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A arqueologia picareta de Hitler

O Fuhrer achava que a raça ariana era superior às outras. E contratou pesquisadores para tentar provar isso - mesmo que fosse preciso inventar mentiras

Era uma vez um continente chamado Atlântida, habitado só por gente bonita, de cabelo claro e olhos azuis. Uns eram grandes guerreiros, outros eram sábios, quando não as duas coisas ao mesmo tempo. Pertenciam, enfim, a uma estirpe superior: a raça ariana. Todos viviam alegres e contentes até que, um dia, se deu a tragédia: o lugar afundou no oceano, sabe-se lá por qual motivo, e desapareceu para sempre. Alguns sacerdotes, porém, conseguiram se salvar. E teriam se estabelecido no Himalaia, onde hoje fica o Tibete, ou no extremo norte da Europa, lá pelas bandas dos países nórdicos.

A história contada no parágrafo acima é pura fantasia. Mas os nazistas acreditavam – ou, pelo menos, diziam acreditar – piamente nela. Era com base na tese de que os alemães descendiam da tal raça superior que Adolf Hitler e sua turma justificavam o extermínio de todos aqueles que consideravam inferiores – principalmente judeus. Mas havia um buraco na teoria nazista: onde estavam as evidências arqueológicas da história toda? Para resolver esse problema, Hitler espalhou arqueólogos pelo mundo com a missão de encontrar provas e confirmar seu desvario a qualquer custo.

Centelha divina

Sim, os arianos realmente existiram. Eles eram um povo que se estabeleceu no Oriente Médio por volta de 3.000 a.C. e povoou o subcontinente indiano algum tempo depois (Irã, nome moderno da antiga Pérsia, vem de “ariano”). Mas nunca foram loiros nem tinham olhos azuis. Tampouco haviam saído de um continente perdido chamado Atlântida – e os nazistas sabiam muito bem de tudo isso. Mesmo assim, Hitler não perdia uma só oportunidade de sustentar a tese da superioridade germânica. Em seus discursos sobre o tema, costumava declarar a plenos pulmões: “Os homens arianos são os Prometeus da humanidade, de cuja fronte partiu a centelha divina que se mantém acesa através das eras”.

“É difícil saber até que ponto o ditador acreditava mesmo nisso ou se a mitologia de Atlântida e da raça ariana eram apenas um pretexto para dominar o mundo e exterminar outros povos”, diz o arqueólogo alemão Heinrich Härke, professor da Universidade Reading, na Inglaterra. “O mais provável é que ele acreditasse pouco, principalmente na comparação como outros líderes nazistas, como Heinrich Himmler, o comandante supremo da SS”.

Acreditando em maior ou menor grau naquilo que ele mesmo pregava, o que Hitler realmente queria era convencer o resto do mundo de que as teses racistas tinham fundamento científico. Sendo assim, tratou de montar uma estrutura para fabricar as evidências arqueológicas de que necessitava. Começou aprovando a criação, em 1935, do Ahnenerbe – ou Departamento para o Estudo da Herança Ancestral –, que nasceu subordinada à SS e reunia “pesquisadores” comprometidos até os dentes com o regime nazista. 

Provas suspeitas

Foi nos integrantes do Ahnenerbe que Steven Spielberg se inspirou para criar os vilões da série Indiana Jones. “A organização recrutou arqueólogos, paleontólogos, historiadores, botânicos e outros especialistas com uma tarefa dupla: desenterrar evidências dos supostos ancestrais arianos e transmiti-las à opinião pública em livros, artigos e congressos”, diz a jornalista canadense Heather Pringle, autora do livro The Master Plan (“O Plano Principal”, sem tradução para o português). “Na realidade, eles se dedicavam à criação de mitos. Sua verdadeira missão era distorcer os fatos para respaldar as ideias raciais de Hitler.”

No total, o Ahnenerbe financiou 18 grandes expedições até 1942. Os arqueólogos do Führer escavaram o norte da Alemanha, analisaram inscrições rupestres na Suécia, investigaram ruínas no Iraque e visitaram templos tibetanos no Himalaia, entre outras empreitadas. Encontraram alguma evidência da superioridade ariana? Nenhuma. Sinais de que os alemães eram descendentes dessa raça? Também não. Mas pouco importava. “A pergunta não é o que os arqueólogos buscavam, mas o que o regime queria que fosse encontrado”, diz a arqueóloga Bettina Arnold, da Universidade de Wisconsin, nos EUA. “Só interessava aquilo que pudesse ser útil para Hitler, ainda que as descobertas tivessem de ser forjadas” 

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