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Em nome da tradição

Uma das personalidades mais respeitadas na comunidade judaica brasileira, Michel Schlesinger tem uma visão conservadora da cabala: para ele, trata-se apenas de uma das possíveis leituras do judaísmo. Para entendê-la, diz, é fundamental conhecer as bases da religião judaica. "Quem estuda cabala sem conhecer o bê-á-bá do judaísmo corre o risco de perder o principal", diz o rabino.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h36 - Publicado em 19 mar 2011, 22h00

Entrevista Marisa Adán Gil

Ele tinha 17 anos quando começou a dar aulas de bar mitzvah. Durante algum tempo, chegou a pensar em ser ator, mas acabou fazendo vestibular para a Faculdade de Direito da USP. Já no 3º ano, o então estudante Michel Schlesinger decidiu que o seu destino era mesmo o rabinato. Em 2001, mudou-se para Jerusalém, onde frequentou o Seminário Rabínico Schechter, com o apoio da Congregação Israelista Paulista, uma das mais influentes associações judaicas do país. Após completar o curso de 4 anos, retornou ao Brasil e passou a integrar o rabinato da congregação – no início, como assistente de Henry Sobel. Hoje, aos 30 anos, é um dos nomes mais prestigiados da congregação paulista e um dos maiores estudiosos da tradição judaica no país.

É essa tradição que ele defende ao definir a cabala como apenas “uma leitura a mais” da religião judaica. “Não há como dissociar a cabala do judaísmo”, diz ele. “As duas coisas estão totalmente ligadas. A cabala é uma interpretação mística, alegórica do judaísmo, que ajuda a enriquecer os estudos. Para entendê-la, é necessário estudar primeiro os fundamentos teóricos da religião judaica. Quem acha que pode se transformar num cabalista da noite para o dia, sem nenhum preparo, não sabe o que está fazendo”, diz. Nesta entrevista, Michel Schlesinger fala sobre religião, autoajuda e loucura.


O que acha da crescente popularização da cabala?

Acredito que esse movimento de popularização é reflexo desta época de internet, Facebook, Twitter. Vivemos um momento em que as pessoas compartilham conhecimentos com o mundo inteiro na velocidade do apertar de um botão. Mas existe um perigo nisso. Por exemplo, se eu entrar na internet e escrever “holocausto”, vou encontrar dezenas de sites sobre o tema: alguns sérios, com muita informação, e outros escritos por neonazistas que querem confundir as pessoas. A mesma coisa acontece com a cabala. A dificuldade é separar o joio do trigo. Quem está interessado em estudar a cabala deve tomar muito cuidado. Quando uma coisa está na moda, faz sucesso e movimenta dinheiro, sempre existe muito charlatanismo envolvido.


Como a comunidade judaica vê os ensinamentos da cabala?

Dentro da comunidade judaica, a cabala é vista como uma leitura a mais, que ajuda a enriquecer os estudos do judaísmo. Temos várias interpretações possíveis dessa tradição, e a cabala é apenas uma delas. Trata-se de uma interpretação mística, que trabalha com símbolos, mitos e esquemas numéricos para tentar entender Deus e a espiritualidade. Entre os grupos judaicos, alguns estão mais próximos dessa visão mística, outros mais distantes. Os judeus de origem lituana, por exemplo, estão entre os mais racionais: para eles, o que importa é seguir as regras determinadas por Deus. Já os judeus de países como Polônia e Rússia são mais místicos. Na prática da comunidade judaica no Brasil, a cabala está presente muito mais como um objeto de estudo do que como objeto vivencial. Os judeus se interessam por ela sob um ponto de vista intelectual. Querem conhecê-la, mas não pautam seu modo vida por ela. Algumas sinagogas oferecem espaço para discussões sobre a cabala. Mas não é um espaço para a vivência mística – o misticismo entra como uma visão a ser conhecida e avaliada.

Os defensores da cabala pop, como o rabino Yehuda Berg, costumam separar essa sabedoria da tradição judaica, dizendo que seus ensinamentos não têm nada a ver com religião.
A cabala está absolutamente ligada ao judaísmo. Tanto que, para você conseguir entender seus ensinamentos com alguma profundidade, precisa antes conhecer as bases teóricas da religião judaica. Considero um salto até um pouco perigoso tentar estudar cabala diretamente, porque ela trabalha com metáforas e simbologias baseadas na tradição religiosa. Aqueles sábios que desenvolveram a cabala cresceram no meio judaico e conheciam profundamente essa literatura. Se você começa a pesquisar sobre cabala sem antes conhecer o bê-á-bá do judaísmo, corre o risco de perder o principal.

Existem regras ou princípios para quem quer seguir a cabala?
A cabala é uma maneira de interpretar uma tradição religiosa. Ela conta com instrumentos que possibilitam uma leitura própria, como a numerologia judaica, que atribui valores numéricos às letras do alfabeto hebraico. Você abre a Torá e começa a fazer jogos com os números, e isso lhe traz possibilidades interpretativas diferentes. Mas não dá para falar em princípios da cabala. Ela é um meio, não um fim. Durante esse processo de comercialização pelo qual ela está passando, a tendência é criar manuais. Mas tudo isso é bastante simplista e bastante perigoso.

