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Chris Anderson :serviços gratuitos

Editor da mais badalada revista de tecnologia do mundo, Chris Anderson explica por que oferecer serviços gratuitos é o melhor jeito de ganhar dinheiro.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h28 - Publicado em 30 nov 2007, 22h00

Pedro Burgos

Cansados das gravadoras, os ingleses do Radiohead resolveram fazer um teste. Há dois meses, eles liberaram o último cd no site da banda. Ficou a cargo dos fãs decidir o quanto queriam pagar pelas músicas. Mais de 1,2 milhão de cds foram vendidos só no 1º dia – cerca de 30% das pessoas optaram por pagar valores entre R$ 13 a R$ 21. As teorias econômicas não explicam como isso funciona. Não faria mais sentido que todo mundo baixasse de graça? O inglês Chris Anderson não é economista, mas nunca achou que as teorias econômicas explicassem o mundo em que vivemos hoje. Pirataria é ruim? A mídia de massa ainda dita quem vai ser sucesso? Editor-chefe da bacaníssima revista Wired e autor do livro A Cauda Longa (veja boxe), Chris Anderson prepara um nova obra, desta vez sobre a economia do gratuito. Para ele, não é só o dinheiro que move as pessoas mas também a vontade de reconhecimento e o sentimento comunitário. Em rápida passagem por São Paulo para dar uma palestra e estudar o fenômeno de Tropa de Elite e da música tecnobrega – fenômeno do Pará em que as músicas são feitas coletivamente –, Chris, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a revista Time, falou à Super.

A Teoria da Cauda Longa fala de sucessos com públicos pequenos e variados. Isso não existia antes?

Antes da internet, era muito mais difícil aparecer na mídia de massa. Era ela ou quase nada. Hoje, a internet agrega várias subculturas, o que é ótimo para gente como eu, que nunca fiquei satisfeito com a cultura do tamanho único para todos. Eu não via TV, não gostava do rádio, não gostava das minhas opções, e não havia a internet lá atrás. A única opção era algo mais “roots”, uma subcultura de rua. Para mim era a subcultura do punk-rock, para outros era a do hip-hop, ou dos hackers ou das drogas.

Então a internet favoreceu a vida dos artistas underground, que não esperam um grande público?

Tudo que você vê hoje na internet é um eco do espírito original do punk. Tem muito da filosofia do faça você mesmo, antiestabilishment, antigravadoras, traços que ganharam força com a produção digital. Em muitos sentidos, a Teoria da Cauda Longa é influenciada pela minha experiência como jovem dos anos 80. Eu não fui à universidade até ter 27 anos. Era um cara que largou o ensino médio e depois largou a faculdade. Gastei os meus vinte e poucos anos tocando em bandas de punk-rock. Naquela época, era possível fazer seus próprios discos em fabriquetas, com tiragem de 200 ou 300 cópias. Era possível fazer a própria distribuição, mandar por correio ou levar para vender em lojas menores. Dava pra tocar até nas garagens, ensaiar lá, comprar guitarras usadas. A internet vem dessa cultura de garagem e a fortaleceu.

Quando eu era criança, nos anos 80, podia conversar com a minha mãe sobre Michael Jackson ou novelas. Hoje não há como eu falar com ela sobre Heroes ou Halo 3. Você não acha que a cultura de massa tem um lado bom de unir as pessoas?

Sim, é verdade. Há prós e contras. Estamos nos fragmentando como cultura. Há bem menos chances de as pessoas terem denominadores culturais comuns do que anos atrás. É o que acontece quando as pessoas têm mais escolhas. Perdemos as ligações culturais superficiais, como a televisão. Mas, em compensação, ganhamos conexões mais profundas. Eu e você provavelmente não ouvimos o mesmo tipo de música, nem os mesmos programas de TV. Mas vamos supor que estamos conversando e percebemos que ambos gostamos de… Lego. Os robôs do Lego. Então estabelecemos uma conexão que mais ninguém nesta sala tem, uma conexão bem mais interessante que a de um programa de TV como Lost, que todos assistem.

