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9 perguntas sobre Leonardo Da Vinci que nunca se calam

Da prática de bruxaria ao funeral seguido por 60 mendigos.

1. O Santo Sudário é obra de Da Vinci?

Santo Sudário A peça de linho de 4,36 metros de comprimento e 1,1 metro de largura fica guardada na catedral de São João Batista, em Turim.

A peça de linho de 4,36 metros de comprimento e 1,1 metro de largura fica guardada na catedral de São João Batista, em Turim. (Reprodução/Divulgação)

O sudário é uma peça de linho com 4,36 metros de comprimento e 1,1 metro de largura. Conhecido desde meados do século 14, fica guardado na catedral de São João Batista, em Turim, e eventualmente é exposto ao público.

Há quem acredite que ele seja obra de Da Vinci, como os pesquisadores ingleses Lynn Picknet e Clive Prince. A tese virou notícia em 2006, quando eles lançaram em conjunto o livro Turin Shroud: How Leonardo da Vinci Fooled History (“O Sudário de Turim: Como Leonardo da Vinci Fraudou a História”, na versão brasileira).

Três anos mais tarde, a artista plástica norte-americana Lillian Schwartz endossou a história, depois de analisar imagens da mortalha em computador. E foi além, muito além: afirmou que o rosto impresso no tecido não era de Jesus Cristo, mas do próprio Da Vinci.

As teorias de Picknet, Prince e Schwartz podem até render um bom roteiro de cinema, mas foi duramente criticada por cientistas. E por religiosos: para a Igreja, o Santo Sudário é e sempre será a representação do corpo de Cristo.

Já os cientistas preferem depositar suas fichas em uma datação de carbono-14 feita em 1988, segundo a qual o sudário teria sido confeccionado entre os anos de 1260 e 1390. Qualquer que seja a hipótese, ela não bate com a tese da autoria do renascentista.

 

 

2. Ele era alquimista?

Provavelmente não. Em suas anotações, Da Vinci criticava quem “desperdiçava energia procurando por elixires da vida”. Uma das notas registra textualmente o seguinte: “Os antigos alquimistas não conseguiram, por sorte ou com experimentos, criar nem mesmo o menor elemento. (…) Merecem louvores por desenvolver coisas muito úteis para o uso das pessoas, mas mereceriam ainda mais se não fossem os inventores de produtos nocivos, como venenos.”

Destaque-se, todavia, que o gênio renascentista viveu uma época em que as fronteiras entre ciência, arte e misticismo não eram lá muito bem definidas. Por exemplo: astronomia e astrologia se emaranhavam tanto que eram consideradas um só campo de estudos – inclusive por intelectuais sofisticados como Da Vinci.

“As linhas mestras do pensamento renascentista, das quais Leonardo era não só seguidor, mas entusiasta, juntavam o humanismo grego com experiências alquimistas e conhecimentos herméticos”, diz Christopher Witcombe, professor do departamento de história da arte da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos. “Era esse o ambiente no fim do século 15, começo do século 16.”

3. Ele escondeu códigos de verdade em seus quadros?

Mona Lisa Nas pupilas de Mona Lisa há letrinhas miúdas, invisíveis a olho nu, pintadas por Da Vinci,

Nas pupilas de Mona Lisa há letrinhas miúdas, invisíveis a olho nu, pintadas por Da Vinci, (Reprodução/Divulgação)

Sim, escondeu. E o fez, inclusive, em uma de suas obras mais famosas, Mona Lisa. A descoberta foi feita em 2010 pelo pesquisador italiano Silvano Vinceti, presidente da comissão nacional de patrimônio cultural da Itália.

Ao analisar a pintura com a ajuda de um microscópio eletrônico, ele encontrou uma série de letras nas duas pupilas da moça retratada. Invisíveis a olho nu, elas foram pintadas com tinta preta sobre fundo verde e marrom escuros. As da pupila esquerda estão ligeiramente borradas. Na direita, identificam-se claramente as letas “LV” (de Leonardo da Vinci). Na esquerda, algo parecido com “CE” ou “CB”.

