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Ciência

Sonho – Uma máquina de disfarçar desejos

Para Freud, um sonho é o choque entre um desejo inconsciente que quer se manifestar e uma censura que quer poupar a gente de um trauma. O resultado é arte surrealista.

Texto: Alexandre Carvalho | Edição de arte: Estúdio Nono | Design: Andy Faria | Imagens: Getty Images


Foi na casa da atriz Jane Asher, sua namorada na época, que Paul McCartney teve um sonho que entraria para a história da música pop. O ano era 1964. Em vez de sonhar que havia saído de casa pelado ou que voava sobre Liverpool – sonhos típicos, como você verá a seguir –, o beatle sonhou com uma melodia. E não qualquer melodia. Era uma música tão doce e delicada que Paul tratou de não esquecer – o que acontece com a maioria dos sonhos pouco depois que abrimos os olhos. Já que havia um piano ao lado da cama, começou a tocar e ligou o gravador.

Então, para sua surpresa, percebeu que havia sonhado com a melodia completa de uma canção. Pensou que deveria ter ouvido a música em algum lugar, mas, por mais que tentasse, não conseguia lembrar onde ou quando. No livro The Beatles – A história por trás de todas as canções, Paul recorda: “Por cerca de um mês fui atrás das pessoas no mercado musical e perguntei se já tinham ouvido a música antes. Acabou sendo como entregar algo à polícia. Achei que, se ninguém desse falta em algumas semanas, eu poderia ficar com ela”. E ficou. A melodia era original mesmo.

A música ouvida num sonho enfim ganharia letra definitiva, e Yesterday se tornaria uma das canções mais populares de todos os tempos, a mais tocada e regravada da história segundo o Guinness Book – com versões cantadas por artistas tão diferentes quanto Elvis Presley, Elis Regina, Frank Sinatra e Katy Perry.

Sigmund Freud não estranharia o fenômeno onírico que deu de bandeja a Paul McCartney sua obra mais conhecida. “Tendemos por demais a superestimar o caráter consciente da produção intelectual e artística”, ele afirmou, ainda na virada do século 19 para o 20. Segundo o pai da psicanálise, não é que os sonhos fossem uma fábrica de novidades. As ideias – sejam para canções pop, projetos de vida ou burradas colossais – vêm da labuta diária do inconsciente, cujo turno é sempre no esquema 24 horas.

Para quem estuda o assunto hoje em dia, essas afirmações de Freud fazem sentido, e a ciência já sabe que o sonho não sai jogando ideias geniais para o alto sem critério. Se você é engenheiro automotivo ou designer de joias, é muito improvável que acorde de um sonho com uma música pronta na cabeça. Talvez surja uma ótima ideia para um carro-conceito ou para um par de brincos digno de um casamento real.

“O sonho – tal como outras formas de pensamento desordenado – pode ajudar no processo de indução de uma ideia original, mas somente sobre a base firme de um grande conhecimento daquilo em que se pretende ser criativo”, explica o argentino Mariano Sigman, diretor do Human Brain Project e autor do livro A Vida Secreta da Mente. Ou seja, para sonhar com um novo tipo de rede social que vá torná-lo milionário, será preciso antes ser um gênio da programação como Mark Zuckerberg, o criador do Facebook.

Entre essas descobertas recentes da ciência, também estão detalhes sobre os mecanismos do sono, com uma especificidade que Freud não tinha como suspeitar mais de um século atrás. Por exemplo, já é possível entender como a criatividade se relaciona com o período em que estamos babando no travesseiro.

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Quando você adormece, há uma primeira fase em que a consciência vai se dissipando, ativando no cérebro um processo de consolidação da memória. Já na fase seguinte, a REM (rapid eye movement, “movimento rápido dos olhos”), a atividade cerebral é mais complexa, parecida com a que temos quando estamos acordados, e é quando sonhamos. Nessa fase, são gerados padrões mais variáveis entre os neurônios, com a capacidade de recombinar circuitos existentes. Isso é o cérebro sendo criativo.