A mídia tem o poder de decidir o que é moda?

Ainda tem. Eu e você escrevemos para grandes revistas e temos muitos leitores. Mas os indivíduos têm cada vez mais força, como nos blogs ou nos grupos de discussão. Tenho mais influência no blog do que na Wired. É claro que a revista é grande: atinge 8 milhões de leitores e eu não chego a tantas pessoas no blog. Mas a minha influência individual é maior lá. Na revista, é meio difusa. Eu tenho um contato muito mais direto com os meus 50 mil leitores do blog.

O seu último livro demorou mais para ser escrito por causa do blog?

Sim. Para mim, o blog serve como uma versão beta das idéias. Você não usa um software que não passou por diversos testes, não lê um artigo científico que não tenha sido examinado pelos pares. Por que seria diferente com um livro? Eu o testo no meu blog, lanço as idéias e as pessoas comentam e trazem coisas novas. Demora mais, mas faz com que o livro seja melhor. Quero escrever um monte de coisas que não entrarão no livro só para explorar melhor o argumento.

Mas dá para confiar nos blogs?

Muita gente acha difícil confiar no que está escrito na internet. Mas basta entender que a Wikipedia é a melhor coisa que aconteceu nos últimos 10 anos para acreditar que há muita coisa confiável por lá. O número de pessoas que têm conhecimento, que querem se expressar e sabem como fazer isso é muito maior que o de escritores ou jornalistas profissionais. A qualidade do produto vai aumentar com a expansão da gama de colaboradores, como acontece na Wikipedia.

Costuma-se dizer que as pessoas hoje estão mais egoístas, mas então como explicar a disposição para participar de idéias coletivas, como a Wikipedia?

É a economia do gratuito, tema do meu próximo livro. Está cada vez mais claro que é um erro acreditar que o dinheiro decide tudo. Sim, as pessoas ainda são guiadas pelo interesse próprio, mas não quer dizer que ele seja monetário. Pode ser por reputação, atenção, expressão, respeito, sentido de comunidade. Há vários motivos para as pessoas se expressarem e contribuírem. Não sabíamos o quão abrangentes e interessantes esses incentivos eram porque não tínhamos dado essas ferramentas antes aos usuários. Se alguém dissesse há 10 anos que as pessoas que escrevem e publicam na internet fariam isso de graça, ninguém acreditaria.

O seu próximo livro [provisoriamente intitulado Free, “livre”, em inglês] será gratuito?

Gratuito para download, e outros formatos digitais, mas cobrarei pelo livro físico. O download é gratuito porque o custo é zero. E o preço segue o custo.

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Há uma onda de obras sobre tendências, como O Ponto de Desequilíbrio, O Mundo é Plano e Freakonomics. Seus livros se encaixam nessa onda?

Sim. São livros sempre escritos por jornalistas que não são da área de economia. Acho que economia de cultura pop é um tópico interessante e em alta hoje em dia. É uma interseção de vários assuntos legais, é a ciência das nossas vidas.

O que você acha da experiência do Radiohead, onde os consumidores decidem o preço do download?

É uma idéia brilhante e uma tendência. Esse tipo de flexibilidade só é possível porque o custo de produção e distribuição é quase zero. Se as pessoas pagarem zero, o Radiohead não perde dinheiro. Porque, como o custo é zero, eles podem cobrar de nada a infinito. Se o custo do produto fosse US$ 10, eles não poderiam cobrar menos que isso. A economia digital não precisa ser gratuita necessariamente, mas permite a gratuidade como modelo.

Bandas iniciantes podem usar o mesmo modelo?

Não acho que os artistas estreantes deveriam cobrar por música, mas, sim, pela performance. A música desses artistas deve ser distribuída da maneira mais abrangente possível, como publicidade para o verdadeiro produto, que é o show ao vivo. Eu dou de graça minhas idéias no blog. E eu estou falando aqui em uma conferência, algo pelo qual cobro. Minhas palavras são uma commodity que podem ser distribuídas a custo zero. Mas a minha presença e tempo particular não podem ser distribuídos facilmente.

