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Lawrence da Arábia

O intelectual que batalhou junto aos árabes, derrotou impérios e passou o resto da vida no anonimato até hoje inspira os guerrilheiros do Oriente Médio.

Francisco Botelho

Em uma época de tantas guerras no Oriente Médio, é impressionante que o nome de Thomas Edward Lawrence – ou seu apelido, Lawrence da Arábia – não seja citado em todo lugar. Lawrence conheceu os árabes como poucos europeus e, com eles, derrotou grandes potências, com estratégias semelhantes às que os iraquianos usam hoje contra os Estados Unidos. Em menos de seis anos, passou de simples historiador a personagem épico e, então, escondeu-se para o resto da vida. Lawrence nasceu em 1888 em Tremadoc, País de Gales. Sua mãe, irlandesa, havia trabalhado como governanta na casa do primeiro casamento de seu pai, que fugiu da família e de seu país para viver com ela.

Lawrence diplomou-se em história e, aos 23 anos, foi trabalhar em expedições arqueológicas no Oriente Médio. Entre uma escavação e outra, aproveitava para viajar e aprender árabe. Participou da elaboração de mapas da região que tiveram importância estratégica para o exército britânico e que o levaram, com o início da Primeira Guerra Mundial, ao Serviço Britânico de Inteligência. A partir de 1916, recebeu a missão de auxiliar o emir Faiçal, que liderava uma revolta árabe contra os turco-otomanos, aliados da Alemanha.

Os árabes estavam divididos por lutas internas havia séculos e parecia impossível organizá-los sob a mesma liderança. Lawrence, movido por sua ambição, acreditava ser capaz de uni-los num estado independente. A princípio, agiu apenas como conselheiro militar, mas seu conhecimento da língua e da cultura locais logo conquistaram a admiração e a confiança dos beduínos. Naturalmente receosos em relação aos europeus, eles o consideraram um árabe como eles – e não demorou para que o aceitassem entre seus líderes.

A revolta dos árabes parecia condenada ao fracasso – dispersos e mal armados, os rebeldes não eram páreo para a pesada artilharia turca. Mas Lawrence os conduziu em uma série de vitórias e, atacando rapidamente e se escondendo em seguida, conseguiu enfraquecer e interromper o movimento do exército turco. Sua estratégia de ganhar o apoio da população e atacar somente nos momentos em que estava mais forte, fez dele um dos primeiros especialistas na tática de guerrilhas. “Uma província é ganha quando ensinamos os civis a morrer pelo nosso ideal de liberdade. A presença do inimigo é secundária”, disse ele depois. Em 1917, Lawrence foi capturado pelos turcos, que o reconheceram, torturaram e estupraram.

Conseguiu escapar, mas não ileso: a violência o abalou psicologicamente pelo resto de sua vida. Mesmo assim, no mês seguinte, com uma série de vitórias dos árabes, Lawrence participava da marcha triunfal em Jerusalém. Dez meses depois, a campanha chegava ao seu auge com a tomada de Damasco e a coroação do emir Faiçal como rei da Síria.

Quando a guerra acabou, Lawrence era uma celebridade mundial. Sua vitória, contudo, teve um gosto amargo. Em 1921, Faiçal foi expulso da Síria pelos franceses e, com a intermediação de Lawrence, tornou-se rei do Iraque, então sob domínio da Inglaterra. No entanto, o historiador aventureiro não escondia sua decepção. França e Inglaterra repartiram o Oriente Médio entre elas e Lawrence descobriu que seu triunfo não servira para libertar os árabes, mas para submetê-los a um novo senhor. Além disso, a exaustão e a carnificina haviam destroçado seu espírito altivo. À beira da insanidade, ele passou seus últimos anos escrevendo livros, amaldiçoando a própria fama e tentando a todo custo ser esquecido. Mudou de nome, voltou ao exército como simples soldado raso e teve uma morte estranhamente banal, em um acidente de motocicleta. Ficou imortalizado em suas obras literárias e em um grande clássico do cinema, Lawrence da Arábia, de David Lean.