O que elas significam? Não se sabe. Vinceti acredita que as letras podem ser iniciais do nome da modelo, o que derrubaria a tese de que a retratada era a florentina Lisa Gherardini. O pesquisador está convencido de que a pintura não foi feita em Florença entre 1503 e 1506, como se supõe, mas em Milão na década de 1490. A modelo, portanto, provavelmente seria uma mulher da corte de Ludovico Sforza, o duque local.

4. Dormia só uma hora e meia por dia?

Muito já se especulou sobre o suposto hábito de dormir pouco de Leonardo da Vinci. Afinal, isso ajudaria a explicar a incrível produtividade do mestre renascentista. Pode ser, por exemplo, que ele fosse adepto do que se costuma chamar de sono polifásico – seis sonecas de 15 minutos tiradas a cada quatro horas. Assim, Da Vinci proporcionaria ao seu corpo todo o descanso necessário, sem ter de dormir as oito horas normalmente recomendadas.

A tese é boa, mas não há nas anotações do artista qualquer indício de que ele dormisse tão pouco. “Na verdade, isso é bem improvável, levando-se em conta justamente sua tremenda capacidade produtiva”, diz Susan Redline, professora de medicina do sono da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Segundo Redline, ninguém seria capaz de produzir como Da Vinci produziu, durante uma vida inteira, dormindo apenas 90 minutos por dia. “O esgotamento físico e mental seria constante.” A propósito: acredita-se que o mestre tenha morrido durante o sono.

5. Era maníaco-depressivo?

Há quem diga que Da Vinci tinha transtorno bipolar ou mesmo déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Há quem diga que Da Vinci tinha transtorno bipolar ou mesmo déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). (montagem sobre reprodução/iStock)

Entre as várias suposições de algum problema mental, destaca-se uma: a de que Leonardo da Vinci sofria de transtorno bipolar, mal caracterizado por fortes oscilações de humor (da total euforia à mais profunda depressão).

Vários indícios apontariam nessa direção. Sabe-se, por exemplo, que Da Vinci alternava jornadas extenuantes de trabalho, do nascer ao pôr-do-sol, com dias inteiros de absoluto desinteresse pelo que estava produzindo. São notórios também o desapego ao cumprimento dos prazos acordados com seus contratantes, a obsessão pelo perfeccionismo e a dificuldade para se concentrar em um único assunto. Some-se a isso todo o comportamento excêntrico, típico dos gênios, e pronto, tem-se um quadro de aparente bipolaridade.

Acontece que não há provas, apenas suspeitas, e elas não necessariamente se aplicam a um possível quadro de transtorno bipolar. Pode ser que o mestre sofresse de algum outo problema de natureza neurológica, como déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Ou que não tivesse problema algum. “É impossível cravar uma resposta”, dizem as pesquisadoras americanas Cynthia Phillips e Shana Priwer, autoras do livro Da Vinci: 101 Segredos do Maior Gênio da Humanidade (Ed. Alegro, 224 págs.). “O jeito errático do artista pode ter sido só uma manifestação da sua mente brilhante e nada ortodoxa.”

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6. Por que seu funeral foi seguido por mendigos?

Eis um mistério que talvez nunca seja desvendado. Foi Leonardo da Vinci quem quis assim. Ele registrou seu desejo em testamento, determinando que 60 mendigos acompanhassem seu caixão entre os familiares, amigos e nobres que lá também estariam.

Não foi difícil reunir os desvalidos. Nos arredores de Clos Lucé, em Amboise, onde Da Vinci morreu, em 1519, havia robusta população de miseráveis. Consta, inclusive, que um pequeno valor em dinheiro foi destinado a cada um dos 60 pelos serviços prestados.

Qual teria sido a intenção de Da Vinci ao armar esse jogo de cena? Ninguém faz ideia. O renascentista não deixou pistas. Até onde se sabe, também não comentou o desejo com ninguém antes de morrer. “Talvez ele quisesse ironizar ou agredir a nobreza que, embora tenha financiado seu trabalho, sempre tentou controlar sua verve criativa”, especula George Gorse, professor de história da arte do Pomona College, nos Estados Unidos. “O ressentimento com os ricos é plausível. Como filho bastardo, Leonardo custou a ser acolhido pela alta sociedade.”