Associar o sonho com o estado REM não é novidade. Mas um estudo divulgado em abril de 2017, pela Universidade de Wiscosin-Madison, nos Estados Unidos, revelou que sonhamos também fora dessa etapa e fez uma descoberta ainda mais importante: identificou quais partes do cérebro são ativadas durante os sonhos. Isso mostrou que, para a nossa mente, sonhar tem muita semelhança com estar acordado. “Os sonhos são uma forma de consciência que acontece durante o sono”, explicou o professor de psiquiatria Giulio Tononi, autor do estudo. Um de seus experimentos, que colocou 46 voluntários para dormir, mostrou que, estando ou não o dorminhoco na fase REM, sonhos só surgem quando regiões corticais posteriores do cérebro são ativadas.

Para Sigmund Freud, mais que a criatividade capaz de surgir nas noites inquietas, interessava o papel desse processo noturno na manifestação de desejos inconscientes. Por isso, o que há de revolucionário e permanente naquele que talvez seja o livro mais importante de Freud, A Interpretação dos Sonhos, não é sua tentativa de traduzir psicanaliticamente sequências de imagens sonhadas – o que ele faz bastante ao longo da obra, diga-se –, e sim a relação que pode existir entre o sonho e a forma como a nossa mente funciona. “O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”, ele escreveu.

Anotar os próprios sonhos era um dos hobbies de Freud, tanto que ele mantinha um diário com tudo o que lembrava de ter sonhado. Naquele período difícil de sua vida, em que fez autoanálise, Freud reuniu 160 sonhos para compor um livro – decisão tomada em 1897. Com a exceção de um sonho de infância, todos os outros tinham sido sonhados entre 1895 e 1899, quando ele já era quarentão. Dessa coletânea onírica, 70 foram contados por amigos e parentes – Freud evitava usar sonhos de pacientes porque achava que condições anormais da psique poderiam sabotar as interpretações.

A noção de que produzia ali uma obra magistral também o fez ver melhor, via autoanálise, o objetivo da coisa toda: o livro que o tornaria famoso era uma reação à morte recente de seu pai, o homem que um dia lhe disse, quando Sigmund era menino, que o pequeno nunca seria alguém na vida.

Do Egito Antigo à astrologia de internet

Interpretar sonhos, claro, não foi invenção de Freud. A prática de achar que o sonho significa alguma coisa, e tentar dar sentido a ele, é tão antiga quanto o Homo sapiens. Foram egípcios e assírios os primeiros a registrar por escrito essas interpretações. Para os antigos, o sonho era uma forma de comunicação com os deuses, e prevalecia o caráter premonitório. Reis chegavam a contratar tradutores de sonho para saber como seria uma batalha ou se o país teria dificuldades econômicas em breve. O livro do Gênesis, na Bíblia, traz uma passagem que exemplifica bem essa preocupação dos nossos antepassados com sonhos e pesadelos: é a história de José no Egito.

Bisneto de Abraão – o primeiro dos patriarcas bíblicos –, José é convocado para interpretar um sonho esquisitão do faraó do Egito: ele sonha que sete vacas magras e feias devoram outras sete, gordas e bonitas. E também que sete espigas de milho miúdas e queimadas devoram outras sete, muito mais apetitosas. Então José mata a charada. Viriam sete anos de fartura seguidos de sete anos de terra infértil. Aconselha o faraó a economizar na riqueza para não faltar na hora da miséria.

Coisa de gente primitiva, né? De um tempo em que um raio era encarado como um sinal divino, etc. etc. etc. Não é bem assim. A ideia de que um sonho pode ser uma antevisão do futuro permanece forte até hoje – ainda que seja algo tão científico quanto os malefícios de misturar manga com leite.

Quem nunca ouviu que sonhar com dente é sinal de morte na família? Para o astrólogo brasileiro João Bidu, que explica os significados de todo tipo de sonho em sua página na internet, só é morte se o dente estiver apodrecido. Se aparecer bonito e sadio, significa prosperidade financeira à vista. Já perder um dente no sonho, segundo o esotérico midiático, é sinal de que o homem vai perder outra coisa: sua potência sexual. Todo o conhecimento científico que nos separa do Egito Antigo não nos poupou da crença de que os sonhos usam dentes perfeitos ou cariados para expressar seu poder de oráculo.

