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Deuses criados à imagem dos seres humanos

O filósofo grego Xenófanes (570-480 a.C.), em uma única frase, definiu como os gregos lidavam com suas divindades: "Os homens criaram os deuses à sua imagem e semelhança". Os deuses gregos são mesmo humanos, demasiado humanos: Zeus, o mais poderoso deles, tinha uma fieira de amantes e se transformava ora em touro, ora em cisne para seduzir outras deusas, semideusas e mortais. Eles tomavam partido em guerras, fofocavam, e rivalizavam uns com os outros.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h25 - Publicado em 19 mar 2011, 22h00

Texto Eduardo Szklarz

A maioria das histórias da mitologia grega chegou até nós graças aos grandes poetas épicos, como Homero e Hesíodo, que compilaram as façanhas dos deuses, semideuses e heróis. Mas muitos filósofos antigos questionaram a forma como os poetas apresentavam as divindades. “Segundo Platão, Homero atribuiu a elas ações indignas de um deus”, diz Jacyntho Lins Brandão, professor de língua e literatura gregas da UFMG. A castração de Urano por Cronos não escapou das críticas. “Para Platão, era um absurdo que um deus pudesse fazer isso. E, mesmo que esses episódios fossem verdadeiros, deveriam ser contados a iniciados, não para crianças e a população em geral.” Mas não era assim. As lendas, com cenas de amor, rivalidade, ódio, enfim, sentimentos tão presentes em nós mortais, se transformaram em histórias que permeiam a civilização ocidental, serviram de inspiração para alguns dos maiores gênios da pintura e da música e até para o pai da psicanálise, Sigmund Freud. Mais do que qualquer coisa, são a base de nossa cultura.

GUERRA CÓSMICA

O texto que define a genealogia dos deuses, divindades e heróis tem dono. A maior parte do conhecimento que chegou a nós sobre a mitologia grega é fruto da pena do poeta Hesíodo, que no século 7 ou 8 a.C. reuniu o panteão em sua Teogonia. Hesíodo busca a origem dos tempos – “em primeiro lugar, o Caos passou a existir” é o verso que abre seu livro – e conta como no começo havia Gaia (a Terra), Tártaro (o inferno), Eros (o desejo), Érebo (a escuridão do inferno) e a Noite (a escuridão da Terra). Urano, que reinava antes de ser destronado pelos titãs, era filho de Gaia, e inaugurou uma era de muitos incestos mitológicos. No mesmo período surgem Montanhas, Mares, o Éter e o Dia.

O fim de Urano traz outra situação que se tornará recorrente na mitologia grega: o filho que vence o pai. Os titãs reinavam absolutos na Terra, uma nova geração de deuses estava no poder. E trataram de povoar o planeta. A monogamia não era regra e a dúzia de titãs se dividia entre entidades femininas e masculinas que variavam seus parceiros. Cronos se casou com sua irmã Reia e deu origem à linhagem que mais tarde ocuparia o monte Olimpo. Hipérion, um dos titãs, foi pai de Hélio, deus do Sol, e Eos, a aurora. A geração dos filhos dos titãs permeia toda a mitologia futura.

A mãe de Cronos, Gaia, havia profetizado que tal como seu pai, Urano, ele seria morto pelo próprio filho. A história, mesmo entre os grandes deuses, se repetia. Com medo, em sua cidadela no monte Othrys, Cronos devorou cada um dos seus 5 filhos tão logo saíram do ventre da esposa. Reia não gostou nada disso e armou um plano: quando nasceu o filho Zeus, ela o enviou à ilha de Creta para protegê-lo do pai. Envolveu uma pedra com roupa de bebê para fingir que era o recém-nascido, devidamente devorada por Cronos, que achou que assim se livrara do sexto filho.

ZEUS TOMA O PODER

O pequeno Zeus cresceu na ilha de Creta rodeado de ninfas até que uma delas, Amaltea, lhe revelou que ele era filho de Cronos e que papai comera seus irmãozinhos. Quando se tornou adulto, Metis (Prudência) lhe explicou como resgatar os irmãos do ventre de Cronos usando um néctar mágico. Dito e feito: disfarçado, Zeus entregou ao pai uma taça. Alguns goles bastaram para Cronos vomitar todos os filhos – já transformados em adultos. E não eram deuses quaisquer. De sua boca brotaram Posêidon, Hera, Hades, Héstia e Deméter, que juntaram forças numa batalha que hoje se conhece como Guerra Cósmica ou Titanomaquia. Sozinhos, os deuses não eram páreo para o titãs, mas Zeus libertou os ciclopes, que viviam no Submundo desde os tempos em que foram exilados por Urano. Eles eram excelentes ferreiros e criaram armas mágicas para os deuses. Zeus ganhou os raios do céu. Hades, um capacete que a tornava invisível. Posêidon, um tridente com o qual podia provocar tempestades e terremotos.

