desenvolvida nos EUA. Projetada nos anos 1980, ela deveria ser composta de 29 veículos, mas limitações orçamentárias (cada unidade custa US$ 3 bilhões) e o fim da Guerra Fria fizeram com que o orçamento fosse diminuído e apenas três submarinos fossem construídos, todos em atividade hoje. São eles: o Seawolf (SSN-21), o Connecticut (SSN-22) e o Jimmy Carter (SSN-23). “SSN” não é uma sigla, e sim um código que significa duas coisas: que é movido a energia nuclear e que é um submarino de ataque.

São mais de 8 mil toneladas encobertas por um casco de aço capaz de suportar 100.000 psi (ou 6.800 atm) de pressão. No coração de tudo está um reator nuclear do tipo S6W com 52 mil cavalos de potência, capaz de fazer o veículo andar a 25 nós (37 km/h) enquanto submerso. Ele se estende por dois terços do comprimento do submarino, enquanto a parte da frente contém os quartos da tripulação (cabem 130 homens no Seawolf) e os espaços de armazenamento dos mísseis. No meio do submarino fica a sala de controle, mas não é só de lá que o veículo pode ser operado: ao todo, espalhados pelo veículo, há 44 terminais multifunção conectados ao mesmo computador central. O capitão consegue controlar o submarino pelo seu laptop no quarto se quiser.

Mas o grande diferencial do Seawolf é seu poderio ofensivo. Ele possui oito tubos para o lançamento de torpedos e pode carregar até 50 deles – o Los Angeles, classe anterior de submarinos de guerra, só carregava 17. O sistema de recarregamento dos tubos é automático, permitindo ataques rápidos em sucessão. Um único Seawolf seria capaz de causar a mesma destruição que três Los Angeles juntos.

Toda essa tática resultou em um veículo versátil, capaz de prestar suporte a navios porta-aviões, atuar em grupos de ataque e realizar destruição em terra com seus Tomahawk. E, graças à energia nuclear, ele pode fazer tudo isso de forma discreta, agindo a partir do leito do oceano.

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Reação em cadeia

Projetos (nem sempre executados) de outros veículos movidos a energia nuclear.

Ford Nucleon
Seria movido a vapor fornecido pela fissão de urânio. Mas o “carro nuclear” nunca saiu do protótipo.

WS-125
Desenvolvido nos anos 1950, o avião americano seria utilizado para bombardeios nucleares. Depois de dois motores serem testados com sucesso, o projeto foi desativado devido ao alto custo.

Dirigível avançado
Francis Morse, ex-engenheiro da Goodyear, criou o protótipo mais famoso, um “hotel voador” com 300 m de comprimento, propulsor nuclear de 6 mil cavalos e capacidade para 400 pessoas.

NS Savannah
O primeiro navio mercante movido a energia nuclear é um dos quatro navios de carga desse tipo que já existiram. Ativo de 1962 a 1972.

Navios quebra-gelo
Não é qualquer embarcação que supera a camada de gelo de até 2 m de espessura do Mar do Norte no inverno. Os russos resolveram o problema desenvolvendo embarcações movidas por reatores nucleares. Algumas são utilizadas como navios de cruzeiro.

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A máquina de destruir mundos

A bomba de hidrogênio, ou termonuclear, é a arma mais potente já criada. Tanto que utiliza uma bomba atômica convencional, de fissão, apenas como detonador.

Texto: Tiago Cordeiro | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria


“A bomba atômica convencional utiliza a energia produzida a partir da fissão nuclear, enquanto que a bomba termonuclear libera energia produzida a partir de fusão nuclear”, explica o físico Ítalo Curcio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Em outras palavras: a fissão acontece quando nêutrons atingem o núcleo de átomos, geralmente de urânio, e os rompem, liberando energia. A fusão se caracteriza pela junção de núcleos, um feito muito mais difícil de alcançar e, principalmente, de controlar.

As bombas de fusão, que existem desde os anos 1950, são os artefatos explosivos mais perigosos já criados, sendo a bomba Tsar a mais poderosa entre todas. Em geral, ela funciona com dois estágios.

A fusão só se torna viável no calor extremo. “Para alcançá-la é necessário ter antes um ambiente com altíssima temperatura, da ordem de uma dezena de milhões de graus Celsius”, afirma Ítalo Curcio. Daí a utilidade de utilizar a quantidade descomunal de energia gerada pela fissão de urânio para alcançar as condições necessárias para fundir os átomos de hidrogênio.

“Por isso, no caso da bomba de hidrogênio, ocorre primeiramente uma explosão interna, que proporciona essa temperatura, obtida a partir de uma bomba atômica convencional”, descreve o professor da Universidade Mackenzie. “Com isso, consegue-se a temperatura necessária para provocar a fusão do hidrogênio, a partir da qual ocorre mais uma grande liberação de energia.”

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No papel, bombas H existem desde os anos 1930. Na prática, a primeira, a Ivy Mike, foi detonada pelos americanos em 1952, com a potência de 10 megatons. O experimento marcou uma nova era no desenvolvimento de armas nucleares. E levou a humanidade ao limite de sua capacidade de provocar destruição. Em alguns casos, como o da Tsar, ao segundo estágio seguiu-se um terceiro, formado por uma nova fusão de hidrogênio.

Mas por que a fissão serve para fazer tanto bombas quanto usinas nucleares, enquanto que a fusão ainda não foi aplicada em larga escala para a geração de energia elétrica, apesar de seis décadas de pesquisas? Essa resposta você encontra a partir no capítulo O futuro está na fusão.

Por que até hoje os terroristas não tiveram acesso a armas nucleares?

Imagine o estrago que a Al Qaeda, ou o Estado Islâmico, poderiam provocar com uma bomba atômica ou de hidrogênio em mãos. Por que nunca aconteceu? Não foi por falta de tentativas, certamente: pelo menos 22 países já documentaram casos de contrabando de urânio ou plutônio. Ou seja: existem contrabandistas vendendo a matéria-prima. Além disso, a receita para fabricar uma bomba simples é bastante conhecida. Se ainda assim os terroristas nunca provocaram uma hecatombe nuclear, é porque a quantidade mínima de urânio para criar uma bomba é 26 kg, muito acima dos poucos gramas disponíveis no mercado negro.

E essa nem é a maior dificuldade: mesmo que alguém conseguisse acumular tanto minério, o processo de enriquecimento do urânio, para torná-lo capaz de fissionar e funcionar como combustível para uma bomba, é longo e complicado. E comprar urânio já enriquecido é difícil: até hoje foram registrados apenas 18 casos de roubo de material pronto para ser detonado, sempre em quantidades muito aquém do necessário. Agora, nada disso significa que nunca vá acontecer um ataque: afinal, criar uma bomba suja (que combina explosivos comuns com pouco material radioativo) é muito mais simples. E sua detonação já faria um estrago enorme numa metrópole.

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