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E se o 11 de Setembro não tivesse acontecido?

Sem o ataque às Torres Gêmeas, não haveria clima para a eleição do Trump em 2016. E sem a ascenção da direita americana, talvez o Bolsonaro não fosse presidente do Brasil.

Por Fábio Marton 10 set 2021, 16h05

Logo após o atentado, o comentarista político George Will deixou registrado no The Wall Street Journal: “A história voltou de férias”. Era uma referência a O Fim da História e o Último Homem, best-seller do sociólogo americano Francis Fukuyama. Que basicamente dizia: com o fim do comunismo na Europa, a história com H maiúsculo tinha acabado. A democracia liberal vencera, para sempre. E não haveria mais grandes disputas ideológicas, filosóficas ou religiosas. Na breve paz entre o fim da União Soviética, no Natal de 1991, e o 11 de Setembro, falar nesse fim da história não soava risível.

Definitivamente, a catástrofe que levou 2.997 vidas marcou uma nova era geopolítica. Uma era em que agentes não estatais – começando pela Al-Qaeda de Bin Laden – se tornaram inimigos mais importantes do que Estados com exércitos regulares. Começava a era da Guerra ao Terror. A era do terror.

Daria para o 11 de Setembro não ter acontecido. Bastaria que a conspiração fosse debelada a tempo – e a CIA sabia, segundo o levantado nas investigações do Senado americano, que os terroristas estavam no país, mas não agiu nem compartilhou a informação com outras autoridades. Caso o ataque tivesse sido frustrado, e não houvesse a mobilização e o investimento necessários para realizar outro de igual magnitude, o mundo seria bem diferente deste aqui onde você está sentado agora. O ataque gerou uma onda de fúria nos EUA, comparável só a Pearl Harbor em 1941. E George W. Bush agiu rápido: invadiu o Afeganistão, que dava guarida à Al-Qaeda. Antes que 2001 chegasse ao fim, já tinha deposto o governo Talibã. Se havia alguma reação possível naquele momento, era essa.

Bush quase certamente deve a isso sua reeleição em 2004. Era visto até então como uma figura simplória, completamente despreparada para o cargo. O termo “bushismo” indicava alguma coisa estúpida dita pelo presidente. Antes do atentado, tinha por volta de 50% de popularidade, com viés de baixa. Logo a seguir, sua aprovação foi a 85%.

Sem o 11 de Setembro, assim, teríamos o democrata John Kerry eleito em 2004. Kerry vinha de uma carreira como veterano do Vietnã, e se tornou pacifista. Militava também por medidas contra o aquecimento global. Faria, provavelmente, um mandato parecido com o do democrata Bill Clinton, entre 1993 e 2001, no qual o maior evento foi um escândalo sexual com a estagiária.

No lugar de Obama em 2008, teríamos ou Kerry 2, ou – por conta da crise econômica de 2008, que não tem nenhuma ligação com guerras ou com o 11 de Setembro – um republicano também moderado, eleito com promessas econômicas. Certamente não Donald Trump.

Porque o clima cultural que elegeu Trump não existiria. A Guerra ao Terror cambiou todo o debate para a direita e extrema-direita. Fez com que figuras moderadas fossem acusadas de ser complacentes com o inimigo. Foi um clima cultural defensivo e conservador.

 

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O próprio ataque incentivou uma novidade: a da propagação em massa de teorias da conspiração pela internet. Uma ideia de guerra cultural foi ganhando espaço. O movimento Tea Party, um republicanismo radicalizado, não teria surgido. Sem a alt-right americana, é difícil imaginar a ascensão, no Brasil, de uma figura como Jair Bolsonaro. Sua campanha reproduziu quase integralmente o método que tinha dado certo para Donald Trump em 2016: incutir, com muita teoria conspiratória, a ideia de que o modo de vida conservador e cristão estava ameaçado por um progressismo caótico, desvirtuado.

Sem essa fórmula, a candidatura talvez não ganhasse força, e as eleições de 2018 provavelmente seriam o clássico PT x PSDB das últimas duas décadas. Se aqui pelo Ocidente seguiria o clima de “fim da história”, do outro lado do mundo, a história estaria voando na pista.

O Talibã se manteria no poder. Mas não isolado. Em 2001, o Talibã era reconhecido por Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Ainda contava com a simpatia do vizinho Turcomenistão e um princípio de aproximação com a China. Desses, o Paquistão seria a aliança mais fundamental. Era então uma ditadura comandada por Pervez Musharraf, um general decisivamente secular, mas pragmático nas relações com fundamentalistas. Detalhe: o Paquistão é uma potência nuclear.

E uma potência com propensão a vazamentos (ao menos até 2001). Dois físicos nucleares paquistaneses colaboraram com o regime afegão e com terroristas por eles protegidos. Sultan Bashiruddin Mahmood e Chaudhry Abdul Majeed eram fundadores de um grupo radical islâmico, o Ummah Tameer-e-Nau (UTN). E conduziram encontros com o Talibã e a Al-Qaeda para discutir armamentos nucleares.

O encontro foi revelado por documentos encontrados em outubro de 2001, na ocupação de Cabul pelos EUA. O UTN foi declarado como grupo terrorista e a dupla de físicos acabou presa pelo governo paquistanês, que havia dado um giro de 180 graus em suas relações com o Talibã após o 11 de Setembro, se aliando completamente a Washington. Foi divulgado que eles não saberiam como fazer uma bomba. Mas o fato é que a troca de informação havia apenas começado, e não pararia sem o 11 de Setembro.

A oeste de Paquistão e Afeganistão, um outro jogador seguiria intacto: Saddam Hussein. Ainda que a Guerra do Iraque tenha acontecido sob a justificativa de que ele estava produzindo armas de destruição em massa, ela só aconteceu no clima cultural pós-11 de Setembro. Sem isso, Saddam continuaria ditador.

Saddam não tinha armas de destruição em massa, sabe-se hoje. Mas certamente queria ter. Assim como outro inimigo dos EUA: o Irã, que então caminhava para normalizar suas relações com o Paquistão, mas se afastou após Musharraf apoiar incondicionalmente os EUA.

Sem o 11 de Setembro, a tecnologia atômica do Paquistão teria condições de migrar para o Irã, para o Iraque, e em algum momento para o Talibã – sim, o Afeganistão parece pobre demais para abrigar bombas atômicas, mas a Coreia do Norte também é miserável e abriga.Quando um país está nuclearizado, não importa o regime, é game over: se torna praticamente imune à intervenção.

Aí, se acontecesse um 11 de Setembro mais para a frente e o Talibã abrigasse os autores, não daria para invadir. Mas o perigo maior seria outro: essa farra atômica fazer com que armas nucleares acabassem nas mãos de terroristas mais apocalípticos e mais globais que o Talibã, que se contenta em dominar o Afeganistão. Diferentemente de qualquer país, um grupo assim não hesitaria em usá-las.

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