Já Sigmund Freud, com a pretensão de estabelecer uma análise do sonho que pudesse incorporar à sua “ciência da mente”, afastou-se das interpretações premonitórias e dos misticismos. Mas concordou com os antigos egípcios em uma coisa: os sonhos faziam sentido, sim. E podiam ser interpretados.

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I Have a Dream

Entenda os mecanismos que o sonho tem para que você não perceba seus desejos ocultos. E os métodos de Freud para reverter esse mascaramento.

Se alguém lhe perguntar na lata qual é a teoria de Freud a respeito dos sonhos, uma resposta curta e precisa seria esta: o sonho é uma manifestação do nosso inconsciente que, se interpretada, revelará uma tentativa mental de realizar um desejo reprimido. (Não seria à toa que chamamos de sonhos as coisas que desejamos intensamente – e que nos parecem distantes.)

Curta e grossa, a resposta está certíssima. O problema é que vai gerar um monte de outras perguntas. Isso porque nossos pesadelos parecem ser a antítese exata dessa afirmação. Como é que todo sonho expressa um desejo? E o que dizer dos meus sonhos angustiantes nos quais estou sendo assaltado ou devorado por um tiranossauro do Jurassic Park, ou estou caindo do topo do Edifício Itália? Como eu poderia desejar essas tragédias? Calma. Freud explica tudo isso. No livro A Interpretação dos Sonhos, as explicações rendem coisa de 700 páginas. Mas nós vamos direto aos conceitos principais dessa teoria.

Em 1896, pouco antes do lançamento do livro de Freud, duas pesquisadoras americanas, Sarah Weed e Florence Hallam, realizaram um estudo com a análise de 381 sonhos. A conclusão foi de que 57,2% deles eram desagradáveis, com sentimentos negativos como medo, desamparo, vergonha, raiva, desapontamento, desconforto e perplexidade. E os sonhos cor-de-rosa, daqueles que te acordam com vontade de continuar o sonho? Apenas 28,6%.

Sendo assim, como é que os sonhos poderiam ser realizações de desejos, como Freud afirmou? A questão, segundo ele, é que o sonho do qual você se lembra quando abre os olhos de manhã é uma construção simbólica, uma tradução toda distorcida, mas menos chocante, do que a sua mente queria manifestar de verdade – e que era originalmente um desejo sendo realizado. Afinal, nossos desejos às vezes podem ser menos digeríveis que os pesadelos mais arrepiantes. Vamos a um exemplo.

Um chefe de família, homem de princípios conservadores, tem um pesadelo de que é perseguido por uma gangue de bandidos – homenzarrões brutos, musculosos e… cheirosos. Hum… Para a mente consciente desse indivíduo, que só se aceita como heterossexual convicto, não há dúvida de que a noite foi agitada por um pesadelo dos mais terríveis. Mas algumas sessões com um psicanalista poderiam chegar à tentativa inconsciente de realização de um desejo: assumir uma homossexualidade reprimida. Ou não. Depende. Talvez o homem quisesse, secretamente, tomar o lugar do pai na loja de perfumes da família – uma ambição que ele poderia considerar condenável.

Diferentemente do que sugere o astrólogo João Bidu, para Freud o mesmo tipo de sonho tem significados distintos de pessoa para pessoa. Esse mecanismo que transforma nossos desejos em histórias malucas quando dormimos é o que Freud chama de “trabalho do sonho”: um processo que retira o material cru de um pensamento inconsciente e, a partir dele, como um Salvador Dalí, monta a sequência surrealista que é o produto final dessa engrenagem. O ponto inicial do processo, Freud chama de conteúdo latente, e o final, de conteúdo manifesto – que é o mais familiar a todos nós.

