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Declínio e queda

Felizmente para nós, a imparcialidade não estava entre as virtudes de Gibbon: seu livro é um tesouro de polêmicas sutis e deliciosas ironias, principalmente no que diz respeito ao elogio (ou à detração) de grandes figuras históricas.

Francisco Botelho

O escritor Horace Walpole escreveu que um bom historiador é o mais raro dos escritores – afinal, não é assim tão fácil encontrar um grande erudito que seja, simultaneamente, um estilista consumado. Nesse sentido, o historiador britânico Edward Gibbon (1737-1794) é um caso à parte. Sua obra-prima, Declínio e Queda do Império Romano, não é apenas um dos mais instigantes estudos históricos já escritos, mas também um monumento definitivo da literatura.

Felizmente para nós, a imparcialidade não estava entre as virtudes de Gibbon: seu livro é um tesouro de polêmicas sutis e deliciosas ironias, principalmente no que diz respeito ao elogio (ou à detração) de grandes figuras históricas. Sua prosa tem o sabor de uma conversa após o jantar, entre charutos e copos de vinho. Ainda mais impressionante, no entanto, é o poder dramático da obra, a grandeza épica de seus panoramas e o encanto ambíguo de seus personagens. Descrevendo a glória e a corrupção de Roma, o advento dos bárbaros e a tumultuosa origem das nações européias, Gibbon também delineia um assombroso painel da alma humana – por trás de toda essa exuberância, no entanto, paira a sombra de um melancólico ceticismo, expresso em uma de suas frases mais famosas: “A história é pouco mais que o registro dos crimes, loucuras e desgraças da humanidade”. Nos tempos que correm, fica cada vez mais difícil escapar ao apelo dessa amarga sabedoria.