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A nova 2ª Guerra Mundial

Novos dados e documentos estão reescrevendo a história do maior conflito da humanidade. Pra começar, agradeça aos comunistas por nos livrarem de Hitler

A 2ª Guerra começou em Gdansk, às 4h45 de 1º de setembro de 1939, quando um navio alemão atacou um forte polonês, e terminou em Tóquio, ao meio-dia de 15 de agosto de 1945, quando o imperador japonês se rendeu à bomba atômica americana. Após décadas de filmes, livros e capas de revista (4 só da SUPER), o que mais há pra dizer sobre o que aconteceu entre essas duas datas? Quase tudo.

Acontece que, se o começo da 2ª Guerra tem 70 anos, sua versão consagrada não tem menos de 60. Além de datada, ela é parcial: cada país tem sua visão do conflito. O Brasil chega a ter duas: a ufanista, em que salvamos a Europa, e a anti-militar, em que passamos vergonha.

Mas agora o maior conflito de todos os tempos está sendo revisto e ampliado. Valendo -se dos arquivos que o fim do comunismo tornou disponíveis e exercendo um saudável distanciamento, novas obras estão questionando velhos mitos. Hitler não era um gênio do mal, mas um estrategista lamentável que levou o Exército ao caos. Os judeus não marcharam passivos para as câmaras de gás, milhares contra-atacaram. No Dia D, a guerra já estava ganha pelos soviéticos, que mataram 10 vezes mais alemães que americanos e britânicos juntos. E foram 70 milhões, não 40 milhões de mortos. A história está sendo reescrita: conheça a 2ª Guerra versão 2009.

Hitler: mais sorte que juízo
Arrogante e teimoso, o ditador perdeu a guerra quando resolveu liderá-la

1939/1940/1941 – A expansão nazista

Setenta, ou melhor, 69 anos atrás, a frase acima pareceria insanidade. Depois de anexar Áustria e Checoslováquia, a Alemanha nazista inaugurou a 2ª Guerra em 1º de setembro de 1939, quando invadiu e tomou metade da Polônia – a outra tinha dona: a URSS. Em 1940, vieram vitórias sobre Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França. Portugal, Espanha, Suíça e Suécia não estavam dominados, mas eram neutros – equivale a voto em branco, concorda com quem vencer. Londres, bombardeada e passando por racionamentos, parecia destinada a se render. O sucesso fez Hitler ser visto como um gênio político e militar, comparado a Napoleão. Ao do hospício, talvez: dos erros considerados cruciais para a derrota alemã, em 1945, boa parte cai na conta do Führer.

Segundo A.J.P. Taylor, um dos maiores historiadores do século 20, intelectuais ocidentais ajudaram a criar a imagem de Hitler como mestre estrategista. Por esse raciocínio, o alemão era um grande adversário que fez tudo ao seu alcance; logo, o nazismo não tinha mesmo como triunfar. Sem espaço para “e se”.

A visão atual, no entanto, não se preocupa em enaltecer o adversário. “Enquanto os líderes ocidentais eram essencialmente conservadores, e enquanto Stálin era tão cauteloso quanto astuto, Hitler era um apostador, um blefador, um desavergonhado exibicionista”, escreve Norman Davies em Europa na Guerra.

Mas como explicar os seus sucessos iniciais? Bom, é preciso reconhecer que a blitzkrieg (“guerra relâmpago”, em alemão), ataque acelerado e simultâneo de aviões, blindados e soldados, inovou e surpreendeu a todos. E, ainda que seu inventor fosse o general Heinz Guderian, Hitler teve coragem de autorizá-la. Mas os adversários facilitaram (ainda que até hoje exaltem seus supostos feitos). Na tomada da França, os exércitos eram até parelhos – 3,3 milhões do Eixo contra 2,8 milhões dos Aliados -, mas a estratégia de defesa era do tempo da 1ª Guerra Mundial (1914-1918). A vitória nazista foi tão fácil que inspirou a lenda de que os generais franceses haviam entregue seu país.