Conteúdo manifesto é exatamente o que você costuma chamar de sonho: aquilo que a sua consciência percebeu, a historinha de que você se lembrou de manhã. Geralmente, são sequências sem muito sentido aparente – ou sem nenhum sentido. Já o conteúdo latente – oculto – é a origem e o verdadeiro significado desse filme surrealista. É onde está a tal tentativa inconsciente de realizar um desejo. Para chegar à sua consciência – e assim se transformar em conteúdo manifesto –, esse desejo escondido passa por distorções que a sua mente cria para torná-lo mais palatável para você mesmo. Como no caso do homem que não aceitava a própria homossexualidade, o desejo guardado nos cafundós da mente é tão insuportável para a consciência que ela o reprime. (Daí tanta gente ser chamada de reprimida – pessoas que lidariam mal com a própria personalidade porque têm dificuldade de se aceitar como são.)

A repressão no caso do sonho é uma autocensura que impede que nossos desejos mais incômodos cheguem claramente à nossa consciência. Há, portanto, duas forças opostas atuando no trabalho do sonho: de um lado, um desejo inconsciente que quer, sim, se manifestar; do outro, uma censura que quer poupar a consciência dos problemas que essa manifestação traria.

O sonho nasce, assim, de um dos conceitos essenciais da psicanálise, que é o conflito psíquico. Mas não que esse conflito seja ruim. Porque ele também é a maneira que a nossa mente encontra para deixar o resultado dessa briga satisfatório para ambas as partes. A censura prevalece – o homossexual latente achou que estava tendo um pesadelo em que provavelmente seria assaltado pelo bando de fortões. Mas o desejo reprimido também encontra, graças às maluquices desse mecanismo de transformação, um jeito de driblar a censura – e ver a luz da consciência, por meio do perfume agradável que os bandidões emanavam.

Essa maquiagem que o trabalho do sonho aplica no conteúdo latente – e que eu acabei de chamar bem toscamente de maluquices – tem modos diversos de operar, mas é sempre o que Freud chama de uma distorção.

O sonho é um mestre dos disfarces

As duas principais distorções que agem sobre os seus desejos inconscientes, no âmbito dos sonhos, são o deslocamento e a condensação. O deslocamento é quando o sonho transforma em outra coisa o verdadeiro elemento que o inconsciente quer manifestar. Ou seja, ele desloca o motivo da sua emoção reprimida para outro elemento, de forma a não abrir o jogo sobre com quem – ou com o quê – o seu desejo está lidando. Um exemplo: um paciente de Freud tinha raiva de sua cunhada e costumava referir-se a ela como uma cadela. Um belo dia, esse indivíduo sonhou que estava estrangulando um cachorrinho branco. O deslocamento operado pelo sonho fez com que o homem acordasse levemente incomodado por ter sonhado que matava um animalzinho. Mas o livrou de uma culpa maior: o desejo inconsciente de assassinar a própria cunhada.

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Essa distorção acontece também quando estamos despertos. Alguém tem um dia desgraçado no trabalho, terminando com uma discussão com o chefe, que considera um tirano sem coração. Aí chega em casa e dá um chute no gato. Para a pessoa, foi mais fácil dar um pontapé no bichano que no emprego – ou, literalmente, no chefe. Além disso, a filhinha que testemunhou o golpe no animal pode passar a ter fobia de felinos, deslocando seu medo original do ato violento – mais fácil evitar gatos que temer o pai para o resto da vida.

<strong>Seres mitológicos, situações bizarras… Segundo Freud, a historinha sem pé nem cabeça, do sonho, é o conteúdo manifesto, que usa de substituições nonsense para disfarçar pensamentos traumatizantes.</strong>
Seres mitológicos, situações bizarras… Segundo Freud, a historinha sem pé nem cabeça, do sonho, é o conteúdo manifesto, que usa de substituições nonsense para disfarçar pensamentos traumatizantes. Print Collector/Getty Images

Já o processo de condensação é juntar no sonho – condensar – duas ou mais ideias em uma só. Por exemplo, você tem diversas preocupações relacionadas a segurança: a da sua mãe, que já é idosa e mora sozinha; a do seu dinheiro, que anda curto; a do seu carro, que passa a noite toda estacionado na rua, à mercê dos bandidos. Então você sonha com um castelo. Talvez um castelo que o proteja no sonho do ataque de um dragão saído de Game of Thrones. Mas esse castelo – talvez você descubra na psicanálise – foi o elemento que a distorção achou para condensar uma série de desejos de ter mais segurança – para diversos aspectos ou pessoas da sua vida.