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O mercado está cheio de livros que prometem explicar os ensinamentos da cabala para o leitor leigo.
É possível entrar em contato com a cabala de várias maneiras. Pode ser que você tenha um interesse intelectual no assunto. Então, se quiser saber o que outras pessoas pensam sobre a cabala, tudo bem, pode ler o livro do rabino Berg, ou de qualquer outro estudioso, e conhecer o ponto de vista dele. E pode ser que essa leitura seja interessante, enriqueça a sua vida. Agora, se você quer ter um contato direto com as fontes, estudar o Zohar, O Livro do Esplendor, você não pode chegar a isso despreparado, sem conhecer a base.

Há também livros que prometem experiências místicas para pessoas que nunca tiveram contato com o judaísmo. Dizem, por exemplo, que o simples ato de passar a mão sobre as letras do alfabeto hebraico teria o poder de curar doenças.
Acredito que essa é uma maneira superficial de entrar em contato com uma tradição profunda. Quer dizer, por trás dessa ideia de “passar a mão sobre as letras” existem anos de estudo, discussão e aprofundamento. É uma pena que a pessoa leia o livro, dê uma espiada nas imagens e ache que tudo termina ali. Na verdade, tudo começa ali. É uma simplificação exacerbada. Quando você quer, em 5 minutos de leitura, entender séculos e séculos de tradição, obviamente acaba perdendo mais do que ganhando.

Solução rápida dos problemas, sem qualquer aprofundamento: estamos no terreno da autoajuda, certo?
Essa é a minha dificuldade com esse tipo de abordagem. Deixa eu dar um exemplo. Todos os judeus têm, na porta de suas casas, a mezuzá, uma caixinha onde fica um pergaminho com uma oração. É uma tradição judaica. Volta e meia sou abordado por não judeus que me perguntam: “Posso colocar uma caixinha igual na minha porta?” E eu respondo: “Pode, claro que pode”. Quem sou eu para proibir? Mas isso não vai ter o mesmo significado que tem para uma pessoa que é praticante do judaísmo. Aquela pessoa que me abordou pode até ficar feliz de ter a caixinha na porta, mas não é a mesma coisa.

O que diria para alguém que gostaria de se iniciar no universo da cabala, mas não sabe por onde começar?
Eu sugeriria que essa pessoa procurasse algum centro de estudos judaicos em sua cidade, para pedir indicações de cursos e leituras sérias. Em São Paulo, existe o Centro de Cultura Judaica, que funciona como uma interface entre judaísmo e não judeus. Lá são oferecidos cursos de cabala, por exemplo.

Alguns cabalistas dizem que o misticismo está em alta porque as pessoas estão carentes, precisando de respostas. Acredita nisso?
Não acho que seja uma coisa do nosso tempo. Acredito que a curiosidade pela mística, pela magia, sempre existiu. Qual foi a época da existência humana em que as pessoas não buscaram respostas? Isso está ligado à fragilidade do ser humano e à necessidade de se conectar a algo maior. O que mudou foi o acesso à informação. Hoje o conhecimento está mais acessível. Só isso.

Você acha que o misticismo pode estar tomando o lugar que um dia foi das religiões? Existe esse movimento?
Eu acho que a dissociação do misticismo da religião é um erro. Para mim, essas duas coisas se complementam, se enriquecem, não se contradizem. As pessoas que se interessam pelo mundo místico também estão se aproximando da religião, buscando um canal religioso místico. O misticismo e a religião caminham juntos. No judaísmo, pelo menos, é a mesma coisa. O objetivo é o mesmo, se conectar com algo superior, receber respostas existenciais, colocar um pouco de ordem no caos.

Uma das lendas que cercam a cabala é de que os seus ensinamentos são tão poderosos que poderiam levar uma pessoa à loucura.
Conheço essa lenda e a acho muito interessante. Para mim, é uma ideia metafórica. Quer dizer, quando você se aprofunda em um tema místico, tem que estar pronto para isso, emocionalmente preparado. Essa é a loucura: quando você abre uma porta, tem que estar disposto a tudo, a entrar em contato com coisas de que vai gostar e outras não. É um risco, você pode perder o controle. Também dá para interpretar de outro jeito. O acesso à informação que existe hoje é tão perigoso que pode gerar um outro tipo de loucura, esse de achar que pode ser especialista em um assunto específico simplemente porque pegou um determinado livro e leu. Quem estuda cabala sem nenhum tipo de preparo, sem nenhum tipo de base, e acha que se transformou num cabalista do dia para a noite enlouqueceu.

“É uma loucura você acreditar que pode estudar a cabala sem nenhum tipo de preparo e daí se tornar um especialista do dia para a noite.” Michel Schlesinger

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