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Cientistas cravam qual foi o pior ano para estar vivo na história

Foi num período sem peste bubônica, sem grandes genocídios, mas também sem sol: ele brilhou tão fraco quanto a Lua por 18 meses.

Belchior cantou: “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Um bom ano para morrer, ele ficaria feliz em saber, seria 536 d.C – o pior da história da humanidade, de acordo com o historiador e arqueólogo Michael McCormick.

O professor de Harvard afirmou à revista Science: “Foi o começo de um dos piores períodos para se estar vivo – se não foi o pior.” E essa é principal conclusão de um artigo científico que ele e sua equipe publicaram nesta semana. 

O que leva à pergunta: por que tanta desgraça? Será que o auge do Holocausto, por volta de 1943, não foi pior? Ou talvez a Peste Negra, lá em 1374? Quem, afinal, é 536 na fila do pão?

Bem, para começar, um vulcão entrou em erupção na Islândia e cobriu o céu do hemisfério norte com cinzas por 18 meses. Nas palavras de Procópio, historiador da época, “o Sol deu sua luz sem brilho, como a Lua, durante todo o ano”. Percebe-se a falta de brilho no termômetro: a temperatura média, no verão, caiu algo entre 1,5ºC e 2,5ºC.

Com a luz tênue e a friaca – a década de 530 foi a mais fria em 2300 anos –, a agricultura se deu mal. Uma crise de fome tomou conta de todo o planeta: há registro de escassez de alimentos em documentos da Irlanda, da Escandinávia, da Mesopotâmia e da China.

A natureza fez sua parte para garantir que não saíssemos da espiral de improdutividade: logo depois, rolaram outras duas erupções cataclísmicas, uma em 541 e outra em 547 (desgraça pouca sempre é bobagem).

Em 541, uma epidemia de peste bubônica atingiu um porto egípcio, e de lá se espalhou e arrasou o já decadente Império Romano do Oriente – na época governado pelo imperador Justiniano. Algo entre 35% e 55% da população do litoral do Mediterrâneo morreu.

Os historiadores, naturalmente, já tinham alguma noção de que os primeiros anos da Idade Média haviam sido um período desagradável. Mas o trunfo do novo trabalho de McCormick foi usar indícios geológicos – como amostras de material vulcânico daquela época que estão presas até hoje em amostra de gelo do norte da Europa e da América – para criar um calendário preciso dos desastres naturais que se abateram sobre a humanidade.

Só por volta de 640, um século depois, que a Europa se recuperou: a mineração de prata para produção de moeda aumentou, sinal de que a economia estava voltando a funcionar.