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Hominídeo “hobbit” comia carne deixada por dragões-de-komodo

Novo estudo mostra que os pequenos hominídeos "hobbits" talvez não caçassem e nem dominassem o fogo como se acreditava anteriormente

Por Ana Clara Caielli Barreiro 8 jul 2026, 10h00 | Atualizado em 9 jul 2026, 11h44
Hominídeo “hobbit” comia carne deixada por dragões-de-komodo Priorizar nos meus resultados Google

Um novo estudo, publicado em 3 de julho na revista científica Science Advances, acaba de levantar uma nova hipótese sobre o estilo de vida dos Homo floresiensis: eles se alimentavam dos restos deixados pelos dragões-de-komodo.

Os Homo floresiensis foram hominídeos que habitaram a Terra há milhares de anos. O período exato entre seu surgimento e sua extinção ainda é discutido, já que alguns fósseis foram datados em cerca de 700 mil anos, enquanto outros têm aproximadamente 50 mil anos. 

Seu porte físico particularmente pequeno, com cerca de um metro de altura, rendeu o apelido carinhoso de “hobbit”, em referência às criaturas da saga O Senhor dos Anéis. No passado, ossos de elefantes, restos de animais carbonizados e ferramenta levaram os arqueólogos a acreditar que o H. floresiensis era capaz de caçar grandes animais e usar o fogo. A teoria parecia improvável diante do cérebro pequeno deles, do tamanho de uma laranja. 

A nova pesquisa sugere que os ossos de elefantes encontrados em sítios de H. floresiensis 

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anteriormente não foram caçados pelos próprios hominídeos, e sim por  dragões-de-komodo – répteis venenosos que podem atingir até três metros de comprimento e também habitavam a ilha de Flores, o único local em que vestígios dos “hobbits” já foram encontrados. 

Os dragões-de-komodo caçavam animais de grande porte, como elefantes (não os que conhecemos hoje, mas o Stegodon florensis insularis, uma espécie de elefante-anão com cerca de 1,5 metro de altura) e deixavam para trás restos como ossos, pele e alguns órgãos. Essa carniça, por sua vez, virava a janta dos “hobbits”.

Interior de uma caverna ampla e escura, com teto e paredes rochosas irregulares, cheias de estalactites. No fundo, um grupo de arqueólogos trabalha em escavações, com a luz do dia e vegetação exuberante visíveis na entrada da caverna
(Rosino/Wikimedia Commons)
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Isso muda a forma como enxergávamos o nível de desenvolvimento desses hominídeos. Para testar essa hipótese, a pesquisa analisou mais de 3 mil fragmentos de ossos de Liang Bua, datados de aproximadamente 190 mil a 50 mil anos atrás. Os pesquisadores perceberam que as marcas presentes nos ossos dos elefantes pré-históricos não se pareciam com cortes feitos por ferramentas humanas, tampouco apresentavam perfurações típicas de lanças de pedra.

Evolução dos humanos acelerou nos últimos 10 mil anos

Para confirmar, os cientistas realizaram um experimento no Zoológico de Atlanta, nos Estados Unidos. Eles ofereceram uma cabra ao dragão-de-komodo Rinca e, depois, analisaram em imagens tridimensionais as marcas deixadas em seus ossos. O resultado foi surpreendente: as mordidas eram muito semelhantes às dos fósseis dos antigos elefantes.

De fato, alguns cortes presentes nos fósseis parecem ter sido feitos por ferramentas humanas. Mas eles eram minoria. A maior parte das marcas era compatível com mordidas de dragões-de-komodo e aparecia justamente nas regiões mais carnudas do corpo, como ombros e quadris, que costumam ser consumidas primeiro pelos predadores. Já os cortes atribuídos a ferramentas estavam concentrados em partes com menos carne, como as costelas.

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Nesta ilustração, os pesquisadores mapearam o esqueleto do elefante e indicaram os ossos com mais marcas de corte (em azul) e de dentes (em vermelho):

Esqueleto de Stegodon com ossos coloridos indicando marcas de corte e dente. A legenda mostra que azul representa marcas de corte e vermelho, marcas de dente, com gradientes de intensidade. Uma caixa de fragmentos exibe ossos longos, vértebras e indeterminados
(E. Grace Veatch et al. via Science Advances/Divulgação)
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Já em relação aos ossos queimados, as análises químicas mostraram que, dos 3.155 fragmentos examinados, apenas um apresentava sinais de carbonização. Tratava-se de uma costela do Stegodon. No entanto, esse osso estava próximo da camada geológica associada aos Homo sapiens e justaposto a vestígios mais recentes. Confira:

Quatro imagens ilustram achados arqueológicos. A mostra um fragmento de osso curvo, esbranquiçado e com manchas escuras, com uma régua de 1 cm. B e C são fotos aéreas de uma escavação retangular no solo, com terra marrom e alguns objetos marcados com setas e etiquetas. D é um mapa da escavação, com pontos pretos, roxos e azuis representando carvão, estegodonte e artefatos de pedra, respectivamente, e uma legenda explicativa
(E. Grace Veatch et al. via Science Advances/Divulgação)
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Por isso, os pesquisadores acreditam que o fragmento acabou ficando exposto na superfície da caverna durante a ocupação pelos Homo sapiens, que então o queimaram. Ou seja: os “hobbits” provavelmente não dominavam o uso do fogo.

Eles tinham habilidades menos sofisticadas do que imaginávamos, mas encontraram uma forma eficiente de sobreviver em uma ilha repleta de animais gigantes competindo por alimento. 

Estudos anteriores sugeriam que os Homo floresiensis descendiam dos Homo erectus, nossos parentes evolutivos que já dominavam o fogo. A nova hipótese, porém, aponta para outra linhagem ancestral, formada por hominídeos que ainda não possuíam essa habilidade.

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