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Ao vencedor, os filhotes

Para vencer na evolução, não é preciso ser o mais forte nem o mais malvado - basta ser o que mais deixa descendentes no final.

Texto Alberto Holtz

O dia 1º de julho de 1858 deveria ser comemorado como a data em que o maior de todos os mistérios – a existência humana – foi resolvido. Naquele dia, diante da Sociedade Lineana de Londres, foram lidos dois trabalhos científicos que apresentavam o mecanismo pelo qual as espécies evoluem e pelo qual órgãos de extraordinária capacidade, como o cérebro humano, puderam se desenvolver. A resposta tinha apenas duas palavras: seleção natural.

O conceito foi desenvolvido de forma independente por dois naturalistas britânicos: Charles Robert Darwin, que fizera fama ao rodar o mundo anos antes a bordo do navio HMS Beagle, e Alfred Russel Wallace, um jovem desconhecido que tentava desesperadamente ganhar a vida como coletor de espécimes (“biopirata” talvez fosse a tradução adequada hoje) nos trópicos. Darwin vinha trabalhando na idéia por mais de duas décadas, enquanto Wallace a intuíra após poucos anos de observação de aves na Amazônia e no Sudeste Asiático.

Simples de doer

A idéia é de uma simplicidade assustadora: numa população de seres vivos, a variabilidade é criada por acaso. Os indivíduos mais aptos a sobreviver em seu ambiente tendem a deixar mais descendentes, enquanto os menos aptos acabam morrendo antes de atingir a idade fértil. Assim, uma mudança qualquer se espalha pela população, modificando-a. O acúmulo de pequenas mudanças ao longo de um tempo muito longo acaba produzindo novas espécies. É assim que a vida, devagar, evolui.

Hoje a seleção natural é algo tão óbvio que a maioria das pessoas a dá de barato. Mas, no século 19, seu postulado foi uma verdadeira revolução. Lembre-se de que, na época, a visão dominante de mundo era a religiosa cristã, para a qual o Universo tinha menos de 6 mil anos de idade e as espécies eram imutáveis, criadas por Deus.

Duas grandes idéias permitiram a Darwin apresentar seu “longo argumento”, como ele chamou seu conceito de evolução pela seleção natural. A 1a foi a evolução propriamente dita, que desde o final do século 18 já pipocava em escritos de naturalistas, para os quais a constância das espécies era improvável. A 2a foi fonte de inspiração tanto para Darwin quanto para Wallace: os escritos de Thomas Malthus, que fez sua famosa previsão apocalíptica de que a população humana cresceria muito mais rápido que a de alimentos.

Darwin inferiu que os indivíduos no mundo natural viviam uma constante “luta pela sobrevivência”. Vários anos de observações pacientes de animais domésticos, além da observação crucial, feita nas ilhas Galápagos, de que as condições ambientais em cada ilha moldavam o formato do bico dos pássaros, permitiram ao naturalista juntar as duas coisas. Ele publicou em 1859 seu grande clássico: A Origem das Espécies. O mundo nunca mais seria o mesmo.

E ele só queria um emprego

Grandes cientistas são movidos pelos motivos mais diversos, desde paixão pela natureza até a busca da glória. O naturalista galês Alfred Russel Wallace só queria um emprego. Em 1858, aos 35 anos, isolado em Sarawak, (hoje Malásia) e com problemas advindos da malária, ele escreveu uma carta de poucas páginas a seu ídolo, Charles Darwin, na qual propunha, com modéstia, que a tal “seleção natural” fosse o mecanismo de modificação das espécies. Darwin quase caiu para trás: ali, nos rabiscos de Wallace, estava o resumo da teoria na qual ele vinha trabalhando desde a década de 1830 e que estava enrolando para completar, entre outros motivos, para não ferir os brios religiosos de sua mulher. Sem saber o que fazer e sentindo-se ameaçado, Darwin falou com seu amigo, o geólogo Charles Lyell, que propôs que os trabalhos da dupla fossem apresentados juntos.

Longe de se decepcionar, Wallace se rejubilou: publicar com Darwin era quase garantia de que, ao voltar da Ásia, teria um emprego garantido – algo que nunca conseguira. “Isso me assegura um contato com esses dois homens importantes quando eu voltar para casa”, escreveu Wallace à mãe.