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Como não escolher um papa

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h22 - Publicado em 30 abr 2005, 22h00

Reinaldo José Lopes

Depois de tantas notícias, você já deve saber o que é um conclave e de onde vem esse nome: do latim cum clave, ou seja, “com chave”. Isso porque, lá no século 13, alguém enfiava os cardeais numa sala e metia a chave na porta até que elegessem um papa. Mas, por trás dessa porta, as histórias nem sempre foram celestiais. Leia abaixo os episódios mais inusitados dessa instituição milenar.

Hora de papar

Os dez piores momentos na história do conclave

Nada formoso

No princípio, não era o conclave: a eleição do papa era manipulada pelas famílias nobres de Roma. Em 897, o pontífice recém-eleito Estevão VI quis se vingar do antecessor e rival, o papa Formoso. Simples: exumou o morto, julgou-o, condenou-o, mandou cortar a mão com a qual ele dava a benção e jogar o resto no Tibre

Mau começo

Em 1241, para forçar os cardeais a parar de enrolar, o nobre romano Matteo Orsini trancou todo mundo no palácio Septizonium. Era o primeiro conclave. Com condições sanitárias precárias e privadas entupidas, um deles morreu. Os prelados correram a eleger o idoso Celestino IV – que também bateu as botas, 17 dias depois

De castigo! E sem sobremesa!

Em 1274, o papa Gregório X decidiu agilizar os conclaves intermináveis da Idade Média. Nesse ano, ele estabeleceu uma redução progressiva da comida dada aos cardeais conforme a reunião se arrastava – afinal, os chefões da Igreja dessa época não conseguiam passar sem um bom banquete. Mas a regra, claro, foi revogada no pontificado seguinte

Vai pro trono

Durante o Renascimento, o papado atingiu seu ápice cultural – financiando gênios como Michelangelo – e também o fundo do poço moral. O costume de pactos sórdidos para conseguir ganhar o papado tornou-se norma. Segundo o papa Pio II, eleito em 1458, o “retrete” (leia-se “latrina”) “era um lugar adequado para tais eleições”

Uma mão lava outra

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Alexandre VI, pontífice espanhol eleito em 1492, tornou-se o mestre no joguinho do conclave. Se fosse escolhido, teria de renunciar a dezenas de abadias, bispados e cidades fortificadas. Sem problemas: distribuiu as honrarias e conquistou os eleitores. Reza a lenda que tinha oito filhos, com três mulheres diferentes, quando virou papa

Investimento de risco

No século 17, o papado virou joguete das grandes monarquias católicas européias, como a França e a Espanha. Todo mundo queria emplacar um papa do seu gosto. O rei francês Henrique IV teria gasto 300 mil escudos para eleger Leão XI em 1605 – aliás, grana mal-empregada, porque o pontífice só durou três semanas

O defunto era maior

Em 1914, um mês depois do início da Primeira Guerra Mundial, o eleito foi o papa Bento XV, um cardeal baixinho que ganhara o apelido de Picoletto (“miudinho”, em italiano) em seus anos de seminarista. O coitado era tão minúsculo que nenhuma das roupas da coroação, preparadas de antemão, cabia nele

Tapa-buraco?

Em 1958, a eleição de João XXIII, com seus 77 anos, aconteceu porque todo mundo queria um papa de transição, que desse tempo para a Santa Sé achar seu rumo depois dos quase 20 anos do papado de Pio XII. Foi o maior tiro pela culatra da história: ele convocou o Concílio Vaticano II, que modernizou a Igreja e a virou do avesso

Queimou a língua

Nunca ninguém em um conclave se arrependeu tanto do que disse quanto o cardeal inglês Hume, em 1978. Ele ajudou a eleger o papa João Paulo I e saiu dizendo para todo mundo que este era “o candidato de Deus”. O pontífice era mesmo muito afável e humilde, mas morreu do coração dali a pouco mais de um mês

Aquele do Senegal?

Em 1978, um cardeal foi até a sacada para anunciar o nome do novo papa, em latim. Acontece que a teimosia em pronunciar do jeito certinho o nome polonês de João Paulo II – Karol Wojtyla, ou “Vo-i-til-wa”, como se diz – fez a multidão reunida na praça achar, por quase um minuto, que se tratava de um africano

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