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E agora, Marcos Pontes?

O Brasil gastou US$10 milhões para mandar um astronauta ao espaço. Seráque valeu a pena?

Tiago Borges

Para uma boa parte dos garotos, Marcos Pontes deve estar entre os caras mais sortudos do planeta. Em março do ano passado, vestiu uma roupa de astronauta, entrou numa nave espacial e passou 8 dias no espaço. Comeu e dormiu na Estação Espacial Internacional, teve a chance de sentir o que é a ausência de gravidade e até de discordar do herói espacial Yuri Gagarin: “A Terra não é azul, ela é colorida”, afirma.

Mas os sonhos dos garotos acabariam na reentrada ao planeta. De volta à Terra, Pontes foi festejado na televisão e no Palácio do Planalto, mas também atacado por críticos que viam na decisão de pagar US$ 10 milhões pela viagem um desperdício. O tenente-coronel deu mais munição aos ataques ao passar para a reserva militar apenas dois meses após o retorno e começar uma carreira de consultor de empresas. Rumores de que ele se lançaria candidato nas eleições de 2006 (o que ele não fez) só aumentaram a polêmica. Hoje, Pontes trabalha como uma espécie de braço político da Agência Espacial Brasileira (AEB) na Nasa e defende entusiasticamente a participação do setor privado no programa espacial brasileiro. Concede palestras motivadoras, acredita no lucro, em Deus e no legado de Mahatma Ghandi.

O Brasil ainda pode se tornar uma potência espacial?

Pode. Mas apenas a médio e longo prazo, porque isso exige esforço pessoal de muita gente. É necessário o esforço de toda a nação, percebendo que o programa espacial é algo estratégico. Também é preciso trabalhar de modo competitivo: nunca conseguiremos competir com o restante do mundo se não pensarmos de modo competitivo.

Você acha que o governo e as entidades do setor tratam o programa espacial como algo estratégico?

Eu coloco a questão da seguinte maneira: aqui no Brasil, temos a mania de pensar tudo na última hora. As coisas no país são sempre resolvidas do dia para a noite. Mas um programa espacial precisa ser pensado a longo prazo. Tomar hoje as providências que darão retorno daqui a 10 anos. O que vejo muitas vezes são pessoas extremamente bem-intencionadas, mas que acabam esbarrando na burocracia, nas leis, nos problemas que acontecem no caminho. Também é necessário que tenhamos esse esforço vindo do governo, mas sem esquecer da participação da indústria, do setor privado.

Hoje você trabalha para o governo e o setor privado. Como é feita a divisão entre os seus compromissos com o programa espacial e as consultorias para a indústria?

Pelo fato de estar na reserva – e essa foi a intenção do comando da Aeronáutica quando em comum acordo decidimos que eu deixaria a ativa –, posso atuar com muito mais eficiência junto a políticos e empresas privadas. Continuo à disposição do governo brasileiro e do programa espacial. Mas tenho uma formação que não pode ser desperdiçada de modo algum. Tenho conhecimento na área espacial, aeronáutica e de segurança de vôo. E também sou uma pessoa que não pára, por natureza.

Que tipo de consultoria você presta para empresas privadas?

São duas ramificações bastante interessantes. Na área técnica, me concentro mais em segurança. Na área de gestão de riscos, uso minha experiência pessoal para tentar motivar pessoas. Junto ao governo, minha atuação está mais relacionada à parte técnica do setor aeroespacial.

Então atualmente você se tornou uma espécie de diplomata do Programa Espacial Brasileiro?

Quando voltei do espaço, pensei: “Dentro da ativa estou restrito a todo o regulamento. É igual a ter um avião de ataque do último tipo dentro de um hangar”. Então eles [o comando da Aeronáutica] disseram: “Você vai para a Nasa. Você conhece todos os programas. A gente sabe do seu amor pela pátria, pela Força Aérea e enquanto estiver lá você vai atuar para a gente”. É isso que estou fazendo atualmente.

Quais as dificuldades para fazer o lobby do Programa Espacial Brasileiro?

Ainda temos muita coisa para modificar aqui no país, em especial com relação à forma como o programa espacial é encarado pela população e pelas autoridades. Temos muito para fazer em relação a pesquisa e desenvolvimento. E nós também precisamos provar aos outros envolvidos que o Brasil é competente e sabe fazer as coisas. O trabalho é difícil, porque estamos no início.

Fazer a política do programa distancia você de uma volta ao espaço?

Eu continuo à disposição. Se o governo, de uma hora para outra, resolver que fará outra missão, digamos, lá por 2009… Mas o Brasil também precisa ter outros astronautas, então vou ter muito prazer em treiná-los.

Qual é a situação do Brasil em relação às nossas obrigações com o projeto da Estação Espacial Internacional?

A situação é crítica há muitos anos. O Brasil, como qualquer outro país envolvido no projeto, tem a obrigação de produzir algumas partes da estação para ser instaladas por americanos e russos [no caso, 15 placas para suporte ao vôo]. Em troca da fabricação dessas peças, ganham-se direitos como o vôo espacial, a redução no custo das peças e o intercâmbio de pesquisadores. O Brasil deveria entregar a primeira parte do trabalho em 2001, mas a peça foi cancelada em 2002. Depois disso, houve muita turbulência no acordo e a Nasa, junto com a indústria americana, teve de mudar o cronograma e produzir rápido essas peças, por conta própria. Em outubro, tínhamos uma reunião marcada para discutir o assunto, mas a Nasa cancelou o encontro e não há um prazo determinado para que ele aconteça.

