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Sociedade

Uma cidade hipertecnológica projetada pelo Google

Ruas de LED, robôs lixeiros, zoneamento digital; e um software hiperpoderoso que vigia e controla todos os aspectos da vida urbana. Conheça o Projeto Quayside, que o Google pretende construir no Canadá como laboratório para as cidades do futuro – e a onda de polêmicas em torno dele

Texto Emanuel Neves e Bruno Garattoni* | Ilustração Guilherme Henrique | Design Maria Pace
(*colaborou Rodrigo Azevedo)

Até 2030, as cidades receberão mais de 1,3 bilhão de pessoas. O crescimento vai evidenciar a divisão entre ricos e pobres, com favelas se expandindo rapidamente ao lado de arranha-céus (…) Núcleos de alta tecnologia irão coexistir com lixões, esgotos transbordantes, água poluída e redes elétricas clandestinas (…) As estruturas sociais serão esgarçadas, com redes criminosas oferecendo uma oportunidade para a massa cada vez maior de desempregados. (…) Esse é o mundo do futuro, para o qual não estamos preparados. E é inevitável.” 

Esses são alguns trechos do vídeo Megacities: Urban Future, produzido pelo Pentágono para treinar seus estrategistas militares (e obtido, via Lei de Acesso à Informação, pelo site The Intercept). A vida urbana pode ser infernal – 63% dos moradores de São Paulo gostariam de se mudar dela, segundo pesquisa do Ibope –, e deve se tornar mais infernal ainda. Mas precisa mesmo ser assim? O Google acha que não, e quer provar: erguendo do zero um bairro planejado, em que um conjunto de tecnologias radicais e técnicas de análise de dados atuarão em conjunto para aumentar a qualidade de vida. O projeto está sendo tocado pela Sidewalk Labs, uma subsidiária do Google que, em suas próprias palavras, “imagina, projeta, testa e constrói inovações urbanas”. Ela foi fundada em 2015, e em 2016 surgiram rumores de que a empresa estaria interessada em construir uma “cidade digital” em algum ponto dos EUA. No ano seguinte, ela recebeu autorização para fazer isso, mas no Canadá: Justin Trudeau, primeiro-ministro do país, anunciou que a Sidewalk Labs ergueria um bairro planejado em Quayside, na zona portuária de Toronto.

A empresa manifestou interesse em assumir uma área de 190 acres (o equivalente a meio Parque do Ibirapuera) e transformá-la num verdadeiro paraíso urbano, com construções ecológicas, transportes ultramodernos, aluguéis subsidiados e soluções urbanísticas radicais. E, também, uma “malha digital” onipresente, formada por dezenas de milhares de sensores que monitoram diversos elementos do bairro e estão conectados ao Model, um software de inteligência artificial que controla tudo e supostamente consegue até prever, com alto grau de certeza, o que vai acontecer durante os próximos 30 minutos: a quais lugares as pessoas vão, o que elas vão fazer e consumir. “Queremos transformar essa parte de Toronto em vitrine global. Espera-se que as inovações testadas lá sejam usadas em outros bairros do Canadá e do mundo”, diz Stephanie Chow, porta-voz da Waterfront Toronto (joint venture entre a Sidewalk Labs, a prefeitura da cidade e o governo da província de Ontario). Mais do que uma cidade em si, Quayside é um modelo para a reinvenção das metrópoles do futuro – com a filosofia do Google.

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A vida em Quayside

O barulho do guincho, que está trabalhando no último andar do prédio, corta o silêncio habitual das manhãs. Lucy, moradora do térreo, assiste ao movimento da máquina enquanto chama um táxi autônomo (sem motorista) pelo app. O carro demora um minuto para chegar. Quando ela embarca, o computador de bordo a reconhece e toca sua playlist favorita. Richard, o cego do sexto andar, sai a pé para o trabalho, como todos os dias. Seu smartphone detecta que a calçada está sendo consertada e guia Richard, usando comandos de voz, por um caminho diferente. Perto dali, estaciona uma van escolar autônoma. O robô só abre as portas depois de ativar os toldos retráteis da calçada, protegendo as crianças do sol. James e Mary, o casal do terceiro andar, saem para pedalar e se juntam aos demais ciclistas que esperam na esquina e lotam a avenida. Automaticamente, as luzes de LED que demarcam as faixas de trânsito se reconfiguram, reduzindo o espaço dos carros e triplicando a largura das ciclovias.