Depois de um 1º turno bem-sucedido, porém, o técnico do time alemão adotou a arrogância como tática. É consenso: ninguém iria dissuadir o ditador de atacar a URSS. Afinal, ele já tinha esse plano na cabeça havia tempo – está lá no livro que escreveu na cadeia em 1924, Mein Kampf (“Minha Luta”). Pouco importou o pacto de não agressão assinado dois anos antes. Hitler tinha tanta certeza da vitória que fez um agrado aos aliados japoneses e declararou guerra aos EUA, crente que tudo estaria acabado antes que ele tivesse de responder pela fanfarronice.

A grande virada
No livro Hitler as War Lord (“Hitler como Senhor da Guerra”, lançado e ignorado em 1949), o general Franz Halder afirma que seu chefe mudou muito após a invasão da URSS. Antes, era atento aos conselhos dos auxiliares. Depois, fascinado com seus talentos, passou a seguir seus instintos. Sob seu temperamento volúvel, o alto comando era de alta rotatividade.

Veio a obsessão em ocupar Stalingrado, um ponto importante, mas não imprescindível. Na verdade, seus principais assessores militares preferiam como estratégia ocupar o Oriente Médio, garantindo acesso a uma reserva infinita de petróleo e uma segunda rota de entrada na URSS. Mas só de pensar em dominar países cheios de árabes – no seu ranking de racismo, tão desprezíveis quanto os judeus -, o Führer mudava de assunto. Preferia pensar nos comunistas. Era questão de honra para ele tomar uma cidade que tinha o nome do inimigo; mas Stálin, outro orgulhoso, ordenou a resistência a qualquer custo. Nas ruínas de Stalingrado, a blitzkrieg, eficiente em campos abertos, foi anulada pela guerrilha do Exército Vermelho, que se animou e virou o jogo da guerra (como você verá adiante).

Na frente ocidental, Hitler também fez bobagem. É famosa a história de que ninguém teve coragem de acordar o Führer no Dia D – uma das tantas vezes em que o Exército foi prejudicado porque as pessoas tinham medo de lhe dar más notícias. Pior: Hitler ordenou que os blindados alemães continuassem esperando em Calais o “verdadeiro” desembarque inimigo – os tanques foram presa fácil.

Prensada, a Alemanha se rendeu. Hitler se matou e deixou um país arruinado por seus erros.

Mas em The Storm of War, lançado neste ano, o historiador britânico Andrew Roberts afirma que o Führer poderia ter até vencido a guerra: bastava não ser tão nazista. Para Roberts, a obsessão por uma nação ariana atrapalhou os planos militares. Um exemplo: ao mobilizar o Estado para matar judeus, ciganos e homossexuais, foram desviados recursos que poderiam estar na guerra e eliminados milhões de possíveis trabalhadores. Além disso, a ideologia privou a Alemanha de seus melhores cientistas – judeus como Albert Einstein e Leo Szilard, membro do Projeto Manhattan. Tolerando físicos “inferiores”, um governo menos lunático poderia ter alcançado primeiro a bomba atômica. Desse holocausto fomos poupados.

Führer acertou

Quem poupa tem
Já em 1935, Hitler começou a reestruturar o Exército alemão. Quando a guerra começou, já tinha gente treinada e experiente.Ataque relâmpago
Ao apostar na blitzkrieg, o ditador inovou. Só a partir de 1942 é que os soviéticos responderam à altura.

Som e fúria
Com seu discurso inflamado de revanche, racismo e conquista territorial, conseguiu ser idolatrado pelo povo alemão.

Führer errou

Caos interno
Hitler estimulava competição interna, criando instituições redundantes e rivais, um caos que acelerou a derrota.

Tanque vazio
Dos territórios conquistados, só a Romênia tinha petróleo. Quando faltou combustível, o destino alemão estava selado.

Fuga de cérebros
Se não tivesse perseguido os judeus e, assim, os cientistas judeus, Hitler podia ter a bomba atômica antes de seus inimigos.