Com a vitória dos deuses, Cronos foi exilado no Tártaro, uma região povoada por monstros e guardada pelos hecatonquiros, os seus próprios filhos, os gigantes de 100 braços. Um dos líderes dos titãs era Atlas. Nascido de um titã e uma ninfa, Atlas governava Atlântida. Os deuses decidiram puni-lo e acabar com toda sua raça. Enviaram uma inundação e a ilha foi varrida do mapa, mas ele continuou lutando. Quando afinal os titãs foram derrotados, os deuses fizeram Atlas carregar o céu para sempre. “O globo celestial às vezes é confundido com a Terra”, registra Philip Wilkinson no livro Myths & Legends (“Mitos & Lendas”, sem tradução no Brasil). Seja o que o for, está lá: em cima dos ombros de Atlas, que virou sinônimo de mapa e dá nome a uma cadeia de montanhas no Marrocos.

Era a hora do sossego, do descanso dos guerreiros? Que nada. Os deuses foram desafiados primeiro pelos Gigantes, também filhos de Gaia, que estava furiosa pelo destino dos titãs. Os deuses ganharam mais uma e despacharam os Gigantes para o fundo dos vulcões na guerra que se tornou conhecida como Gigantomaquia. Tempos depois foi a vez de Tífon, o deus dos ventos, uma criatura gigantesca cheia de cabeças, braços e pernas, também incitado por Gaia a encarar Zeus. O monstro jogava pedras no deus. O contra-ataque foi uma chuva de raios nas pedras. Elas voltaram à origem e nocautearam Tífon. Mais um que foi para o Tártaro.

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VIDA NO OLIMPO

Os novos poderosos trataram de dividir os butins da guerra. Zeus tornou-se, é claro, o chefe do pedaço, o deus supremo, que comandava o céu e os trovões. Posêidon virou senhor dos oceanos e o último irmão homem, Hades, mandava no mundo dos mortos. As irmãs Héstia e Deméter ficaram com a Terra, mantendo a tradição feminina que vem de Gaia quando se trata desse assunto. E Hera? Ela não ficou com nenhum reino. Mas se casou com Zeus. A morada escolhida foi a montanha mais alta do mundo, o monte Olimpo. Para se alimentar, mel e ambrosia, o mais doce dos doces.

A vida no Olimpo não era nem um pouco parecida com o céu católico, repleto de santos e marcado pela bondade e pela virtude. Zeus encarnava os arquétipos da paixão, do poder e do julgamento. Só ele era capaz de controlar uma família rebelde e irresponsável como aquela. Ai de quem desafiasse suas leis, pois poderia levar uma descarga de seu raio. Mas a liderança não o tornava um modelo de comportamento. Zeus era um deus namoradeiro. Não hesitava em se metamorfosear no que fosse para conquistar um novo amor. Ele conquistou Europa, por exemplo, na pele de um touro (do relacionamento, nasceram Sarpedon, que lutou em Troia, e Minos, rei de Creta e dono do Minotauro). A princesa de Esparta, Leda, foi seduzida pelo deus na forma de um ganso (um dos filhos da dupla era ninguém menos que Helena de Troia, a mulher mais bela de seu tempo). Quando a forma de bicho não servia, ele usava outros truques. Se encontrava com amantes na prisão virando chuva de ouro. Para Alcmena, ele apareceu como se fosse o marido da moça. Da relação com Leto nasceram os gêmeos Artemis (a deusa das amazonas) e Apolo (deus do Sol).