O guincho termina sua tarefa ao fim do dia. Agora, o prédio tem apenas oito andares, um a menos do que antes. Isso porque as edificações de Quayside são feitas de madeira e altamente modulares: seus espaços internos podem ser transformados em escritórios, apartamentos ou até em pequenas fábricas, e também é possível eliminar andares inteiros. Neste exemplo, uma parte ociosa do terraço foi retirada e instalada no terreno ao lado, que irá abrigar uma oficina de bicicletas. Essa decisão foi objetiva: os empresários escolheram o ponto após consultar o banco de dados de Quayside, que reúne todas as estatísticas do bairro (e revelou que ele concentra muitos ciclistas).

Usar madeira para fazer prédios pode parecer inviável, mas já é realidade: em 2017, a Universidade da Columbia Britânica, em Vancouver, inaugurou a torre Brock Commons, um edifício de 18 andares com estrutura feita inteiramente de madeira. A utilização desse material fez com que a obra deixasse de emitir 2.400 toneladas de CO2 – o equivalente à poluição gerada por 2.400 carros durante um ano (supondo que cada um deles rode 30 km por dia). “O Canadá tem muita madeira. Se colhido de forma sustentável, o material é um meio mais ecológico de desenvolver edifícios”, diz Christopher de Sousa, diretor da escola de urbanismo da Universidade Ryerson, em Toronto.

Isso porque as árvores provêm de áreas de replantio – e o CO2 que sugaram da atmosfera segue preso na estrutura das construções. Além de madeira, as construções de Quayside poderiam incluir o micélio, um tipo de fungo, e o shikkui, um gesso japonês feito de algas, soja e fibras vegetais.

O piso das ruas seria construído com blocos de madeira, fixados com parafusos. Eles poderiam ser facilmente retirados, permitindo um redesenho rápido das ruas (nada de britadeira). Outro recurso voltado à mudança são as luzes de LED acopladas nas placas de madeira. Elas substituiriam as faixas pintadas com tinta no chão. Os pontos luminosos podem ser programados para mudar a orientação das vias automaticamente, dependendo do movimento. Já os semáforos são capazes de calcular a velocidade de carros, ciclistas e pedestres em tempo real para concatenar a troca de sinais e otimizar o fluxo. Além disso, as ruas teriam um sistema de aquecimento próprio, para derreter o gelo do chão (Toronto costuma ter nevascas e temperaturas negativas cinco meses por ano).

O projeto prevê carros, vans e táxis autônomos, bem como bondes elétricos que trafegariam em linhas predefinidas. Isso permitiria reduzir a quantidade de carros e o espaço ocupado por eles: pelo plano da Sidewalk Labs, 51% do bairro será composto por áreas verdes. Haveria uma rede de túneis subterrâneos para transporte de lixo, que seria coletado por robôs em formato de paletes. O bairro todo seria conectado por tubulações. Essa estratégia já é adotada nos parques da Disney, cujo subsolo é interligado por túneis.

A principal característica de Quayside é que praticamente tudo, das árvores aos semáforos, poderia ser redefinido. Imagine, por exemplo, um reles banco de praça. Os sensores podem mostrar que ele está num lugar ruim, longe do fluxo de pessoas – ou que recebe excesso de radiação solar. Então, seria reposicionado. Toda a “mobília pública” – placas, semáforos, lixeiras, etc. –, que nas cidades atuais é organizada de acordo com previsões urbanísticas, poderia ser disposta segundo dados reais, que refletem os verdadeiros hábitos da população. A lógica do projeto é aplicar a voracidade típica do Google, que sempre quer coletar e processar mais dados, à vida “offline”. Mas isso tem um preço: deixar o próprio dia a dia ser monitorado. E isso, apesar de todas as promessas, os canadenses têm hesitado em fazer.