Holocausto de cada um
Os nazistas davam duas opções aos judeus: morrer ou colaborar, para morrer mais tarde. Alguns escolheram matar

1942 – Implementação da solução final

Em 20 de janeiro de 1942, 15 oficiais nazistas gradua dos se reuniram em uma mansão de Wannsee, um aprazível subúrbio de Berlim. Pauta do dia: “solução final para a questão judaica”. Em 90 minutos, o general Reinhard Heydrich relatou os aspectos básicos da operação, que consistia em transportar todos os judeus em território sob domínio alemão para o Leste Europeu, onde trabalhariam até morrer. Heydrich enfatizou que contava com todos, deixando subentendido que aquele era o desejo do próprio Hitler.

Naquele ano, os judeus da Europa nazista começaram a perceber as consequências da conferência de Wannsee. Como todos deveriam saber, 6 milhões foram mortos, a maioria em campos de extermínio. O prisioneiro raquítico de uniforme listrado se tornou um ícone tão forte que virou sinônimo da trajetória dos judeus na 2ª Guerra Mundial. Mas nem todos tiveram o mesmo destino: alguns decidiram contra-atacar. E outros, colaborar com o opressor.

Na natureza selvagem
Em outubro de 1942, judeus da cidadezinha polonesa de Kamionka sentiram os efeitos da conferência de Wannsee: foram informados de que seriam levados a um gueto em Lubartow. O filho de pequenos comerciantes Frank Bleichman, 19, desconfiou e decidiu abandonar a família para se esconder no campo. Mais tarde, soube que o destino de seus amigos e familiares era um campo de extermínio.

Frank juntou-se a um grupo de 100 judeus que se escondiam em condições primitivas nas florestas da região, um dos vários grupos de guerrilheiros fugidos de guetos e campos de concentração que lutaram contra os invasores nazistas no Leste Europeu.

Tocaiados entre as árvores, conseguiram interceptar carregamentos de comida para as tropas alemãs, sabotar usinas elétricas e fábricas, descarrilar trens de inimigos e, quando possível, matar algum nazista – mas sem denunciar a posição do acampamento.

Esse era o grande drama dos Irmãos Bielski, da Bielo-Rússia. No princípio, em 1942, eram só os 4, Tuvia, Zus, Azael e Aron. Mas seu sucesso começou a atrair gente, gente inclusive sem vocação para se esconder e guerrear no mato e no frio – no auge, quando o grupo tinha 1 200 membros, 70% eram velhos, mulheres e crianças. Com tanta gente, era preciso se esconder em regiões muito remotas, como pântanos a que os alemães nem sabiam como chegar. Como relatou o guerrilheiro Norman Salsitz: “Quanto pior as condições, melhor para nós”. Os caras não procuravam briga, mas não fugiam: calcula-se que chegaram a matar 400 inimigos. Em 1944, quando a Bielo-Rússia voltou a ser dos soviéticos, o grupo saiu da floresta – sobrevivera aos nazistas.

Gueto da discórdia
No entanto, o combate armado contra alemães foi exceção. No gueto de Varsóvia, o maior deles, com 445 mil judeus, a regra era a passividade. “O medo era de que a resistência levaria à retaliação. Por isso, era interpretada como tentativa de suicídio em massa”, escreve Israel Gutman, em Resistência – O Levante do Gueto de Varsóvia. E não era um medo sem fundamento: os nazistas costumavam aplicar punições coletivas por desvios individuais.

Muitos ainda esperavam por algum milagre quando, em setembro de 1942, começou a evacuação para o campo de extermínio de Treblinka – o mais eficiente, onde 99% eram mortos em até duas horas após a chegada. Esse foi o gatilho para que finalmente se organizasse uma resistência armada. Os guerrilheiros do gueto sabiam que morreriam, mas dessa vez impuseram um preço pela vida dos judeus.

No fim da batalha, 14 mil judeus morreram – contra 16 baixas admitidas pelos nazistas. Outros 50 mil foram capturados. Mesmo que a resistência tenha sido apenas simbólica diante dos tanques, metralhadoras e artilheiros alemães, atrasou em quase um mês o fim da operação – e fez ressonar insurreições em mais de 100 outras cidades e vilarejos.

Inimigo íntimo
Campos de concentração também tiveram colaboradores. Prisioneiros de confiança da SS chamados “Kapo” recebiam melhores roupas, comida e alojamento para, em troca, supervisionar grupos de prisioneiros. A posição de poder que ganhavam permitiu-lhes internalizar a truculência da SS.

