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A aurora da humanidade

Descobertas emocionantes vão montando a seqüência da evolução a partir do chimpanzé.

Uma única família – os Leakey – conseguiu desvendar boa parte da trajetória que separa o homem do macaco. Primeiro, o casal Louis (1903- 1972) e Mary Leakey (1913-1996), antropólogos de origem inglesa radicados no Quênia, descobriu em 1948 os restos do Proconsul africanus, ancestral comum de homens e chimpanzés, que viveu na África há 25 milhões de anos. Foi um choque para os cientistas da época, que relutavam em aceitar as evidências de que a espécie humana surgiu na África e de lá se espalhou pelo mundo. Em 1959, Mary desenterrou o Australopithecus boisei e concluiu que os nossos antepassados andavam sobre as duas pernas há 3,5 milhões de anos, muito antes do que se supunha. Em 1962, o casal achou também o Homo habilis, de 3 milhões de anos, um elo intermediário entre o Australopithecus e o Homo erectus, ancestral direto do homem moderno.

O filho do casal, Richard, hoje com 54 anos, bem que tentou não seguir a carreira dos pais, com medo de ficar na sombra deles. Foi ser guia de sáfari. Mas em 1963 ele deparou, por puro acaso, com a mandíbula de um australopiteco e decidiu estudar Antropologia. Richard desenterrou mais de quatrocentos fósseis de hominídeos ao lado do Lago Turkana, no Quênia, transformando o local no mais rico e variado sítio de restos de homens pré-históricos já encontrado.

O herdeiro dos Leakey achou também, em 1984, o esqueleto completo – o sonho de todo arqueólogo – de um Homo erectus, um menino de 9 anos conhecido como “O Garoto de Turkana”. A única grande descoberta sobre a origem do homem da qual a família Leakey não participou foi a de uma fêmea do Australopitechus afarensis, de 3,2 milhões de anos, achada pelo americano Donald Johanson, na Etiópia. Quando o fóssil foi identificado, estava tocando no acampamento a música Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles. Por isso o esqueleto foi batizado de Lucy.

Laços de família

Os primeiros hominídeos surgiram 5 milhões de anos atrás, depois que os nossos ancestrais se separaram do ramo dos chimpanzés. Várias espécies apareceram e desapareceram antes do surgimento do homem moderno. Conheça as mais importantes.

1. Australopithecus afarensis

Desenterrado em 1974 por Donald Johanson em Hadar, na Etiópia. Já andava com facilidade sobre os dois pés, mas passava a maior parte do tempo em árvores. Comia frutas, raízes e sementes. Carne, só quando encontrava restos deixados por outros animais. Usava ossos e pedaços de pau para se defender.

2. Australopithecus africanus

Achado em 1924 por Raymond Dart na África do Sul. Ao contrário do afarense, não é tido pelos antropólogos como um antepassado nosso. Sua linhagem provavelmente desapareceu sem deixar descendentes. Com isso, fica faltando um elo entre o afarense e o Homo habilis.

3. Homo habilis

Encontrado por Mary Leakey em 1959 na região do Olduvai, na Tanzânia. É o primeiro ancestral do homem a fabricar utensílios de pedra, que usava com habilidade – daí o nome. Sua dieta ainda era basicamente vegetariana, mas não desperdiçava uma chance de conseguir caça. Tinha o crânio muito mais desenvolvido do que o dos hominídeos anteriores.

4. Homo erectus

Foi achado pela primeira vez em 1890 na Ilha de Java, atual Indonésia, por Eugène Dubois, um médico militar holandês. Já dominava o fogo e caçava grandes animais. É a primeira espécie reconhecida como humana que emigrou da África para a Ásia e provavelmente para partes da Europa. Desapareceu há 300 000 anos e deu origem ao Homo sapiens. Mas não se sabe direito como isso aconteceu, pois os fósseis humanos mais antigos têm 100 000 anos.

Descobrindo a América

Na maior parte do século, predominou a idéia de que os primeiros homens a chegar à América cruzaram o Estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, há 12 000 anos. Esses imigrantes deixaram vestígios de sua passagem oito séculos depois num lugar chamado Clóvis, no Novo México, Estados Unidos. Novos achados, porém, começaram a sugerir que a presença humana no continente era muito mais antiga. Uma descoberta importante ocorreu em 1971 no Piauí, onde a arqueóloga brasileira Niède Guidon encontrou, em meio a ferramentas pré-históricas e milhares de pinturas em cavernas, os restos de uma fogueira que ardeu há 48 500 anos. Mas falta uma prova conclusiva de que ela foi acesa por mãos humanas, e não por um acidente natural. Em 1976, porém, o arqueólogo americano Tom Dillehay desenterrou na localidade de Monte Verde, no sul do Chile, os restos de um acampamento de 12 500 anos – mais antigo do que Clóvis, portanto. Essas datas foram aceitas oficialmente em 1997, mas a origem do homem americano ainda não tem uma explicação definitiva.