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A Apple não inventa nada

Os produtos lançados pela empresa sempre tiveram como base ideias conhecidas. Mesmo assim, extrapolaram suas funções e transformaram o mundo. Entenda como isso foi possível

Ernesto Rinaldi

Onde você estava no dia 10 de janeiro de 2007? Os fãs da Apple devem se lembrar bem porque foi nesse dia que milhares deles se amontoaram na frente das lojas da empresa no mundo todo para acompanhar, ao vivo, a mais uma performance de Steve Jobs. No centro das atenções estava o iPhone, o tão aguardado telefone celular fabricado pelos inventores do iPod. Quando ele finalmente apareceu, veio como um tsunami. A plateia presente ao anúncio urrava em êxtase a cada palavra dita por Jobs. Poucas horas depois, os papéis da Apple na bolsa haviam subido 8,3%. Enquanto isso, a Blackberry, que dominava o mercado de supercelulares (lembra disso? E olha que nem faz tanto tempo), via suas ações despencarem 7,7%. Também pudera, o modelo acabara de ficar totalmente obsoleto. A partir desse dia, todo smartphone teria que ser como o da Apple

Olhando para o aparelho, fica difícil entender tanta comoção. À primeira vista, o iPhone é só um celular que tem câmera embutida, acesso à internet e tocador de MP3 – coisa que já existia antes, aos montes, nas lojas. Por que então o produto foi tratado como um grande acontecimento? A resposta é simples e define a própria Apple: em toda a sua história, a empresa não inventou nenhum aparelho genuinamente novo. Mas, ao melhorar o que já existia, provocou verdadeiras revoluções culturais.

Veja o exemplo do iPod. Antes dele, a maioria das pessoas nem sabia o que era MP3 – mesmo existindo diversos tocadores do tipo no mercado. Depois do iPod, a indústria musical nunca mais foi a mesma. Esse enredo se repete a cada grande lançamento da Apple desde o primeiro Macintosh, de 1984. Qual o segredo da Apple? A diferença está nos gostos de Steve Jobs, um cara que, veja só, não era fanático por tecnologia. Ele sabia: mais importante do que desenvolver aparelhinhos mirabolantes, é desenvolver aparelhinhos mirabolantes operáveis por pessoas normais.

No mundo da tecnologia, esse perfil “humanista” é coisa rara – Bill Gates é um típico nerd, daqueles que sonham em código binário. Jobs teve trabalho para se cercar de gente que pensa como ele. Seu camisa 10, o designer Jonathan Ive, desenhava banheiras antes de ser contratado. Dentro da Apple, criou o iMac, o iPod e o iPhone, aparelhos que têm em comum o fato de serem estupidamente belos e ridiculamente fáceis de usar. Não lembram, nem de longe, aquele jeitão de produto de informática que a indústria adora fabricar (já estamos na segunda década do século 21 e ainda existe muita empresa que acha bacana fazer aparelhos cheios de botões que ninguém sabe como usar).

São essas características que fizeram, em 2007, muita gente apostar que o iPhone se tornaria o ícone maior da tão sonhada convergência de tecnologias. Como você sabe bem, o aparelho é computador com acesso à internet, câmera digital, tocador de MP3 e ainda recebe ligações. Em vez de teclado, há apenas uma tela touch screen. Tudo ao mesmo tempo e, aí está a diferença em relação ao que já existe, simples de operar. Três anos depois, em 2010, surgiria um novo candidato a símbolo da tal convergência. Apresentado pela própria Apple como um dispositivo que mistura MacBook e iPhone, o iPad tem, de novo, a mesma qualidade rara: sem inventar nada, muda tudo. Claro que o sucesso do iPad também foi instantâneo. Em 2010, a empresa vendeu 14,8 milhões de unidades, nada menos que 75% dos tablets comercializados no mundo no ano passado.

Com o iPhone, surgiu um grande mercado de aplicativos – que hoje engloba os iPod touch e os iPad. Apesar de ser usado pela Google desde 2002, o termo em inglês app, usado como sinônimo de aplicativos, entrou no vocabulário das pessoas comuns depois de 2008, quando a Apple lançou sua App Store – que rendeu à companhia um belo lucro de US$ 1,782 bilhão em 2010. O sucesso da loja virtual levou a American Dialect Society a eleger app a “Palavra do Ano”. Achou exagerado quando falamos em revoluções culturais no começo deste texto? Pode ter certeza: é disso que se trata. É que mudar o mundo sempre foi o objetivo de Steve Jobs – e não apenas vender gadgets bonitos.