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Mulheres também caçavam na América pré-histórica, sugere estudo

Descoberta de esqueleto de uma caçadora com 9 mil anos revelou que a forma como pensamos os hábitos dos americanos pré-históricos é influenciada por papéis de gênero modernos, segundo uma nova pesquisa.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 10 nov 2020, 19h12 - Publicado em 10 nov 2020, 18h55

Há milhares de anos, a vida era difícil para os primeiros humanos das Américas. Para sobreviver, as mulheres coletavam frutas e vegetais, enquanto os homens se arriscavam na caça de animais selvagens, usando apenas utensílios rústicos feitos de pedra. Pelo menos é isso que a maior parte dos historiadores e cientistas pensava até agora.

Os restos mortais de uma mulher que viveu há 9 mil anos no que hoje é o Peru, porém, colocam essa ideia em xeque. A moça foi enterrada na região dos Andes junto com vários equipamentos de caça, como pontas de lanças feitas de pedra – um ritual funerário típico de caçadores. A descoberta aparentemente atípica levou os pesquisadores responsáveis a mergulharem na literatura científica para procurar casos semelhantes na arqueologia, e a conclusão da equipe é que mulheres caçadoras eram tão comuns na América pré-histórica quanto homens.

No estudo publicado na revista Science Advances, a equipe de pesquisadores americanos descreve o achado de duas covas próximas ao Lago Titicaca em 2018, cada uma contendo restos mortais de um indivíduo. O primeiro era um homem adulto, entre 25 e 30 anos, que foi enterrado com alguns artefatos de caça. A segunda cova também possuía diversos equipamentos de caça, o que levou os pesquisadores e assumir que também pertencia a um homem. Mas observações preliminares dos ossos indicavam características femininas, o que logo chamou atenção.

Através de análises de proteínas nos dentes encontrados, os cientistas confirmaram que se tratava de uma mulher jovem, entre 17 e 19 anos. A datação por carbono, por sua vez, revelou que ela viveu há cerca de 9 mil anos. Junto com ela, havia 24 ferramentas de pedra, como pontas de lança e facas de cortar carne. Como os costumes funerários da época eram baseados em enterrar as pessoas junto com os objetos mais usados por elas em vida, a mulher era quase certamente uma caçadora de animais selvagens. Próximo ao local das covas, também foram encontrados restos de cervídeos que mostravam sinais de terem sido cortados por ferramentas, reforçando essa teoria.

Parecia ser uma descoberta atípica – a ideia dominante na antropologia era de que homens ocupavam essa posição nas tribos pré-históricas americanas, enquanto mulheres eram encarregadas de recolher frutas e outros alimentos da natureza, além de cozinhar a comida e cuidar das crianças. Mas a equipe decidiu investigar a literatura científica para verificar se de fato o achado era tão peculiar.

Eles encontraram diversos relatos de situações em que restos de humanos foram encontrados enterrados junto com objetos de caça, e que posteriormente foram identificados como mulheres. De fato, de 429 indivíduos encontrados enterrados há pelo menos 8 mil anos nas Américas (do Alaska até a Argentina), 27 tinham equipamentos de caça consigo. Desses, 15 foram confirmados como homens, e 11 eram mulheres.

Os dados, segundo a equipe, mostram que a presença delas na caça não era algo incomum, e sim significativo – pelo menos 30% dos caçadores eram mulheres, estimam, chegando até a possibilidade da divisão ser 50/50. Obviamente, os números variam, já que o continente abrigava diversos povos totalmente diferentes entre si.

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Curiosamente, nos estudos anteriores em que mulheres haviam sido encontradas enterradas com utensílios de caça, o próprio sexo da caçadora era usado como prova para questionar a conclusão da pesquisa, às vezes até pelos próprios pesquisadores responsáveis. Muitas vezes, tais ferramentas acabavam sendo consideradas utensílios de cozinha para cortar e preparar as refeições, e não armas de caça.

A descoberta mostra como papéis de gênero de hoje influenciam o modo como compreendemos as sociedades pré-históricas, argumentam os pesquisadores. Isso porque tribos nas Américas e em outros locais que sobrevivem até hoje com base na caça de fato parecem ter uma dominância masculina nessa prática, o que levou muitos pesquisadores a acreditarem que também era assim há milhares de anos – o que não é necessariamente verdade.

De acordo com os antropólogos, se tirarmos os vieses da era moderna ao analisar a questão, não é nem um pouco absurdo pensar que mulheres caçavam na pré-história. Primeiro porque humanos são animais – e várias outras espécies de mamíferos têm fêmeas que caçam e, algumas vezes, até são as maiores responsáveis por capturar presas e alimentar a comunidade em que vivem.

Segundo porque a ideia de que mulheres têm uma força física menor que a de homens, e por isso não poderiam ser caçadoras, não faz sentido. Sabemos que os hábitos desses humanos pré-históricos se baseavam na caça em grupo, em que o número de pessoas participando era muito mais importante do que a força física individual de cada um. Grupos maiores conseguem emboscar presas com mais facilidade, e, nesse caso, excluir mulheres do processo seria abrir mão de um reforço muito bem-vindo.

Os pesquisadores ressaltam que o estudo não explora tudo sobre os papéis de gênero dessas sociedades pré-históricas, é claro, e não significa que esses humanos viviam em uma paridade de gênero em todas as questões. Mas, pelo menos quanto aos hábitos de caça, parece ter havido um erro na interpretação da ciência causado por papéis de gênero atuais projetados no passado.

Não é a primeira vez que isso acontece. Em meados da década de 1870, por exemplo, um esqueleto de um guerreiro viking foi encontrado na Suécia, datando do século 10. Por muitos anos, considerou-se que era de um homem – até que, em 2017, análises de DNA provaram que se tratava de uma mulher. Assim como no caso da caçadora sul-americana, essa descoberta causou uma certa polêmica: houve até quem sugerisse que os ossos da mulher tivessem ido parar na tumba de um guerreiro por erros de escavação. Isso porque uma série de outras evidências mostra que os vikings de fato formavam uma sociedade bastante patriarcal.

Mas esses estudos também revelam que presunções baseadas apenas nesses papéis de gênero podem induzir a erros – e novas evidências estão provando isso.

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