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Desincrustação fotônica: Faxina a laser na catedral

Restauradores franceses estão usando um aparelho de raio laser para limpar monumentos históricos.

A maior catedral francesa, construída entre 1220 e 1270 em Arniens, 100 quilômetros ao norte de Paris, resistiu à conquista da cidade pelos espanhóis em 1597, à fúria devastadora da Revolução Francesa e aos bombardeios de duas guerras mundiais. Dentro em pouco ela também terá triunfado contra a ação do tempo. Munidos de uma nova ferramenta – a desincrustação fotônica -, restauradores dos monumentos históricos da França descobrem, a cada dia, a profusão de cores que realçava a construção do puro estilo gótico em sua época áurea. Os pacientes operários, acostumados a empunhar instrumentos cirúrgicos e avançar a passos de tartaruga, apoderam-se agora do preciso e potente raio laser, graças ao qual se pode remover a poeira dos séculos sem que as pedras sofram alterações.

O aparelho – único no mundo – levou mais de vinte anos para chegar às mãos hábeis dos restauradores. “O maior problema foi encontrar o laser adequado a este trabalho”, explica Geneviève Orial, engenheira do Laboratório de Pesquisa dos Monumentos Históricos. “Precisávamos de algo potente, mas extremamente modulável, que se adaptasse a diversas pedras e ao acúmulo de poluição”. Ligado na corrente elétrica, um flash excita uma barra revestida com grãos de alumínio e ítrio, encharcada também com um terceiro elemento químico, o neodírnio. Essa barra emite um feixe laser que é amplificado numa caixa de ressonância constituída de espelhos refletores. Em seguida, os raios são concentrados por meio de urna lente. “Assim, pode-se variar o diâmetro do impacto do raio de acordo com a espessura e com o tipo de impurezas”, completa Geneviève.

Além de ser regulável e agir unicamente sobre a sujeira, o feixe emite uma energia limitada – de apenas 1 joule, o equivalente a 4,3 calorias -, incapaz de aquecer e danificar o suporte. Tampouco acrescenta qualquer tipo de material estranho às pedras, ao contrário dos jatos de areia utilizados com freqüência nesse tipo de trabalho. “Laser é luz e a luz não entra em contato com o material. Apenas cria urna ressonância mecânica que descola as partículas indesejáveis.” O único resíduo que parece resistir à nova tecnologia é urna infindável querela entre historiadores: para uns, a catedral deve retomar à policromia do passado. Para outros, deve guardar apenas os tons das pedras.