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Caça aos Nazistas, parte 4: O carrasco que foi condenado pelo acaso

Adolf Eichmann usou três nomes falsos para escapar da Alemanha e chegar à Argentina. Mas seu destino foi selado por uma coincidência

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ILUSTRA Renato Faccini

1. Durante a juventude, o alemão Adolf Eichmann (1906-1962) fez bicos, trabalhou em escritórios e foi até caixeiro viajante antes de, finalmente, encontrar sua “vocação” no partido nazista. Ele se filiou em abril de 1932, pouco antes de Hitler ser declarado o chanceler da Alemanha. Chegou a receber treinamento militar, mas deu certo como um burocrata

2. O departamento de Eichmann era especializado em contar e tirar todas as propriedades dos judeus que viviam numa certa região. Depois, organizava os trens que os levariam para os campos de concentração na Polônia. Só em Viena, entre 1938 e 1939, Eichmann despachou 110 mil pessoas. Ao longo da 2ª Guerra Mundial, foram mais de 1,5 milhão

3. Eichmann até tentou escapar quando a guerra terminou, mas acabou preso pelos norte-americanos, sob a identidade falsa de Otto Eckmann. Mas logo seu nome real começou a pipocar no julgamento dos outros oficiais – ele era apontado como um dos articuladores do Holocausto. O cerco estava se fechando. Numa noite fria de inverno de janeiro de 1946, decidiu fugir

4. Para conseguir sair do campo de prisioneiros de guerra de Oberdachstetten, ele queimou sua própria tatuagem da SS e se disfarçou com roupas civis que havia contrabandeado. Com documentos falsos (desta vez, Otto Heninger), Eichmann pulou a cerca de arame farpado numa área escura, fora do campo de visão dos soldados

5. Trabalhou por alguns anos como lenhador no vilarejo de Altensalzkoth, mas, em 1950, ajudado por antigos nazistas, padres católicos e contrabandistas de pessoas, chegou a Gênova, na Itália. Com outra identidade falsa (Ricardo Klement), enganou a Cruz Vermelha e obteve um passaporte humanitário, que deveria ser exclusivo para judeus perseguidos por Hitler

6. O nazista chegou à Argentina um mês depois e, primeiro, morou no interior do país, para onde conseguiu trazer, da Alemanha, sua mulher e seus três filhos. Em 1953, eles se mudaram para Buenos Aires, onde Eichmann passou por diversos empregos, incluindo um na montadora de carros Mercedes-Benz. Mal sabia ele, porém, que os agentes israelenses doMossad estavam na sua cola

7. Uma sobrevivente do Holocausto na Argentina teve uma enorme surpresa quando sua filha apresentou o namorado (e o sogro): era a família Eichmann. Adolf ainda se apresentava como Klement, mas ela o reconheceu e repassou a dica ao Mossad, que começou a vigiá-lo. Em maio de 1960, os agentes o capturaram quando voltava do trabalho para casa

8. Foi jogado num carro, levado parauma casa, interrogado, sedado e, por fim, levado, num voo comercial, para Israel. Em Jerusalém, passou por um julgamento de oito meses, com depoimentos de quase 100 sobreviventes. O resultado foi histórico: a única pena capital emitida por Israel contra um civil. Ele foi enforcado em 31 de maio de 1962

ROTA DE FUGA

1. Alemanha

2. Itália

3. Argentina (interior)

4. Argentina (Buenos Aires)

5. Israel

A CONSPIRAÇÃO DE ODESSA

Organização para ajudar nazistas é pura lenda

Uma famosa teoria da conspiração diz que houve um grupo chamado Odessa (sigla para Organização de Antigos Membros da SS) que teria ajudado na fuga de ex-oficiais alemães para a América Latina ou para o Oriente Médio. Ela seria financiada por banqueiros e industriais que admiravam Hitler. Balela. Segundo o historiador Guy Walters, autor de Hunting Evil (sem edição no Brasil), muitos nazistas escaparam com a ajuda não de uma organização gigante, e sim de grupos pequenos de simpatizantes. Eles costumavam ter nomes em código, inspirados em bichos, como o Spinne (“aranha” em alemão), navios de guerra, como o Scharnhorst, ou valsas, como o “Lustige Brüder”

ESTA É A QUARTA PARTE DA MATÉRIACAÇA AOS NAZISTAS. CONFIRA AS OUTRAS:

Parte 1: O exílio do Doutor Morte no Egito

Parte 2: A vida boa de Herbert Cukurs no Rio de Janeiro

Parte 3: A pena do Corvo Negro

Parte 5: A aposentadoria de Josef Mengele no Brasil

FONTESSitesBBC,Opera Mundi,Reuters,Enciclopédia Britannica,Buzzfeed,Memorial do Holocausto,Simon Wisenthal Archive,Simon Wiesenthal Center, blogherbertcukurs.blogspot.com; livrosThe Execution of the Hangman of Riga, de Anton Kuenzle,The Real Odessa, de Uki Goñi,The Eternal Nazi, de Nicholas Kulish e Souad Mekhennet,Hunting Eichmann, de Neal Bascomb,Eichmann in Jerusalem, de Hannah Arendt,Eichmann Before Jerusalem, de Bettina Stangneth, eHunting Evil, de Guy Walters; jornaisThe New York Times,Haaretz,Times of Israel,The Jerusalem Post,O Globo,Corriere della Sera,The Guardian,The Telegraph,Chicago TribuneeThe Jewish Chronicle, revistasTime,Spiegel,Foreign Affairs,Vice,The Atlantic,New StatesmaneSalon