No próximo livro, você diz que o desafio é dar um produto de graça que renda dinheiro com as coisas em volta. Como isso se explicaria na prática?

O dinheiro vem com os serviços Premium. A maioria das pessoas usa Skype de graça. Há 80 milhões de usuários, mas apenas algumas centenas de milhares pagam pelo Premium, que dá mais benefícios.

A economia do gratuito pode deixar o meio digital e chegar ao meio físico?

Sim. Nos EUA, é muito comum ter um celular de graça. Se você fizer um plano de fidelidade de dois anos, tem um celular grátis. A idéia pode se estender até mesmo para carros gratuitos. O modelo antigo era que o carro era caro e o combustível barato. Agora o combustível está ficando muito caro e, comparativamente, o carro é barato. Nos EUA, já existe uma empresa que dá o carro de graça e cobra pela exclusividade do combustível. Da mesma forma, a pirataria pode ser uma forma efetiva de marketing. O filme Tropa de Elite, aqui do Brasil, foi largamente pirateado e ainda assim virou um sucesso de bilheteria. Os vendedores de rua têm mais impacto e influenciam mais o consumidor que a publicidade tradicional.

Os cineastas brasileiros reclamam que não há canais de distribuição suficientes. Mas não querem ter seus filmes pirateados.

Todo cineasta do mundo reclama disso. Como resolver? Esqueça o cinema, vá de dvd. Distribuição na rua é bom se você não espera ganhar dinheiro com a venda. Os cineastas brasileiros têm os filmes subsidiados pelo governo, por isso não precisam ganhar dinheiro. Eles fazem o filme pela reputação, pelo impacto no público. Por isso têm mais é que deixar o mercado decidir. Se as pessoas não querem pagar pelo produto, ok, arranjamos outra maneira de ganhar dinheiro. Afinal, estamos aqui para isso, certo?

A cauda longa

A era da banda desconhecida

Já ouviu falar da banda Superchunk? Não? E da Soho Dolls? Não tem problema. No mundo de hoje, o megassucesso, aquele hit que a rádio tocava sem parar e todo mundo sabia de cor, dá lugar a bandas com um público fiel e pequeno, uma cauda longa dividida em vários e pequenos hits. Talvez você nem se lembre, mas há alguns anos a única opção para conseguir novas músicas, filmes e livros era ir às lojas. E o gráfico de vendas de uma loja tradicional tinha uma “cabeça grande” (poucos produtos representavam boa parte do lucro) e uma “cauda curta” (como não havia muitas opções, os menos populares vendiam pouco). Estudando os dados de lojas virtuais como a Amazon.com ou serviços como o iTunes, Chris Anderson concluiu que, quando têm opções, as pessoas gostam de procurar alternativas aos hits, seja em música, seja em tipos de cerveja. Como na internet o “espaço de prateleira” é quase infinito, ao contrário das lojas físicas, uma variedade muito maior de produtos foi disponibilizada para atender à demanda. Em uma economia assim, onde os produtos de nicho são cada vez mais importantes, o gráfico de vendas tem uma cauda mais longa. É lá que estão as bandas obscuras com fãs ardorosos e seus fotologs.

Chris Anderson

• Tem 46 anos, é casado e tem 4 filhos. Mora em Berkeley, Califórnia.

• Seu tataravô, Jo Labadie, foi o fundador do movimento anarquista nos EUA no século 19.

• Tinha uma banda chamada REM. Quando uma rádio descobriu que havia outra com o mesmo nome (hoje, famosa), ele organizou um duelo. Foi o último show de sua banda.

• Adora o game Guitar Hero e emprestou a voz para o jogo Halo 3.

• Apesar de ser jornalista com passagens pelas revistas The Economist e Nature, é formado em física.

• Seu atual hobby é construir aviões de controle remoto. “Ainda não fui preso por isso”, diz.

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