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8 polêmicas ao redor do prêmio Nobel

Ao longo da história, nem sempre os vencedores e indicados foram unânimes – ou merecedores. Veja alguns momentos em que a polêmica cercou a premiação.

Por Raquel Sodré Atualizado em 6 fev 2019, 15h02 - Publicado em 9 out 2015, 17h15

Todos os anos a comunidade científica se reúne para dar os devidos créditos àqueles que se destacaram em seus campos de pesquisa e realizaram descobertas ou feitos notáveis, com potencial para mudar o mundo. A esses, é concedido o desejado Prêmio Nobel, a maior premiação científica do planeta.

Nomes importantes da ciência, economia, medicina, líderes de governo e escritores (de Albert Einstein a Nelson Mandela, passando por Malala e Bob Dylan) já tiveram seus legados homenageados ao longo dos mais de 120 anos de história da premiação. Até a última, em 2018, foram 590 prêmios e 904 pessoas laureadas, além de 27 organizações (como Comitê Internacional da Cruz Vermelha, por exemplo). Algumas delas, inclusive, mais de uma vez.

Mas nem tudo são flores no meio acadêmico e já rolou muita controvérsia nos bastidores desse prêmio tão cobiçado. Listamos, abaixo, alguns dos casos mais marcantes.

1. Ciência de macho para macho

Marie Curie

A ciência ainda é um terreno pouco amigável para as mulheres – o que é fruto de crítica até dos próprios cientistas. No Nobel não é diferente. Das 904 pessoas que já foram premiadas até hoje, somente 51 (ou seja 4,5%) eram mulheres – Marie Curie, acima, foi exceção ao ganhar duas vezes. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Jocelyn Bell Burnerll, que descobriu os pulsares (estrelas de neutron com rotação muito, muito rápida) em 1967. Depois da descoberta, ela publicou um artigo científico sobre o tema junto com seu orientador, Antony Hewish. Na hora do prêmio, contudo, só Hewish e um outro colega, Martin Ryle (também homem), ganharam o Nobel de Física pela descoberta dos pulsares, em 1974.

2. Pela paz/contra a paz

Ver a divulgação dos novos supercientistas que estão levando os Nobel pra casa é sempre legal. Mas nenhuma das categorias é tão aguardada como o Nobel da Paz. Mas verdade é que vários dos premiados já foram criticados por… comportamento contra a paz. Entre os mais famosos deles está Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Em 1994, ele dividiu o prêmio com os israelenses Yitzhak Rabin e Shimon Peres por seu trabalho nos Acordos de Oslo, parte fundamental do processo de paz entre Israel e Palestina. O que os críticos apontam, porém, é que, enquanto Arafat era líder do Fatah, a OLP se envolveu em atos de terrorismo.

3. Hitler pacífico?

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Falando em Nobel da Paz, sabe quem também foi indicado ao prêmio? Adolf Hitler. Não, não foi um homônimo que tenha lutado por algo importante como o fim da mutilação genital feminina, por exemplo. Sim, foi o próprio Hitler, aquele, responsável pelo Holocausto. Sua indicação, pelo menos, foi em 1939, antes de ele promover o maior absurdo da história do mundo. Um legislador suíço havia colocado o nome de Hitler na contenda de brincadeira, mas ninguém achou engraçado. A indicação, na verdade, causou uma revolta geral, e foi retirada logo. Outro líder polêmico a receber indicações foi Joseph Stálin. No caso do soviético, foram duas menções, em 1945 e 1948, justificadas pelos seus esforços para o fim da Segunda Guerra.

4. “Não, obrigado”

Enquanto uns e outros fazem o trabalho de uma vida inteira pensando no Nobel, dois vencedores do prêmio já dispensaram a honraria (uma baita desfeita, nas palavras da minha avó). O escritor Jean-Paul Sartre, rei do desagrado que recusava todos os prêmios oficiais, não aceitou o Nobel de Literatura em 1964. Dez anos depois, o clubinho dos sem-graça recebeu também o político vietnamita Le Duc Tho. Junto com Henry Kissinger, eles receberam o Nobel da Paz pelo fim da Guerra do Vietnam. Mas Tho recusou a honraria por considerar que a paz ainda não estava estabelecida.

5. Recalque

Acho que depois da “brincadeira” de indicar Hitler ao Nobel da Paz, ele ficou bem, digamos, indisposto com a premiação. Mas o caldo começou a engrossar já em 1935, quando o jornalista alemão, Carl von Ossietzky, que era declaradamente contrário a Hitler, recebeu o prêmio pela paz. Consequentemente, Hitler, aquele vingativo, proibiu que todos os alemães aceitassem qualquer Nobel. Além disso, ele criou o “genérico” Prêmio Nacional Alemão de Artes e Ciência para competir com o suíço. Richard Kuhn (Nobel de Química, 1938), Adolf Butenandt (Nobel de Química, 1939) e Gerhard Domagk (Nobel de Medicina e Fisiologia, 1939) foram obrigados a rejeitar o prêmio. Mas receberam seus diplomas e medalhas anos mais tarde.

6. Conflito de interesses

O Nobel de Medicina e Fisiologia de 2008 foi para o médico alemão Harald zur Hausen, responsável por descobrir a relação entre o papiloma vírus humano (HPV) e o câncer de colo de útero. O problema era que, naquele ano, a AstraZeneca, laboratório fabricante de vacinas contra o HPV, estava patrocinando o Nobel. Não bastasse isso, dois membros do comitê que escolher zur Hausen era ligado à empresa. Um suposto favorecimento do médico pela ligação clara de sua pesquisa com o patrocinador do prêmio não ficou clara, mas o conflito de interesses gerou polêmica e críticas naquele ano.

7. Cadê o Gandhi?

Nada faria mais sentido do que premiar o maior símbolo da paz do século 20 com o Nobel, certo? Só que isso nunca aconteceu. Considerado pela Europa (e principalmente pelos colonizadores ingleses da Índia) um “terrorista” e agitador político perigoso, Gandhi acabou ignorado pelo comitê em Oslo. Anos depois, a organização declarou que a ausência do homem que lutou pela independência da Índia uma de suas maiores omissões.

8. Já vai tarde

Mas tudo já começou com o próprio Alfred Bernhard Nobel, o fundador do prêmio. Inventor da dinamite e outros explosivos de grande poder de destruição, a imagem de Alfred não era lá das melhores – essa reputação, aliás, fez com que um jornal francês “matasse” Nobel antes da hora. A confusão aconteceu quando o irmão de Alfred morreu, e o tal jornal noticiou que “o mercador da morte está morto”. Não satisfeitos, disseram ainda que ele “ficou rico encontrando formas de matar mais gente mais rapidamente que antes”. O “carinho” do jornal francês foi, provavelmente, o que motivou Nobel a criar o prêmio que o fez passar para a história como o maior incentivador da ciência de todos os tempos.

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