Com filhos às dúzias, não é de estranhar que a descendência de Zeus tenha ocupado o protagonismo das maiores aventuras da mitologia grega. São suas filhas as Musas, as Graças, o herói Perseu… Hera vivia magoada com as traições e se vingava em quem podia: nas amantes. Leto acabou banida, Io, depois que foi transformada em vaca, recebeu um mosca de Hera que nunca mais a deixou em paz. A deusa também buscava vingança nos bastardos. Deixou o herói Heracles louco – num acesso, ele matou a mulher e os filhos – e perseguiu Dionísio. Cansada da petulância de Zeus, Hera se uniu aos outros irmãos numa revolta contra o marido. Enquanto o líder dormia, eles o ataram à cama com correias de couro cru. Deram 100 nós para que não se movesse. Zeus ameaçou matá-los, mas nada podia fazer com o raio fora do alcance. Enquanto os deuses discutiam quem tomaria seu lugar, a nereida (ninfa do mar) Tetis previu uma guerra civil no Olimpo e chamou o gigante de 100 mãos Briareo, que não teve dificuldade para desatar os nós e libertar o chefe. Que, evidentemente, não estava feliz.

Como Hera havia tramado a conspiração, Zeus deixou-a dependurada no céu com um bracelete de ouro em cada mão e um peso em cada perna. Só a soltou depois que todos juraram não se rebelar outra vez. Posêidon e Apolo também receberam castigo: foram enviados como lacaios para Troia e construíram as muralhas da cidade. Os outros deuses foram perdoados, por agirem sob coação.

A VIDA DOS HOMENS

Não há explicação única para o surgimento do homem grego. Sabe-se pela Teogonia de Hesíodo que as tentativas de criar os seres humanos, ou simplesmente os mortais, como eram conhecidos, não foram poucas. Quando Cronos era o mandachuva, viveu-se uma Era de Ouro, um tempo de paz e tranquilidade. E ele criou para esse cenário uma Raça de Ouro. Eles viviam em total sintonia entre si, com os animais e, claro, com os titãs – e Cronos, que comia os filhos, era reverenciado por ser um rei justo e generoso. Não precisavam trabalhar, pois podiam coletar tudo de que necessitavam. Não envelheciam, nunca ficavam doentes. Quando morriam, era como se estivessem dormindo, e seus espíritos estão espalhados pela Terra até hoje. Depois de derrotar Cronos, Zeus criou a Raça de Prata. Eles também viviam muito tempo, a infância durava 100 anos. Mas às vezes morriam tão logo se tornavam adultos. Eram briguentos, pouco inteligentes e, para seu azar, não faziam reverências aos deuses. Foram para o destino-padrão da dissidência naquela época: direto para o Submundo.

Zeus fez mais uma tentativa e criou a Raça de Bronze. Eles usavam armaduras e ferramentas de bronze e eram mais inteligentes que os predecessores, mas acabaram se matando. Destino: Submundo. O chefe dos deuses tentou mais algumas vezes até chegar à Raça de Ferro. Gente que trabalhava duro e sabia dividir o mundo entre o bem e o mal. Eles foram imediatamente acolhidos por um titã que durante a Guerra Cósmica não se uniu a seus irmãos contra os deuses, Prometeu.

O titã ensinou aos homens os segredos da navegação e da medicina e mostrou como sacrificar animais e oferecer parte deles aos deuses. Numa ocasião, quando um touro foi sacrificado e ninguém sabia com que parte presentear os deuses, Prometeu enrolou a carne com a pele do bicho e embrulhou os ossos numa bola de gordura. Zeus escolheu os ossos. Ficou tão decepcionado e furioso que se negou a dar o fogo aos homens. Prometeu, então, resolveu roubá-lo dos deuses (veja abaixo).


VINGANÇA DE ZEUS

Prometeu não foi o único a sofrer a fúria de Zeus pelo roubo do fogo divino. Imediatamente ele elaborou duas vinganças contra os humanos. Ele pediu a Hades que criasse a primeira mulher. (É isso mesmo, até então, para a mitologia grega, a aventura humana era exclusivamente masculina.) Ela se chamava Pandora. Era linda, porque Atena e outras deusas a encheram de beleza. O deus Hermes a ensinou a enganar. Pandora se casou com o filho de Prometeu e veio para a terra. Os deuses lhe deram muitos presentes, entre eles uma jarra. Quando abriu o que passou à história como “a caixa de Pandora”, todos os males, doenças e desastres se espalharam pela Terra e os humanos foram condenados a uma vida miserável. Mas no fundo da jarra havia a única boa notícia: a esperança.

