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Cocô ajuda a preservar relíquias históricas de 300 anos

Em latrinas públicas do século XVIII, arqueólogos descobriram milhares de objetos históricos - alguns com mensagens tramando a independência dos EUA

Por Helô D'Angelo Atualizado em 31 out 2016, 19h02 - Publicado em 7 jul 2016, 15h15

A história humana não se resume a guerras, revoluções e eleições: ela vai muito além do que é grandioso e épico. Por isso, coisas que geralmente são ignoradas, como o lixo, podem ser muito mais informativas do que um documento oficial – pelo menos, é o que mostra uma equipe de arqueólogos da Commonwealth Heritage. Vasculhando um monte de cocô e xixi de 300 anos de idade, eles acharam milhares de artefatos antigos que remontam a Revolução Americana.    

A descoberta aconteceu por acaso. Durante as escavações para construir o Museu da Revolução Americana, na Filadélfia, os arqueólogos encontraram o que pareciam ser 12 poços de tijolos – mas, na verdade, eram latrinas públicas enormes, que também serviam como lixeiras. Elas estavam lotadas até a boca com décadas de cocô e xixi. 

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Parece nojento, mas os arqueólogos respiraram fundo e vasculharam os dejetos. E encontraram 82 mil objetos dos século XVIII, preservados esse tempo todo por (prepare o estômago) uma substância pegajosa, formada por uma mistura de cocô, xixi, sujeira e terra. Entre garrafas de licor, pentes de peruca, louças importadas da China e barris de cerveja, os estudiosos descobriram mensagens a favor da independência dos Estados Unidos – ou seja: os objetos são mais antigos que o próprio país, que só se libertaria da Inglaterra em 1776. 

Com uma ajudinha do registro de prisões do século XVIII, os arqueólogos perceberam que as latrinas pertenciam a um bordel ilegal, que costumava ser frequentado por pessoas que eram contra a dominação inglesa. Uma das provas disso é um prato de porcelana com os dizeres “Success to the Triphena” (Sucesso para o Triphena), uma mensagem de incentivo ao navio Triphena, que levou uma petição para a Inglaterra, pedindo o cancelamento do Stamp Act – uma lei que obrigava os americanos a pagarem impostos sobre quase qualquer coisa, e um dos fatores que levou à Revolução Americana.

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Um pedaço de vidro com a palavra ‘amor’ gravada também ajuda a contar essa história. No começo, os arqueólogos pensaram que se tratava de um pé na bunda – alguém que resolvera jogar na privada a recordação de um relacionamento que não deu certo. Mas, com um pouco mais de escavação, eles perceberam que não era bem isso: o resto da frase era “We admire riches, And are in LOVE with i[dleness]”(“Nós admiramos os ricos, e amamos o ócio”), frase de uma peça do século XVIII sobre a Roma Antiga, que carregava mensagens políticas a favor da independência americana.

Para os arqueólogos, esses objetos são importantes para quebrar a ideia de que a história só pode ser contada pelos documentos oficiais – quando, na verdade, observar o que as pessoas querem esconder é muito mais interessante. O Museu será inaugurado em 2017, com a exposição de todas as peças encontradas no meio do cocô. E eles garantem que o cheiro não deve lembrar em nada as latrinas onde os objetos ficaram guardados por 300 anos.

 

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