Já nos campos de extermínio, os Sonderkommandos (Comandos Especiais) judeus faziam o que a SS considerava sujo demais – guiar as vítimas às câmaras de gás, depois remover os cadáveres, retirar seus cabelos e dentes, cremar os corpos e jogar fora as cinzas. Isso rendia algumas semanas a mais de vida.

Dos 15 presentes na reunião de Wannsee, apenas um recebeu punição semelhante à que achou que os judeus mereciam. Após a guerra, Adolf Eichmann fugiu para Buenos Aires, na Argentina. Se escondeu lá até 1960, quando foi encontrado pelo serviço secreto de Israel. Julgado, foi executado em 1962.

Estrela do xerife
Dentro dos guetos, existia a instituição da polícia judia, submetida ao Judenräte. Para a função, os nazistas escolhiam judeus sem conexão com aquela comunidade – o que, na teoria, estimularia mais dureza com o povo do gueto. Pela maioria dos depoimentos, costumava funcionar.


Os dias A, B e C
Antes do famoso Dia D, vitórias sangrentas dos soviéticos sobre os nazistas decidiram a guerra

1943/1944 – O contra-ataque dos Aliados

A tradição divide a 2ª Guerra entre antes e depois de 6 de junho de 1944, quando os Aliados desembarcaram no norte da França – o Dia D. Até essa data, diz a lenda, os nazistas tinham o mundo na mão. Aí vieram bombardeiros, paraquedistas, navios, aqueles soldados todos morrendo na praia e, graças a esse sacrifício, Hitler perdeu a guerra. Devemos agradecer aos americanos (e seus aliados britânicos, sempre excluídos dos filmes e séries) por vencerem o nazismo? A verdade é que, quando os soldados Ryans apareceram nas praias da Normandia, a guerra já estava ganha.

Tudo graças a batalhas sangrentas, gigantescas e pouco conhecidas, travadas do outro lado do continente, em que os soviéticos derrotaram e mataram muitos alemães – foram 4 milhões de baixas nazistas no leste, contra 400 mil no oeste. “Se justiça fosse feita, todos os livros sobre a 2ª Guerra Mundial na Europa devotariam três quartos à frente oriental”, escreve Norman Davies em Europa na Guerra.

O Dia A, para manter o padrão, ocorreu 16 meses antes do Dia D, em 2 de feveiro de 1943. Foi o fim da Batalha de Stalingrado, a mais mortal de todos os tempos (ver quadro Naqueles Dias, abaixo). Após passarem o inverno empacados, pela primeira vez os nazistas souberam o que era se render. E começava a marcha soviética de 2 mil quilômetros até Berlim.

A vitória comoveu o mundo, até Carlos Drummond de Andrade (“Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!”), mas no meio do caminho tinha uma pedra. Os nazistas – ao menos o maior deles – ainda acreditavam na vitória, e prepararam uma emboscada perto da cidade de Kursk, quase fora da Rússia. Foi a maior batalha de blindados de todos os tempos, 3 mil para cada lado, mas o Dia B, 4 de julho de 1943, terminou com uma vantagem decisiva para os comunistas.

Plano quinquenal
Nesse ponto da guerra, as forças soviéticas nem pareciam aquelas que haviam sido postas pra correr em 1941. Hoje se sabe que parte da derrota inicial se explica porque o Exército Vermelho estava enfraquecido pelos expurgos promovidos por Stálin. Vamos deixar claro o que é expurgo: o líder da revolução executou 13 500 soldados e oficiais, deixando o Exército com poucos líderes experientes para enfrentar os alemães.

Mas agora era diferente. Por um processo de seleção natural, a maioria dos comandantes soviéticos ineficientes havia sido eliminada. E Stálin, por mais cruel que fosse, não era louco: logo no início da invasão alemã, ordenou a transferência de cerca de 1 500 fábricas de armas para longe do front. Da série “coisas que só o comunismo totalitário faz por você”: uma cidade inteira, Chelyabinsk, foi evacuada, destruída e reconstruída com indústrias e repovoada com operários – virou Tankogrado, cidade dos tanques. Graças a exemplos como esses, enquanto o bicho pegava na frente oriental, nos confins da Rússia uma nova e melhor geração de armamentos estava no forno.

