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Flecha com ponta envenenada mais antiga do mundo é descoberta na África do Sul

Pontas de flecha com 60 mil anos revelam o uso mais antigo conhecido de veneno em armas humanas.

Por Ana Clara Caielli Barreiro 9 jan 2026, 09h59 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h33
Flecha com ponta envenenada mais antiga do mundo é descoberta na África do Sul Priorizar nos meus resultados Google

A vida humana no Pleistoceno, há mais de 12 mil anos, era marcada pela caça de animais e pela coleta de plantas, raízes e frutos. Essa época geológica foi marcada pela última era do gelo do planeta, que cobriu grande parte do planeta com gelo. Assim, o nível do mar diminuiu e surgiram pontes terrestres, que foram providenciais para a migração de espécies pelos continentes. Foi o que ocorreu com a megafauna, os mamíferos gigantes como mamutes, mastodontes e tigres-dente-de-sabre – e também com os humanos, que, nesse período, chegaram às Américas.

Muitos cientistas já suspeitavam que os hominídeos que viveram nesse período usavam veneno para caçar animais, mas nenhum instrumento envenenado havia sido documentado – até agora.

O artigo, publicado no último dia 7 na revista Science Advances, descreve o registro mais antigo do mundo de flechas com pontas envenenadas, que datam de 60 mil anos atrás, diretamente do Pleistoceno Tardio. A descoberta indica que a cognição desses hominídeos era muito mais complexa do que se imaginava.

Os pesquisadores reanalisaram pontas de flecha feitas de quartzo encontradas em 1985 no Abrigo Rochoso de Umhlatuzana, na África do Sul. Por meio de análises microquímicas e biomoleculares, foi identificada, em cinco das dez pontas estudadas, a presença dos alcaloides bufandrina e epibufanisinina, substâncias tóxicas. 

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Esses compostos provavelmente são provenientes da planta venenosa Boophone disticha, já associada a outras flechas envenenadas.

Ainda não é possível afirmar com certeza como as flechas eram utilizadas nem detalhar sua engenharia. Com pontas pequenas e leves, elas se assemelham bastante às flechas do Holoceno (período que sucede o Pleistoceno), que também faziam uso de plantas semelhantes.

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As flechas do Holoceno eram projetadas especialmente para carregar veneno, e não para matar o animal instantaneamente. O método era engenhoso: a flecha perfurava um pequeno ferimento e sua ponta, de forma proposital, se desprendia da haste, permanecendo alojada na pele do animal. Feridos e lentos, eles seguiam andando por um dia ou mais, enquanto eram rastreados pelos caçadores.

O estudo sugere que a flecha descoberta pode ter tido, há 60 mil anos, uma funcionalidade semelhante.

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Mais do que revelar uma técnica de caça sofisticada, a pesquisa mostra que os hominídeos da Era do Gelo já possuíam um sistema cognitivo avançado, capaz de identificar plantas venenosas, compreender seus efeitos nos animais, dosá-las corretamente e produzir armas com essa função específica. Isso muda nosso entendimento sobre a complexidade tecnocomportamental desses grupos.

Antes dessa descoberta, havia apenas duas evidências do uso de veneno no Pleistoceno, ambas encontradas na Caverna Border, em KwaZulu-Natal, na África do Sul: um fragmento de cera de abelha com cerca de 35 mil anos e um aplicador de veneno datado de 24 mil anos.

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As flechas envenenadas mais antigas conhecidas até então datavam do Holoceno Médio. O exemplo mais antigo era uma ponta de flecha feita de osso, encontrada na Caverna Kruger, também na África do Sul, com pouco mais de 6.700 anos.

As pontas agora analisadas não apenas confirmam o uso de veneno em armas na era do gelo, como mostram que essa tecnologia surgiu muito antes do que se pensava. 

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