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A outra vingança de Zeus foi mais direta. Ele resolveu escorraçar a raça humana da face da Terra. Para tanto, criou um dilúvio. Alertado por seu pai, Prometeu, Deucalião e sua mulher, Pirra (filha de Epimeteu e Pandora – e portanto neta e nora do titã), construíram uma arca, tal como Noé fez no relato bíblico. Quando as águas baixaram, o casal foi a Delfos para agradecer à titã Têmis. Lá, ela disse que jogassem por trás do ombro os ossos de seus antepassados. Eles não entenderam de primeira, mas depois concluíram que Têmis se referia a Gaia, a Mãe Terra (sempre ela). Pegaram as pedras do chão e jogaram para trás. De cada pedra nasceu um humano. Deucalião gerava homens e Pirra, mulheres. Assim, os humanos brotaram do solo e a Terra foi repovoada.

OS AMANTES DE AFRODITE

Lembra-se que Cronos jogou os genitais de Urano no mar? Seu sangue gerou ninfas, gigantes e as fúrias, e seu sexo virou uma espuma branca, de onde surgiu Afrodite, a deusa do amor, do desejo e da sexualidade. Sedutora, ciumenta, cheia de amantes, Afrodite era tanto a personificação do amor como da beleza, e devolvia esses atributos a quem a venerava. Ela se casou com Hefesto (deus do fogo e tido como um dos mais feios do panteão grego) e lhe foi eternamente infiel. Não hesitava em roubar amantes e tinha ciúme de quem desafiasse sua formosura. Com Hermes (deus do comércio), Afrodite deu à luz Hermafrodito, que tinha os dois sexos – daí o termo que se usa até hoje na medicina. Afrodite foi para a cama com Ares (deus da guerra) e Dionísio (deus do vinho e do delírio), além do príncipe troiano Anquises. Mas sua grande paixão foi o jovem bonitão Adônis, com quem teve 3 filhos: dois lindos mortais e um imortal feioso chamado Príapo – tão promíscuo que os deuses barraram sua entrada no Olimpo. Príapo batizou um distúrbio da sexualidade que existe até hoje.

O romance com Adônis começou por acaso. Belo dia, a esposa do rei Cíniras, de Chipre, disse que sua filha Esmirna era mais linda que Afrodite. A deusa não deixou por menos: fez com que a jovem se apaixonasse pelo pai e entrasse sorrateira na cama dele, quando o velho estava bêbado. “Ao descobrir que seria pai e avô do futuro bebê, o rei perseguiu Esmirna até o alto de uma montanha, onde Afrodite a transformou numa árvore de mirra. Com um golpe de espada, o rei cortou a árvore em duas metades. De lá saiu Adônis”, de acordo com o escritor britânico Robert Graves no livro The Greek Myths (“Os Mitos Gregos”, sem tradução em português).

Arrependida da travessura, Afrodite escondeu o bebê num cofre e o entregou a Perséfone (a rainha da morte) para que o guardasse. Curiosa, Perséfone abriu o cofre e ficou tão encantada com Adônis que fez dele seu amante. Afrodite, então, pediu ajuda a Zeus, mas foi como dar um tiro no pé: ao saber que ela gostava de Adônis, o líder dos deuses se recusou a ser juiz do caso e passou a bola para um tribunal presidido pela musa Calíope. O veredicto: Afrodite e Perséfone teriam o mesmo direito sobre Adônis – uma por tê-lo parido e a outra por tê-lo salvado. Assim, a juíza dividiu o ano em 3 partes. Adônis passaria uma delas com Afrodite, a outra com Perséfone e na terceira poderia descansar das deusas insaciáveis. Ofendida, Perséfone reclamou com Ares, dizendo que sua amante secreta Afrodite queria trocá-lo por um reles mortal. Ares ficou indignado. Tomou a forma de javali e matou Adônis com uma chifrada enquanto o jovem caçava. Do sangue do mancebo brotaram anêmonas, e sua alma descendeu ao Tártaro.

ÁGUAS RAIVOSAS

Zeus e Afrodite eram temperamentais, é verdade. Mas pareciam bichos de pelúcia se comparados a Posêidon, o senhor dos mares. Quando a humanidade o irritava, ele chacoalhava o tridente com tanta força que produzia maremotos e inundações. A verdade é que Posêidon nunca se sentiu muito satisfeito com o reino das águas, e por isso tinha uma relação complicada com Zeus. Assim como o irmão, seu apetite sexual era infinito: vivia atrás de ninfas, sereias e humanas, mas finalmente aquietou o facho ao se casar com a nereida Anfitrita. O casório foi complicado. Posêidon dava tanto trabalho a Anfitrita quanto Zeus a Hera. Não podia ver um rabo de saia. Quando Posêidon arrastou o tridente para a ninfa Escila, a esposa não conteve a ira: transformou a donzela num monstro marinho que tinha torso de mulher, rabo de peixe e 6 cachorros na cintura. Como sempre, sobrou para a namorada.