E quem iria puxar os gatilhos? Camponeses, operários, seus filhos, suas filhas, suas mulheres. Enquanto não tinha um Exército estruturado para contra-atacar os nazistas, os comunistas não tiveram escrúpulos de usar toda a população disponível como bucha de canhão. Como deserção era execução certa, o camarada ia para a guerra – era como se já estivesse morto mesmo. Era comum que os comunistas vencessem combates perdendo mais gente. Os números do sacrifício, recalculados com documentos disponíveis após o fim da Guerra Fria: foram 27 milhões de mortos. A Ucrânia, foi o país mais castigado, perdeu 30% de sua população – a Alemanha, derrotada, não perdeu mais que 10%. É bem diferente do que defendia George Patton, lendário general americano: “O objetivo da guerra não é morrer pelo seu país. É fazer o idiota do outro lado morrer pelo dele”.

Stalin puxa o freio
Depois de Kursk, a superioridade já era tanta que o nosso Dia C foi uma investida com data simbolicamente marcada: 24 de dezembro de 1943. Para estragar a véspera de Natal do Eixo, a ofensiva de inverno atravessou as estepes ucranianas destruindo 18 divisões e comprometendo outras 68. Em abril de 1944, 3,8 milhões de comunistas estavam prestes a entrar no Reich. Mas não entraram. Stálin não tinha nenhuma vontade de arcar com os custos e riscos de ocupar a Alemanha, e preferiu conquistar os Bálcãs, já planejando uma futura área de influência. A conquista soviética da capital nazista do Reich só ocorreu em 1945, em outra data simbólica: 1º de maio.

Então, finalmente, em agosto, chegou o Dia D. “Foi uma operação bastante arriscada, magnificamente executada e de importância vital para os interesses ocidentais. Caso tivesse falhado, o destino da Europa seria exclusivamente decidido pelo Exército Vermelho”, escreve Davies. No fim, os comunistas passaram a decidir o destino de pelo menos metade do continente, desde a queda de Berlim, em 1º de maio de 1945, até a queda do seu muro, longos 44 anos depois.

Dia E – 9 de agosto de 1945
Nesse dia os americanos jogaram a segunda bomba atômica sobre o Japão, em Nagasaki. Não demoramos para falar do Japão por acaso: a onda que está revisando a 2ª Guerra na Europa não chegou ao Pacífico. A maior novidade é que o império guerreiro que desafiou os EUA també fez seu Holocausto: segundo um estudo da Universidade do Havaí, nos países que ocupou (China, Indonésia Filipinas e outros)os japoneses mataram 6 milhões de pessoas.

Samba, suor e lágrimas
Destreinados, desinformados e desprevenidos, os brasileiros foram anti- heróis na Itália. E esquecidos na volta

1944/1945 – A queda do Reich

A relação dos brasileiros com a 2ª Guerra Mundial costuma variar entre dois extremos: a patriotada (em que as vitórias brasileiras mudaram o destino da guerra) e o complexo de vira-lata (em que um bando de trapalhões foi passear na Europa). Nem tanto à direita nem tanto à esquerda. Os brasileiros realmente foram para o norte da Itália fazer um papel secundário e, em condições tão adversas, até que não foram mal.

Não foi por desencargo de consciência que o Brasil entrou em um conflito com o qual não tinha nada a ver. Ele queria algo em troca – por ele, entenda-se Getúlio Vargas, presidente do Brasil de 1930 a 1945. Durante um tempo prevaleceu a corrente que dizia que Getúlio, que afinal de contas era um ditador, queria se aliar ao Eixo, mas teria sido impedido pela opinião pública. Na verdade, ele era mais esperto: ficou numa posição ambivalente, até que alguém lhe desse motivo para decidir. No caso, foram os EUA, que, além do conhecido apoio financeiro e técnico para a construção de uma siderúrgica, acenaram com a possibilidade de o Brasil ter destaque na futura Organização das Nações Unidas. Bom, a CSN está lá em Volta Redonda, já nossa cadeira no Conselho de Segurança da ONU segue um sonho.