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Da Stasi ao Analytics

Em 1950, um ano após a fundação da Alemanha Oriental, o país criou a Stasi (abreviação para “serviço de segurança estatal”). O propósito dessa agência, que foi montada com a orientação da KGB, era proteger o regime. E ela fazia isso, principalmente, espionando o povo em escala jamais vista: a Stasi manteve registros detalhados sobre 5,6 milhões de alemães, um terço da população. Ela abria correspondência, colocava microfones e câmeras escondidas, usava uma rede de 190 mil informantes e chegou, até, ao extremo de capturar o odor de pessoas suspeitas. Ela fazia isso coletando (às vezes, roubando) roupas e objetos pessoais, ou colocando paninhos nas cadeiras das delegacias – onde essas pessoas se sentavam para depor. Em seguida, tudo era colocado num pote hermeticamente fechado, que ficava guardado. Se um dia você fosse acusado de alguma coisa, a agência usava cães farejadores para comparar o seu cheiro com uma amostra recolhida na cena do suposto crime. O objetivo da Stasi era coletar o máximo possível de informações sobre o máximo possível de indivíduos – incluindo até o odor deles.

Mas nem em seus sonhos mais delirantes os espiões da Alemanha Oriental poderiam imaginar o mundo atual. O Google tem um registro com todos os lugares onde você esteve, minuto a minuto, ao longo de toda a sua vida (pois o Google Maps, mesmo quando não está sendo usado, monitora e envia a localização do seu smartphone).

Se você usa o Gmail, ele tem acesso a todos os emails que você já enviou ou recebeu: sabe com quem, e o quê, você falou. Também vê todos os sites que você acessou, o que comprou online, as buscas que fez. O Google sabe o que você quer, o que você teme – e, em certo grau, o que você pensa. É algo avassalador, sem precedentes na história. Que tal, então, dar agora a ele o poder de monitorar também o mundo offline?

A ideia explodiu como uma granada entre os moradores e a imprensa de Toronto, que começaram a levantar uma série de objeções. “Esse novo modo de vida me parece adorável, mas sabemos como o Google rastreia nosso dia a dia. Estou extremamente preocupada”, diz Carolyn Johnson, integrante da York Quay Neighbourhood Association (YQNA), uma associação comunitária de Toronto. A Sidewalk Labs formou um conselho de especialistas independentes para debater o controle dos dados, e afirmou reiteradamente que eles não serão vendidos a terceiros nem utilizados para fins publicitários. Será mesmo? O que impediria, no futuro, a empresa de alterar sua “política de uso de serviços”, como o Google e as outras empresas de tecnologia muitas vezes fazem? Na internet, quando isso acontece você simplesmente clica em “OK” – pois não quer ficar sem acesso ao seu email, redes sociais, etc. Mas até dá para trocar de serviço. Na vida offline, não é assim; os moradores de Quayside não teriam como buscar outra empresa de coleta de lixo, controle de trânsito e demais serviços municipais. Ficariam reféns.

“O contrato [entre a prefeitura e a Sidewalk] deveria ter estabelecido que a infraestrutura digital do projeto seria pública, e os dados seriam de propriedade e controlados pelos residentes de Toronto. Mas isso não consta lá”, diz a cientista política Bianca Wylie, do Centro de Inovação em Governança Internacional (CIGI), uma ONG canadense de defesa dos direitos digitais. Além de compartilhar os dados com o Google, a Sidewalk Labs poderia manipular os elementos urbanos com fins comerciais.