Você deve estar pensando: os gregos achavam que essas histórias eram verdadeiras? Afinal, para nós elas mais parecem desvarios. Com nossa perspectiva moderna, temos muita certeza de nossa crença em um só deus. Mas, se pensar bem, nossa crença também pareceria estranha a outros povos e reli-giões. No livro Acreditavam os Gregos em Seus Mitos?, o historiador francês Paul Veyne discute esse tema e conclui que, sim, é claro que eles acreditavam. O ponto é: o que significa acreditar? Veyne responde fazendo uma comparação com um médico homeopata, que receita antibiótico quando a coisa aperta. Ou seja, a crença dos gregos não era ingênua. Podiam considerar a saga dos deuses como meras alegorias, mas também confiavam que tinham algo de verdade. Como a história de Hera, que veremos a seguir.

A TRANSFORMAÇÃO DA MULHER

Hera vivia sendo cobiçada por Zeus. O senhor do Olimpo quis levá-la para a cama, mas ela negou fogo. Zeus então se transformou num pássaro indefeso, que Hera envolveu para dar calor. Nesse momento, Zeus retomou sua forma original e a violou. Hera se casou com o irmão por pura vergonha. Ninguém precisa ser oráculo para adivinhar que a união não foi feliz. O casamento virou o protótipo da monogamia – para ela, claro, pois ele continuava insaciável. Tanto fez que sua doce mulher acumulou um ciúme patológico. Não bastasse ter ficado fora da divisão do Universo, Hera sofria com as escapulidas do marido. Virou uma mulher astuta e manipuladora, embora sempre se mantivesse fiel. Por isso se tornou deusa da família e do ciúme.

Com medo do raio do marido, Hera nunca o enfrentava diretamente. Preferia armar golpes e intrigas. Foi assim com o bebê Héracles (Hércules), filho de Zeus com Alcmena – esposa de Anfitrião, rei de Tebas. Hera mandou colocar serpentes no berço do bebê logo depois do parto. Mas o pequeno estrangulou as víboras. Não é à toa que se tornaria o mais célebre herói da mitologia clássica. Mas ciúme, mesmo, Hera sentia de Apolo – filho de Zeus com a amante Leto. Não bastasse a pinta de galã, o garoto manejava arco e flecha e ainda tocava uma lira de 7 cordas nos banquetes dos deuses. Para conquistar a ninfa Dríope, ele se transformou em tartaruga. A donzela colocou o animal sobre o peito e levou um susto ao vê-lo se transformar numa serpente, que a penetrou. Apolo se apaixonou até por um homem: Jacinto, cortejado também pelo poeta Tamiris. Para se livrar do poeta, Apolo disse às Musas que o concorrente se gabava de cantar melhor do que elas. Vingativas, elas lhe retiraram a voz, a visão e a memória para tocar harpa. Foi o fim de Tamiris. Mas o Vento do Oeste também se apaixonou por Jacinto e sentiu ciúme de Apolo. Num dia em que o deus ensinava o jovem a lançar um disco, o Vento do Oeste agarrou o objeto em pleno voo, lançou-o de volta contra o crânio de Jacinto e o matou. De seu sangue, então, nasceu a flor que leva seu nome.

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O LABIRINTO

A tragédia de Minos, filho de Zeus e Europa, começou quando sua esposa, Pasífae, sentiu uma queda por um touro. Ela pediu ao artista Dédalo que fizesse uma vaca de madeira. Escondida lá dentro, Pasífae teve um encontro carnal com o bicho e engendrou o Minotauro, um monstro com corpo de homem e cabeça de touro. Minos trancafiou a besta num labirinto. A cada 9 anos, os atenienses enviavam 7 rapazes e 7 moças ao Minotauro por terem matado Androgeu, filho de Minos. O príncipe Teseu se ofereceu como voluntário para lutar contra o bicho. O destino era certo: seria devorado pelo monstro. Mas Teseu conquistou a jovem Ariadne, a filha de Minos. E ganhou dela um novelo de lã. Teseu prendeu a ponta do novelo na entrada do labirinto. Alcançou a guarida do monstro, matou-o e seguiu o fio até a saída. “A vitória de Teseu, uma vitória do engenho e da civilização sobre um povo brutal e pouco sofisticado, reflete o desprezo que os gregos mostrariam depois por outras civilizações”, diz Susan Wise Bauer no livro Historia del Mundo Antiguo (sem tradução no Brasil).