Mas os nazistas não perdoaram. Em agosto de 1942, submarinos alemães afundaram 6 navios brasileiros, matando 607 pessoas – até o final do conflito, seriam 31 embarcações. O povo exigiu, e o Brasil declarou guerra – o único latino-americano a enviar tropas.

Que só partiram quase dois anos depois, em julho de 1944. O motivo: não havia homens suficientes que preenchessem os requisitos de ter pelo menos 60 quilos, 1,60 metro e 26 dentes. Além disso, o sujeito precisava ser capaz de ler mapas e utilizar bússola. O fato de que queria levar 100 mil homens, mas se contentou com 25 mil mostra que o Brasil fez o possível para levar o melhor, não esfarrapados. Esfarrapados eles iam ficar, mas na Europa.

Campanha do agasalho
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcou em Nápoles, e foi incorporada ao 5° Exército dos EUA, que combatia os nazistas na Itália. Quase toda a guerra travada pela FEB na Itália foi realizada em montanhas. “No nosso treinamento, nunca se falou em montanha”, disse o pracinha Newton Lascaléia em depoimento ao historiador César Maximiano. Aliás, treinamento foi bondade do seu Newton: os brasileiros chegaram lá totalmente despreparados: os soldados não conheciam direito seus armamentos e os oficiais precisaram aprender um jeito novo de organizar seus batalhões, em sintonia com as táticas de guerra modernas.

A falta de planejamento voltou a dar as caras no fim do ano: os pracinhas não tinham roupas para suportar um inverno de -20 °C, e tiveram de pedir roupas emprestadas ao Exército dos EUA – que, aliás também cuidava da saúde dos pracinhas.

Após tentar e não conseguir tomar Monte Castelo 3 vezes, os brasileiros esperaram a primavera para ter sua vitória mais famosa. Depois dessa experiência, foi só vitória. Na jornada de um ano em solo italiano, a FEB, com seus 25 mil homens, enfrentou conti-nuamente 239 dias de combate, encarou 10 divisões alemãs, 3 divisões italianas e somou 20,5 mil prisioneiros em combate. Teve quase 2 mil baixas – mais de 400 mortos e cerca de 1,5 mil feridos.

Amargo regresso
Em julho de 1945, com o fim da guerra, a FEB retornou ao Brasil. Os expedicionários foram recebidos com chuvas de papel picado nas ruas do Rio e de São Paulo. “Mas, para o governo Vargas, a FEB se converteu num estorvo, na medida em que sua imagem associava-se à luta pela democracia”, descreveu o historiador Boris Fausto no livro Getúlio Vargas – O Poder e o Sorriso. O governo se pôs a desmobilizar os expedicionários. Até o fim definitivo da guerra, em setembro de 1945, quando o Japão assinou sua rendição, eles foram proibidos de fazer declarações públicas, de trajar nas ruas seus uniformes com medalhas e condecorações. O fato é que a luta na Europa criou um clima para a queda de Vargas, mas poucos pracinhas tiraram proveito disso. Piorou com o golpe de 1964, quando a antipatia aos militares se estendeu aos pracinhas.

O ranço durou até a redemocratização do país, quando se passou a dar um novo olhar à história da FEB. Quando a Constituição de 1988 assegurou aos veteranos pensão e assistência médica, menos de 10 mil dos 25 mil expedicionários estavam vivos.

Pracinhas e prações
Entre os que foram para a Itália e fizeram carreira depois estão Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar, Cordeiro de Farias, seu ministro e Golbery do Couto e Silva, a eminência parda do governo Geisel, criador do Serviço Nacional de Informações (SNI).


Para saber mais

Europa na Guerra
Norman Davies, Record, 2006.

The Storm of War
Andrew Roberts, Allen Lane, 2009.

D-Day, Antony Beevor
Penguin Viking, 2009.

Um Ato de Liberdade
Nechama Tec, Record, 1993.

Irmãos de Armas
José Gonçalves e César Maximiano, Conex, 2005.

Comentários

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  1. SANDRO NUNES DA SILVA

    Checoslováquia? Não seria Tchecoslováquia?

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