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8 polêmicas ao redor do prêmio Nobel

Ao longo da história, nem sempre os vencedores e indicados foram unânimes – ou merecedores. Veja alguns momentos em que a polêmica cercou a premiação.

Todos os anos a comunidade científica se reúne para dar os devidos créditos àqueles que se destacaram em seus campos de pesquisa e realizaram descobertas ou feitos notáveis, com potencial para mudar o mundo. A esses, é concedido o desejado Prêmio Nobel, a maior premiação científica do planeta.

Nomes importantes da ciência, economia, medicina, líderes de governo e escritores (de Albert Einstein a Nelson Mandela, passando por Malala e Bob Dylan) já tiveram seus legados homenageados ao longo dos mais de 120 anos de história da premiação. Até a última, em 2018, foram 590 prêmios e 904 pessoas laureadas, além de 27 organizações (como Comitê Internacional da Cruz Vermelha, por exemplo). Algumas delas, inclusive, mais de uma vez.

Mas nem tudo são flores no meio acadêmico e já rolou muita controvérsia nos bastidores desse prêmio tão cobiçado. Listamos, abaixo, alguns dos casos mais marcantes.

1. Ciência de macho para macho

Marie Curie

A ciência ainda é um terreno pouco amigável para as mulheres – o que é fruto de crítica até dos próprios cientistas. No Nobel não é diferente. Das 904 pessoas que já foram premiadas até hoje, somente 51 (ou seja 4,5%) eram mulheres – Marie Curie, acima, foi exceção ao ganhar duas vezes. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Jocelyn Bell Burnerll, que descobriu os pulsares (estrelas de neutron com rotação muito, muito rápida) em 1967. Depois da descoberta, ela publicou um artigo científico sobre o tema junto com seu orientador, Antony Hewish. Na hora do prêmio, contudo, só Hewish e um outro colega, Martin Ryle (também homem), ganharam o Nobel de Física pela descoberta dos pulsares, em 1974.

2. Pela paz/contra a paz

Ver a divulgação dos novos supercientistas que estão levando os Nobel pra casa é sempre legal. Mas nenhuma das categorias é tão aguardada como o Nobel da Paz. Mas verdade é que vários dos premiados já foram criticados por… comportamento contra a paz. Entre os mais famosos deles está Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Em 1994, ele dividiu o prêmio com os israelenses Yitzhak Rabin e Shimon Peres por seu trabalho nos Acordos de Oslo, parte fundamental do processo de paz entre Israel e Palestina. O que os críticos apontam, porém, é que, enquanto Arafat era líder do Fatah, a OLP se envolveu em atos de terrorismo.

3. Hitler pacífico?

Falando em Nobel da Paz, sabe quem também foi indicado ao prêmio? Adolf Hitler. Não, não foi um homônimo que tenha lutado por algo importante como o fim da mutilação genital feminina, por exemplo. Sim, foi o próprio Hitler, aquele, responsável pelo Holocausto. Sua indicação, pelo menos, foi em 1939, antes de ele promover o maior absurdo da história do mundo. Um legislador suíço havia colocado o nome de Hitler na contenda de brincadeira, mas ninguém achou engraçado. A indicação, na verdade, causou uma revolta geral, e foi retirada logo. Outro líder polêmico a receber indicações foi Joseph Stálin. No caso do soviético, foram duas menções, em 1945 e 1948, justificadas pelos seus esforços para o fim da Segunda Guerra.

4. “Não, obrigado”

Enquanto uns e outros fazem o trabalho de uma vida inteira pensando no Nobel, dois vencedores do prêmio já dispensaram a honraria (uma baita desfeita, nas palavras da minha avó). O escritor Jean-Paul Sartre, rei do desagrado que recusava todos os prêmios oficiais, não aceitou o Nobel de Literatura em 1964. Dez anos depois, o clubinho dos sem-graça recebeu também o político vietnamita Le Duc Tho. Junto com Henry Kissinger, eles receberam o Nobel da Paz pelo fim da Guerra do Vietnam. Mas Tho recusou a honraria por considerar que a paz ainda não estava estabelecida.

5. Recalque

Acho que depois da “brincadeira” de indicar Hitler ao Nobel da Paz, ele ficou bem, digamos, indisposto com a premiação. Mas o caldo começou a engrossar já em 1935, quando o jornalista alemão, Carl von Ossietzky, que era declaradamente contrário a Hitler, recebeu o prêmio pela paz. Consequentemente, Hitler, aquele vingativo, proibiu que todos os alemães aceitassem qualquer Nobel. Além disso, ele criou o “genérico” Prêmio Nacional Alemão de Artes e Ciência para competir com o suíço. Richard Kuhn (Nobel de Química, 1938), Adolf Butenandt (Nobel de Química, 1939) e Gerhard Domagk (Nobel de Medicina e Fisiologia, 1939) foram obrigados a rejeitar o prêmio. Mas receberam seus diplomas e medalhas anos mais tarde.

6. Conflito de interesses

O Nobel de Medicina e Fisiologia de 2008 foi para o médico alemão Harald zur Hausen, responsável por descobrir a relação entre o papiloma vírus humano (HPV) e o câncer de colo de útero. O problema era que, naquele ano, a AstraZeneca, laboratório fabricante de vacinas contra o HPV, estava patrocinando o Nobel. Não bastasse isso, dois membros do comitê que escolher zur Hausen era ligado à empresa. Um suposto favorecimento do médico pela ligação clara de sua pesquisa com o patrocinador do prêmio não ficou clara, mas o conflito de interesses gerou polêmica e críticas naquele ano.

7. Cadê o Gandhi?

Nada faria mais sentido do que premiar o maior símbolo da paz do século 20 com o Nobel, certo? Só que isso nunca aconteceu. Considerado pela Europa (e principalmente pelos colonizadores ingleses da Índia) um “terrorista” e agitador político perigoso, Gandhi acabou ignorado pelo comitê em Oslo. Anos depois, a organização declarou que a ausência do homem que lutou pela independência da Índia uma de suas maiores omissões.

8. Já vai tarde

Mas tudo já começou com o próprio Alfred Bernhard Nobel, o fundador do prêmio. Inventor da dinamite e outros explosivos de grande poder de destruição, a imagem de Alfred não era lá das melhores – essa reputação, aliás, fez com que um jornal francês “matasse” Nobel antes da hora. A confusão aconteceu quando o irmão de Alfred morreu, e o tal jornal noticiou que “o mercador da morte está morto”. Não satisfeitos, disseram ainda que ele “ficou rico encontrando formas de matar mais gente mais rapidamente que antes”. O “carinho” do jornal francês foi, provavelmente, o que motivou Nobel a criar o prêmio que o fez passar para a história como o maior incentivador da ciência de todos os tempos.