O tráfego de veículos, por exemplo, poderia ser redirecionado para favorecer determinadas lojas – e a Sidewalk teria o poder de negar a manipulação, dizendo que foi “o algoritmo” quem tomou a decisão. “O que significa ter o seu comportamento transformado em produto? Como podemos proteger nossas vidas e hábitos de serem conhecidos, rastreados e vendidos?”, diz Wylie. “No mínimo, o Canadá precisará ter a sua própria versão do GDPR [General Data Protection Regulation, um conjunto de leis aprovadas em 2016 para proteger os dados dos cidadãos europeus]. Mas ainda seria pouco.” De fato. A GDPR é muito ampla, e tenta oferecer alguma proteção até contra mecanismos que ainda não existem. Mas dificilmente seria capaz de lidar com uma situação como a de Quayside – em que todos os elementos urbanos são interconectados digitalmente, e controlados por uma única empresa.

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Guilherme Henrique/Superinteressante

A pressão popular fez com que a prefeitura de Toronto se mexesse. Em fevereiro, as autoridades derrubaram 16 pontos do projeto. Lembra dos toldos retráteis automáticos, que protegeriam as calçadas e citamos neste texto? Foram rejeitados, bem como a ideia de construir um “bosque artificial”, com quiosques de madeira de 8 metros de altura, no centro de Quayside. A Sidewalk Labs foi forçada a recuar, e agora abre mão dos 190 acres iniciais: se diz satisfeita, por enquanto, com apenas 12 (50 mil metros quadrados, o equivalente a uma área de 10×5 quarteirões). Não ficará responsável pela construção de todas as edificações, como pretendia. Também vai ceder o controle do planejamento urbano para a Waterfront Toronto, que ficará responsável pelos dados dos moradores.

A empresa diz que está desenvolvendo câmeras que não seriam capazes de reconhecer rostos humanos (apenas silhuetas, o que já é suficiente para diferenciar um humano de um cachorro ou uma moto de um carro). E o Google prometeu transferir sua sede canadense para perto de  Quayside, dando um empurrão econômico à região. Tudo isso para tentar aplacar a desconfiança da população local.

Mas, mesmo se conseguir fazer isso, há uma série de obstáculos legislativos e financeiros. O Canadá não tem uma lei que regule o tráfego de carros autônomos, por exemplo. Ela teria de ser redigida e aprovada. Outras questões fundamentais se referem às formas de financiamento e remuneração do projeto. O custo inicial de Quayside está em torno de US$ 1 bilhão. Para o Google, não é nada: a Alphabet, holding que reúne Google, YouTube e todas as subsidiárias,  faturou US$ 40 bilhões só nos últimos três meses de 2019. Mas a Sidewalk Labs não é uma instituição filantrópica; visa ao lucro. E aí surge a grande dúvida: como?

A empresa diz que não irá se sustentar com publicidade (como o Google faz na internet). Em tese, ela captaria investidores no mercado e ganharia dinheiro vendendo as soluções aplicadas em Toronto para outras cidades. Mas isso ainda não foi definido. Também não está claro se a prefeitura teria direito a receber royalties pelas invenções. A própria aplicação de certas propostas é colocada em xeque, devido a algumas particularidades de Toronto. O clima frio e chuvoso é uma delas. “As ideias de tráfego são ótimas para um lugar quente como a Califórnia, mas não sei se são adaptáveis ao inverno canadense”, diz o urbanista Mitchell Kosny, que dirigiu o Conselho de Planejamento Social de Toronto.

A Sidewalk Labs continua ouvindo a população de Toronto, desenvolvendo seu plano e negociando com as autoridades – que, apesar das ressalvas, aprovaram 144 pontos do projeto. A decisão sobre o futuro de Quayside sai até o final do ano. A empresa ainda não sabe estimar quantas pessoas irão morar no distrito ou frequentá-lo. Também não há um calendário de obras. “Atualmente, estamos focados na elaboração do plano final e não temos um cronograma”, desconversa Stephanie Chow, da Waterfront Toronto. Por enquanto, o bairro do futuro ainda é coisa do futuro. 


Publicado na edição impressa com o título A Cidade do Google.

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