7. O mestre era chegado a bruxarias?

A virgem das rochas Há duas versões de A Virgem das Rochas, ambas pintadas por Da Vinci. São pratica- mente idênticas. A que ficou pronta primeiro (foto) hoje está no Louvre, em Paris. A outra, poucos centímetros menor, pertence à National Gallery de Londres.

Há duas versões de A Virgem das Rochas, ambas pintadas por Da Vinci. São pratica- mente idênticas. A que ficou pronta primeiro (foto) hoje está no Louvre, em Paris. A outra, poucos centímetros menor, pertence à National Gallery de Londres. (Reprodução/Divulgação)

Pouco provável, levando-se em conta sua devoção ao conhecimento científico. Leonardo da Vinci tinha uma visão aristotélica do mundo, o que equivale a dizer que valorizava, acima de tudo, a investigação e a observação da natureza.

As especulações sobre o envolvimento de Leonardo da Vinci com magia possivelmente têm origem no uso que ele fez de alguns símbolos pagãos em suas obras. Exemplo: as plantas que aparecem na cena retratada em A Virgem das Rochas (1483-1486). Algumas delas, como as espécies popularmente conhecidas como aquilégia (Aquilegia vulgaris) e cimbalaria (Cymbalaria muralis), são tradicionalmente associadas aos rituais do paganismo europeu.

Mas isso não necessariamente quer dizer que Da Vinci fosse bruxo, é lógico. Na verdade, o mais provável é que o renascentista fosse apenas um sujeito fascinado por botânica e que nutria profundo interesse pela mitologia pagã – em particular a celta.

8. Ele se camuflou em alguma pintura?

Provavelmente sim. Acredita-se que Da Vinci tenha se autorretatado mais de uma vez ao pintar figuras bíblicas. Isso teria ocorrido, por exemplo, nas obras A Anunciação (1472-1475), em que ele seria o anjo Gabriel, e São João Batista (1508-1509), na qual teria emprestado suas feições ao próprio santo.

O caso mais famoso de todos, porém, talvez seja o de A Última Ceia, uma de suas obras mais conhecidas. Nesse afresco, o artista teria se colocado no lugar do apóstolo Judas Tadeu.

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9. O Código Da Vinci tem algum fundamento?

Independentemente da veracidade dos fatos que inspiraram sua trama, O Código Da Vinci foi um enorme sucesso, com mais de 80 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. O filme baseado no livro também foi bem: cerca de 750 milhões de espectadores.

Independentemente da veracidade dos fatos que inspiraram sua trama, O Código Da Vinci foi um enorme sucesso, com mais de 80 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. O filme baseado no livro também foi bem: cerca de 750 milhões de espectadores. (Reprodução/Divulgação)

Por mais que Dan Brown siga afirmando que baseou sua história em fatos reais, quase nada do que o autor escreveu no livro tem fundamentação histórica. Para quem não se lembra: em O Código Da Vinci, o mestre renascentista é apresentado como chefe de uma sociedade secreta denominada Priorado de Sião, entre os anos de 1510 e 1519.

Esse grupo guardaria um segredo bombástico: diferentemente do que se lê na Bíblia, Jesus Cristo teria se casado com Maria Madalena e tido com ela dois filhos. Se revelada, essa história seria capaz de varrer do mapa a Igreja Católica. E Da Vinci teria espalhado referências a ela em várias de suas obras.

Algumas das pistas estariam em A Última Ceia. A trama de Dan Brown sugere que o apóstolo João, à direita de Cristo no afresco, na verdade é a esposa do profeta. A fisionomia de traços finos, quase “andrógina”, teria sido planejada pelo artista, de modo a não deixar claro se aquela figura era masculina ou feminina. Além disso, o espaço entre o profeta e sua suposta companheira formaria intencionalmente uma leta “M” – as iniciais de Maria Madalena.

“Nada disso corresponde à realidade”, garante Darrell L. Bock, professor de estudos do Novo Testamento do Seminário Teológico de Dallas, nos Estados Unidos, e autor de Quebrando o Código Da Vinci (Ed. Novo Século, 200 págs.), um livro que se propõe a desconstruir o best-seller de Dan Brown página por página. “Fatos avulsos relacionados à vida de Leonardo foram completamente tirados de contexto, ou mesmo alterados, para dar sentido à trama.”