Outro exemplo: alguém pode descobrir, pelo processo psicanalítico, que, ao sonhar que estava dirigindo uma Ferrari vermelha, não tinha o óbvio e universal desejo de ter esse carrão na garagem. Mas, sim, um desejo inconsciente de que sua irmã, seu irmão e sua mãe – todos ruivos – tivessem uma situação financeira melhor. Os elementos originais do conteúdo latente, portanto, são três pessoas da sua família, que o sonho condensou no conteúdo manifesto em um único elemento: um carro esportivo caro, que exige uma situação financeira confortável do proprietário – e que é da cor do cabelo dos seus familiares.

Interpretando sonhos

Como já vimos, Freud foi um adepto da autoanálise e, sendo ele o inventor da coisa toda, julgava-se capaz de interpretar os próprios sonhos. Mas a recomendação é que a pessoa conte com um analista para chegar aos significados. A interpretação dos sonhos na psicoterapia, segundo o método freudiano, também se dá por meio da associação livre, que vimos no capítulo anterior.

No relato para o psicanalista, o paciente é encorajado a dizer qualquer coisa que os elementos do sonho despertem em sua mente. Se ele tiver sonhado com um pastel, poderá dizer algo como “havia uma feira na rua em que eu morava na adolescência”. O analista, então, poderá estimulá-lo a falar dessa rua, e a primeira coisa que virá à mente dele poderá ser “na esquina morava uma menina que eu achava linda, mas nunca tive coragem de falar com ela”… Talvez o processo chegue à conclusão de que o sonho do rapaz tinha na origem um desejo muito mais romântico do que deixaria supor a visão de um pastel de palmito encharcado de óleo. Mas por que essa história de amor sem final feliz seria reprimida pelo trabalho do sonho? Talvez porque lembrasse que a abordagem à moça só não aconteceu por conta de uma timidez que ainda é uma tortura na vida do sonhador.

Freud também explica que pode haver muita pegadinha nesse processo. “A interpretação depende da forma como o sonho foi contado.” Sim, para o pai da psicanálise, não é exatamente o que você lembra do sonho que vai expressar o conteúdo latente. E sim a forma como você o relata – porque ao longo das associações livres o sonho se transforma, vai daquela lembrança estática para uma narração, um trabalho em movimento. Daí a importância da sessão no divã.

Você pode ter sonhado com Mickey Mouse beijando seu tio João, aos pés do Cristo Redentor, enquanto nevava dentes-de-leão no Rio de Janeiro. Mas o que você enfatiza no relato desse sonho durante a análise são os olhos do Cristo, que estavam puxados como os de um japonês. Talvez seja esse detalhe – o menos absurdo da cena toda – que vá levar o analista a conduzir as associações que você fará para chegar ao significado.

Essa interpretação, na psicanálise, funciona na direção contrária do trabalho do sonho. O sonho parte de um desejo inconsciente – conteúdo latente – que passa por uma distorção para aparecer, de modo meio amalucado, na consciência. Já o trabalho de análise faz o caminho inverso. Ele parte desse conteúdo manifesto destrambelhado, que é o relato que você apresentou, para desfazer a distorção por meio da associação livre, e assim chegar ao início do processo: seu desejo inconsciente e reprimido.

Cada um é cada um

Se tinha algo que tirava Freud do sério era alguém mencionar uma coisa lida num desses “dicionários de sonhos” (cujas versões modernas você pode consultar livremente no Google). Como o pai da psicanálise também ficou famoso por dar significados sexuais a grande parte dos pensamentos inconscientes, uma paciente certa vez lhe disse que havia sonhado com um peixe que não parava de se mexer e, antes que Freud tivesse chance de dizer qualquer coisa, a mulher tratou de fazer sua própria interpretação: devia ser um pênis!

Só que não. Pelo método da associação livre, Freud descobriu que a mãe da mulher era apaixonada por astrologia, e que era do signo de Peixes. Achou plausível que essa mãe devesse andar pela cabeça da paciente porque ela desaprovava o fato de a filha estar se tratando com Freud. Por isso, segundo ele, era muito mais provável que o peixe fosse um deslocamento por trás do qual estivesse a mãe da paciente… e não um pênis.