A saga dos deuses gregos começa com o surgimento espontâneo de Gaia (a Mãe Terra) a partir do Caos. Da união entre Gaia e seu filho Urano (Céu) nasceram 3 ciclopes (gigantes com um só olho, no meio da testa), 3 hecatonquiros (gigantes de 100 braços e 50 cabeças) e 12 titãs, que governaram o mundo até serem derrotados pelos deuses do Olimpo. Como não suportava a feiura dos hecatonquiros e dos ciclopes, Urano os escondeu no Submundo, o Tártaro. Gaia se recusou a ter novos filhos e, cansada dos maus-tratos do esposo, pediu que os titãs o atacassem. O único que se prontificou foi o caçula, Cronos: com uma foice que Gaia lhe deu, cortou os testículos do pai e os jogou no mar. Assim, Cronos tornou-se o líder dos titãs e assumiu o lugar de Urano como deus supremo do mundo.


FILHOS QUE MATAM OS PAIS

Uma das situações recorrentes na mitologia mostra a vitória de filhos contra os pais, em geral com a ajuda das mães.

 

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O ROUBO DO FOGO

Prometeu foi até a fornalha do deus Hades e levou para a Terra uma chama escondida no talo de uma planta. Os humanos tiveram como aquecer suas casas, preparar comida e fugir da escuridão. Mas Zeus não gostou do roubo. Acorrentou o titã numa rocha, na fronteira da Terra com o Caos. Uma águia chegava com o sol e bicava pedaços de seu fígado até o entardecer. O órgão se regenerava à noite e a ave voltava no dia seguinte para continuar a tortura. (Os médicos de hoje sabem que o figado é capaz de se renegerar.) A agonia de Prometeu durou milhares de anos e só havia um jeito de ele sair dali: encontrar alguém para ficar em seu lugar. Por fim, o centauro Quíron se ofereceu para trocar de lugar com o titã. Zeus se comoveu e transformou o centauro em constelação. O herói Héracles (que em Roma virou o conhecido Hércules) se encarregou de matar a águia.

 

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HERA
A mulher e irmã de Zeus ficou de fora da divisão do mundo depois que os deuses venceram a guerra contra os titãs. Acabou como a deusa do casamento e do ciúme. A maior parte das histórias sobre Hera a mostra buscando vingança das rivais.

ZEUS
Ele era o senhor de todos os deuses. Seu poder vinha dos raios, fabricados para ele pelos ciclopes. Traía sua mulher e irmã, Hera, com deusas, ninfas e mortais. Era o rei dos disfarces e sua descendência marcou os grandes eventos na Terra.

AFRODITE
A filha de Urano nasceu da espuma do mar. Sua beleza perfeita serviu de fonte de inspiração para poetas e artistas. Ninguém resistia ao seu charme e ela se tornou uma das deusas mais poderosas do Olimpo. Era vaidosa e vingativa.

POSÊIDON
Os gregos viviam em ilhas ou perto da costa. Por isso Posêidon, o deus do mar, era um dos mais poderosos de seu panteão. Ele era capaz de criar tempestades e terremotos e ficou famoso por sua violência.

APOLO
Era um deus belo e controverso. Patrono dos arqueiros, costumava causar danos aos humanos, mas ao mesmo tempo era o deus da música e das artes. Tinha uma irmã gêmea, a deusa Artemis. Com o tempo, foi identificado com o Sol.

MITOS E OS CICLOS DA VIDA
A filosofia grega lida com a morte e o renascimento, como na história de Deméter e Perséfone.

DEMÉTER
Rainha das colheitas, teve sua filha Perséfone sequestrada pelo deus Hades. Deméter anunciou que retiraria a fertilidade da terra e só mudou de ideia quando teve a filha de volta, por 8 meses ao ano.

MINOTAURO
O Minotauro era filho da rainha de Creta, Pasífae, com um touro. Tinha cabeça de bicho e corpo de gente e viveu preso no labirinto criado pelo rei Minos, até ser morto pelo ateniense Teseu.

 

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