Foi a quebra desse cronograma pelo Brasil que obrigou o governo a pagar os polêmicos US$ 10 milhões para que você fosse ao espaço?

A AEB, que é responsável por essas políticas, decidiu fazer a missão em 2006. Na minha opinião, foi bem-feito o investimento de US$ 10 milhões que a agência fez na missão, nos experimentos e na divulgação do programa espacial. Creio que a agência espacial fez um bom trabalho.

Sua viagem despertou críticas, como o uso político da missão em um ano eleitoral. Elas o incomodaram?

Fiquei chateado. Algumas pessoas tiveram acesso à mídia e falaram um monte de besteiras, mas provavelmente não teriam coragem de fazer uma coisa igual. Para ir ao espaço é preciso ser homem. Agora, esse uso eleitoral das coisas não me incomoda nem um pouco, mesmo porque esse não é meu campo de ação. Não é meu problema. Apenas cumpri uma missão.

Também se especulou sobre a possibilidade de você entrar na política. Essa é uma hipótese real?

Atualmente, não. Acho que posso contribuir mais para resolver os problemas do Brasil como uma pessoa normal, sem estar amarrado a um partido político ou a uma ideologia. Hoje não existe essa necessidade, não acho que seja o momento ou que eu tenha treinamento para isso. Mas, se algum dia isso for premente, e só dessa maneira for possível resolver alguns problemas que acho relevantes, pode até ser. Nunca se pode fechar portas. Mas é preciso ter objetivo.

Você trabalha na Nasa, em Houston. Como é seu cotidiano lá?

Nas segundas-feiras, temos uma reunião, pela manhã. Depois, o horário é muito flexível e depende da atividade que você está desenvolvendo. Meu dia passa em torno de reuniões e telefonemas. Fico no 6º andar, com astronautas não escalados para missões, e trabalho entre o 6º e o 4º andares, onde estão os escritórios da estação espacial. Normalmente, já vou à Nasa com um direcionamento da AEB. E, na parte de treinamento, não tenho tido nenhum tipo de atividade, porque não estou escalado para missões.

Desde a ida à Lua não ocorrem missões tripuladas a um corpo celeste. Há uma perspectiva de isso voltar a acontecer?

Missões do tipo não são descartadas. O programa Constelação, que pesquisa naves e foguetes para viagens tripuladas, está começando, e alguns falam em 2011 ou 2013 para início dos vôos. Fala-se também em 2019 para novos pousos na Lua, com uma tripulação de 4 pessoas, sendo que 3 pisariam lá. Isso tudo é parte de um programa extenso da Nasa, que prevê missões tripuladas para a estação espacial, a Lua e Marte.

Como era a rotina na estação espacial durante a missão?

Não há mudança entre dia e noite. Dormíamos 6 horas por dia e, ao acordar, tínhamos 30 minutos para nos preparar – ir ao banheiro, nos vestir. Logo após, re­ce­bía­mos instruções de Houston e de Moscou e passávamos às atividades. No meu caso, a manutenção da estação e os experimentos científicos. Atividades pessoais, como tirar fotos da nave ou do espaço, eram feitas no horário de dormir.

Algo surpreendeu você no espaço?

De uma forma geral não, porque nos preparamos muito para o que viria. Mas não há como evitar o encanto com o nascer do Sol, que ocorre a cada 45 minutos, quando podemos observar todas as nuances de cores da Terra.

Marcos Pontes

• É o único brasileiro que participou de uma missão espacial.

• Pontes tem 43 anos, mora em Houston, no Texas, com a esposa e dois filhos.

• Na decolagem do seu vôo, Pontes era o único astronauta com acesso ao controle para abortar a missão.

• Nas horas livres, pinta quadros, faz gravuras e escreve poesia.

• Na Estação Espacial Internacional, viu o Sol nascer e se pôr a cada 90 minutos.

Estudos espaciais

Além de ver a Terra de longe e dar entrevista ao vivo do espaço junto à bandeira do Brasil, Marcos Pontes ralou durante os 8 dias que ficou na Estação Espacial Internacional conduzindo 7 experimentos encomendados por cientistas brasileiros. Sua tarefa era realizá-los da forma como foi instruído no único dia de treinamento que recebeu para conduzir as pesquisas: o do seu aniversário, no mês de março.

Para os cientistas da Uerj, Pontes expôs algumas bactérias à radiação cósmica – o objetivo era verificar os efeitos sobre seu DNA. Já os pesquisadores da UFSC comprovaram que os dois sistemas para resfriamento de satélites, enviados por eles, funcionam perfeitamente e podem virar produtos comercializáveis. E, já que os US$ 10 milhões gastos na missão também previam o estímulo às futuras gerações de astronautas brasileiros, a Agência Espacial Brasileira achou sensato mandar junto com Pontes algumas sementes de feijão para germinar no espaço. Enquanto o astronauta via seus feijões brotar, algumas crianças faziam o mesmo aqui na Terra. As sementes brotaram de forma diferente, e ficou comprovado que as leis de Newton também funcionam nos feijões: enquanto as raízes das plantas das crianças no Brasil cresceram para baixo, respeitando a gravidade, as plantas do astronauta ramificaram desordenadamente. Hoje, todos os feijões convivem nas floreiras de um colégio em São José dos Campos.