Fosse tão simples assim, todo quiabo, peixe-espada, pepino, foguete, arranha-céu, berinjela representariam pintos nos nossos sonhos. Mas, para Freud, nada é tão simples. Segundo ele, o sonho e seus significados são um conjunto sob medida: só servem para aquele indivíduo. E isso desautoriza a ideia de que dente significa morte ou que matar uma cobra num sonho é sinal de que você vai ter uma vitória sobre pessoas que estão atrapalhando o seu sucesso (ver João Bidu). Para cada um, dente, cachorro e cobra podem significar coisas totalmente diferentes.

Freud e o Surrealismo

Durante a Primeira Guerra Mundial, quando tratava de soldados num hospital neurológico, o francês André Breton teve um primeiro contato com a obra de Freud. Esse escritor, que publicaria o Primeiro Manifesto Surrealista, em 1924, ficou fascinado pelas teorias sobre o inconsciente, que influenciariam muito o seu trabalho. Os postulados freudianos sobre os sonhos pareciam encaixar-se perfeitamente nas ideias dos jovens expoentes do surrealismo, para quem esse conteúdo, desprovido das limitações da realidade, era matéria-prima para a arte. Uma empolgação enorme por Freud que nunca foi recíproca. O pai da psicanálise não gostava das obras dos surrealistas e achava que eles nunca entenderam o seu trabalho.

<strong>A Metamorfose de Narciso, de Salvador Dalí. (Freud não gostou.)</strong>
A Metamorfose de Narciso, de Salvador Dalí. (Freud não gostou.) Bettmann/Getty Images

Breton fez arranjos para visitar seu ídolo em 1921, em Viena, mas saiu tão decepcionado do encontro que se recusou a falar do assunto, mesmo com sua esposa. Mais de duas décadas depois desse encontro, foi a vez de Salvador Dalí se encontrar com o mestre do inconsciente – já em Londres, pouco antes da morte de Freud. Na ocasião, Dalí mostrou ao austríaco seu quadro A Metamorfose de Narciso – bem ao seu estilo onírico, incorporando uma flor que brota de uma rachadura na casca de um ovo, o que representaria a cura simbólica para os males do narcisismo. Freud, no entanto, não se impressionou. Disse a um amigo, o escritor vienense Stefan Zweig, que gostaria de estudar psicanaliticamente como um quadro daqueles poderia ter sido pintado. E, para o próprio autor da obra, Freud foi direto também: “Na pintura clássica, eu procuro o inconsciente. Na pintura surrealista, preciso achar a consciência”. Dalí recebeu esse comentário como uma sentença de morte do surrealismo.

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Sonhos Típicos

Apesar de toda a contrariedade a respeito dos “dicionários de sonhos” e seus significados pré-moldados, Freud não escapa de também ter o seu glossário, ainda que numa versão miniatura.

perna masculina.

Ele diz respeito apenas a uma categoria onírica: os chamados sonhos típicos. Para Freud, esses sonhos são exceções no que diz respeito ao processo de interpretação. Sem depender tanto das associações livres, eles têm significados prontos e gerais, que devem valer para qualquer sonhador.

• Pelado na frente dos outros

Freud diz que o sonho da nudez tem origem na experiência infantil de ficar pelado na frente de adultos. Sonhar com isso é desejar uma volta ao paraíso da infância, um período desprovido de vergonha – e de responsabilidades, pressões, boletos para pagar e demais chateações da vida adulta.

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• Morte de um irmão

A chave da questão, de acordo com o austríaco, é que o mundo mágico dos sonhos é atemporal: eles podem tratar de desejos reprimidos recentes, mas também podem manifestar um desejo que você teve quando tinha 6 anos de idade. Uma época em que, pelo menos dez vezes por dia, uma criança pode desejar a morte do irmão – seu concorrente direto pelo amor dos pais, pelos brinquedos mais bacanas da casa, pela atenção de avós…

• Morte do pai ou da mãe

Teria a ver com egoísmo infantil também, aqui associado ao complexo de Édipo. “É como se uma predileção sexual se declarasse de maneira precoce, como se o menino e a menina vissem respectivamente no pai e na mãe os seus rivais no amor, cuja eliminação só lhes poderia trazer vantagens.”

