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E se a 2ª Guerra Mundial não tivesse acontecido?

Sem a fundação da ONU e a invenção da bomba atômica para evitar a eclosão de um conflito entre potências, o mundo seria um lugar mais violento.

Por Fábio Marton - Atualizado em 16 out 2020, 16h02 - Publicado em 7 out 2020, 16h19
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ara que a 2ª Guerra não tivesse acontecido, bastaria uma traição. E nem seria a primeira: embora França e Reino Unido fossem aliados da Tchecoslováquia no papel, não reagiram quando Hitler começou a ocupação do país, em 1938. O estopim do conflito veio só em setembro de 1939, quando as duas potências fizeram valer sua aliança com a Polônia e declararam guerra à Alemanha – mas não à União Soviética, que fechou com o Führer para invadir seu quinhão de território polonês pelo outro lado.

Hitler não tinha muito interesse em avançar rumo ao Oeste: considerava os britânicos colegas arianos, possíveis aliados. E não faltavam fãs de Hitler entre os anglo-saxões: o parlamentar Edward Mosley, na Inglaterra, criou a União Nacional dos Fascistas, e o herói nacional Charles Lindenberg, nos EUA, usou sua fama como primeiro aviador a cruzar o Atlântico para defender pautas de extrema direita.

Ficaríamos, então, com uma guerra entre alemães e soviéticos em 1941, quando Hitler rasgou o acordo Molotov-Ribbentrop, de 1939, que permitiu a divisão da Polônia. Quem venceria? Na vida real, a URSS aniquilou a Alemanha pelo front leste e foi a principal responsável pela vitória aliada.

A questão é que os soviéticos não teriam conseguido sozinhos. Eles tiveram acesso a material bélico americano e britânico, e os nazistas perderam força quando foram obrigados a lutar em frentes múltiplas após a invasão da Itália, em 1943, e o Dia D, em 1944. Além disso, os japoneses deixaram os alemães em desvantagem sem querer quando dedicaram todas as suas atenções ao conflito contra os EUA no Pacífico em vez de invadir a URSS pela Sibéria.

O ataque a Pearl Harbor é considerado pela maioria dos historiadores um erro estratégico crasso – ao contrário do que os líderes japoneses cogitaram, os EUA não pretendiam atacar o Japão. A opinião pública americana se opunha à guerra, e se oporia ainda mais caso França e Reino Unido tivessem permanecido neutros.

Outro erro estratégico foi a Alemanha apoiar o Japão contra os EUA. Ela não era obrigada a fazê-lo, porque sua aliança com o Japão era defensiva – se os japoneses começassem a briga, era problema deles. Assim, a guerra no Pacífico poderia ter se limitado a Japão vs. China e URSS.

Vamos supor, então, que esse conflito terminasse com a Alemanha dominando o Leste Europeu, e o Japão no comando de um amplo império na costa leste da Ásia (mas sem tomar colônias britânicas, francesas, americanas e holandesas, como fez na vida real). A URSS sobreviveria – pequena e abalada, mas de pé.

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As histórias de Franco e Salazar na Espanha e em Portugal demonstram que regimes fascistas costumam se dissolver com a morte do líder ou pouco depois. Hitler faria 80 anos em 1969 e Mussolini, em 1963, e essas seriam as prováveis datas de validade de seus regimes. O Japão seria um caso mais complicado: não era um regime personalista, mas um parlamentarismo dominado por militares. Mas poderia abandonar esse regime na década de 1970, seguindo uma tendência internacional.

Nesse mundo sem a 2ª Guerra, França e Reino Unido teriam mantido suas colônias na África e Ásia por mais tempo. Os EUA chegariam aos anos 1970 menos influentes, sem o boom econômico impulsionado pela reconstrução da Europa. Com a Alemanha e o Japão disputando terreno geopolítico de igual para igual, a América Latina provavelmente teria ficado sob a esfera de influência fascista em vez de sucumbir às ditaduras implantadas com auxílio americano.

O mundo também seria mais violento. Sem o trauma de uma guerra em larga escala entre potências, a ONU não existiria. E, sem a ONU, um país poderia atacar outro sem autorização dos demais países. Além disso, se a Alemanha não tivesse incentivo diplomático para tocar seu programa incipiente de armas nucleares – os EUA, de fora da guerra, também não teriam investido em armas de destruição em massa –, não haveria a ameaça de aniquilação mútua para desestimular conflitos (como ocorreu na Guerra Fria de verdade).

O mundo veria TV antes: a tecnologia estava pronta a ser lançada, mas a guerra atrasou sua adoção. Outras tecnologias demorariam para chegar. O avião a jato é filhote da corrida armamentista. Computadores avançaram rápido na Inglaterra e EUA para quebrar a criptografia alemã e fazer os cálculos para a construção da bomba atômica no Projeto Manhattan. Os foguetes V2 alemães, cujo projeto foi adotado pelos americanos e soviéticos, foram o trampolim tecnológico para a corrida espacial e a colocação dos primeiros satélites artificiais na órbita da Terra, gerando uma revolução nas telecomunicações.

Ausente do mundo: Israel. Sem a independência das colônias europeias, o Oriente Médio permaneceria um protetorado europeu. Ao resto do mundo, os nazistas negariam o Holocausto como os turcos fazem hoje com o genocídio dos armênios. Com a derrota nazista, veio a mobilização internacional contra a pseudociência da eugenia, que não era exclusividade alemã. Os EUA mantiveram um amplo programa de higienização genética no começo do século 20 – que, somado à ausência de heróis de guerra negros, teria atrasado ou impedido o movimento pelos direitos civis.

O Brasil não estaria muito melhor. O discurso de negação do racismo, acompanhado da ideia eugenista de branqueamento da população, vigoraria por décadas. Muitos historiadores apontam que a contradição de ser um ditador lutando a guerra do lado aliado ajudou a derrubar Vargas. Sem esse impasse, ele passaria mais tempo no poder.

Manteria o Brasil independente, fazendo um malabarismo de relações cordiais com Alemanha, Itália, Japão e EUA, como antes do conflito. Da Ditadura Militar, provavelmente estaríamos livres: uma redemocratização consensual pós-Vargas, como aconteceu na Espanha e Portugal, nos poria em trilhos mais felizes. Com a URSS enfraquecida, não haveria ameaça comunista para justificar a implantação de ditaduras de direita na América Latina.

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