• Sonho de voar

Freud diz ainda que o sonho típico de estar voando ou de cair de um lugar alto são outros retornos à infância do sonhador, ao desejo inconsciente de repetir as brincadeiras de Superman ou Mulher-Maravilha, em que adultos nos levantavam e nos giravam ao redor da sala, dizendo que estávamos voando. Talvez pelados.

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Atos Falhos

Chamou o namorado pelo nome do ex? Perdeu a aliança de casamento? Para Freud, nada disso é por acaso.

Além da associação livre e dos sonhos, outra forma de a psicanálise chegar ao nosso inconsciente é achando “falhas de sistema” nesse mecanismo da repressão. Como o déjà-vu em Matrix. E elas acontecem quando você está acordado mesmo, por curtos-circuitos nas nossas manifestações conscientes: são os nossos tropeções na rua, palavras que escapam da boca, amnésias e outras panes.

Você perde a chave de casa toda semana? Já chamou seu irmão de pai? Deixou cair, e quebrar, seu celular velhinho? E aquele nome de filme que você quer incluir na conversa, mas o título teima em escapar? Segundo Sigmund Freud, nenhum desses equívocos e acidentes é por acaso. Tudo isso é apenas a sua mente fazendo você de bobo na frente dos outros. Mas com a melhor das intenções.

Talvez você perca a chave porque está infeliz no casamento e, inconscientemente, não quer voltar para casa – o cenário desse compromisso insatisfatório. Talvez seu irmão represente uma figura paterna na sua vida, substituindo seu pai biológico – um sujeito ausente que nunca o levou ao parque para andar de bicicleta. Talvez a queda do celular velho fosse um jeito que a sua mente deu para satisfazer um desejo bem materialista: o de comprar aquele iPhone top de linha que você viu no shopping. Ou não. Pode ser que você quisesse evitar uma ligação incômoda que teria de fazer.

E o nome do filme… digamos que fosse Um Corpo que Cai (1958), do Alfred Hitchcock. Talvez você tenha temores a respeito de acidentes com a sua filhinha pequena. E uma das aflições comuns de mães e pais do mundo todo é que seus bebês caiam do berço – ou do trocador, do cadeirão, do colo de um parente descuidado… Seu bebê caindo e se machucando é uma visão tão dolorosa que, conscientemente, você evita pensar nela. Então uma forma que a sua mente encontra para lidar com essa angústia é rejeitando o nome de um filme que fala em corpo caindo.

Todos esses esquecimentos, trocas de palavras e gestos estabanados, com objetos ou com o próprio corpo, são o que Freud chamou de atos falhos – em inglês, Freudian slips, ou “lapsos freudianos”. São bobeiras que, muitas vezes, a gente nem nota. Mas que seriam a consequência de um jiu-jitsu entre a nossa consciência e pensamentos inconscientes em busca de expressão. Entre repressão e desejo. O que sai desse combate é um lutador tão estropiado – o ato falho em pessoa – que em nada se parece com o cara que entrou na luta – a ideia inconsciente que queria se manifestar.

Segundo Freud, não queremos lidar com complexos, com ansiedades muito grandes, com tabus sexuais ou até com uma vontade terrível de se matar. O ato falho é a forma que nossa mente cria de assumir esse conflito: provocando uma ruptura no sentido original do pensamento, o que leva a um equívoco, uma pequena amnésia ou um acidente.

Ninguém expressa isso tão bem quanto o personagem Chaves, ídolo eterno das matinês do SBT. Toda vez que ele apronta uma, sua explicação é “foi sem querer, querendo”. E a essência do ato falho está justamente aí: é claro que, conscientemente, não queremos cometer erros, deslizes, tropeções – não queremos chamar a namorada pelo nome da ex. Mas os lapsos são uma forma de satisfazer desejos e motivações inconscientes. E, ainda que de uma forma torta, conseguir um equilíbrio nisso tudo.

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