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Nada é estranho demais para a ciência: entrevista com Martin Monestier

O jornalista francês apaixonado pelo bizarro conta porque esquisitices como moscas, canibais, duelos e excrementos são temas essenciais para as pesquisas sobre a humanidade

O jornalista francês Martin Monestier é o que se poderia chamar de um pesquisador do bizarro. Os títulos da maioria dos seus 42 livros comprovam: Os Monstros Humanos; História e Bizarrices dos Excrementos; As Moscas e Os Canibais, além de tratados sobre pêlos, seios, cassinos ou a influência da música sobre as plantas.

Mais estranhos que os assuntos que Monestier aborda são os métodos que usa em suas pesquisas. Quando estudava o suicídio, passou a dormir num caixão e decorou sua casa com vitrais formados por radiografias de seu corpo. Para escrever sobre assassinos de aluguel, colocou um pequeno anúncio num jornal: “Procuro homem jovem, conhecedor de armas, para uma missão bastante delicada e muito bem remunerada”. O truque funcionou: “Muitas pessoas me responderam dizendo que estavam dispostas a tudo, inclusive a matar”, conta. Em outro episódio, usou seus 21 melhores amigos como cobaias do programa de rádio que apresentava. Telefonou a cada um deles contando que acabara de matar alguém e que precisava de ajuda, dinheiro e um carro. Treze amigos se disseram prontos a socorrê-lo, outros cinco hesitaram e três se recusaram. Considerado imoral pela emissora, o programa nunca foi ao ar. “O surpreendente é que ninguém pensou que se tratava de uma brincadeira. Nenhum dos meus amigos quis saber quem era a vítima ou em que circunstâncias o crime havia ocorrido”, diz.

No seu apartamento em Paris (em uma sala decorada de forma tradicional, deve-se assinalar), Martin Monestier conversou com a SUPER sobre suas pesquisas excêntricas.

Nada é estranho demais para a ciência

Por que você tem tanto interesse nesses assuntos insólitos?
Porque o lado sombrio, feio e violento é sempre mais estético. Não trato de temas marginais, mas sim de abordagens que foram esquecidas. Por exemplo, foram publicados milhares de livros sobre a pena de morte, mas sempre a favor ou contra. Não havia uma história técnica sobre a pena de morte, sobre o trabalho, desde as origens, dos inventores, engenheiros e legistas para melhorar a execução de seus semelhantes. O interessante foi mostrar como os grandes cientistas colocaram seu saber e sua inteligência a serviço da pena de morte. Eles são milhares e incluem nomes conhecidos, como Thomas Edison, que trabalhou no desenvolvimento da cadeira elétrica.

Assuntos como crianças escravas, canibalismo e excrementos também fazem parte desse seu estilo de pesquisa?
Tenho alguns critérios na escolha dos temas de meus livros: eles devem existir desde a origem das sociedades humanas, estar em todos os continentes e ter um futuro preocupante. Em 1970, havia 50 milhões de crianças escravas no mundo, por exemplo. [Hoje, ainda são cerca 5 milhões de crianças]. O problema do canibalismo também chama a atenção de organismos internacionais como as Nações Unidas. Na Idade Média, durante as cruzadas, a Igreja Católica permitia a alimentação com carne humana. Mas não deixava que se colocasse sal, pois isso implicaria um prazer culinário. Em relação aos excrementos, a história da humanidade sempre girou em volta desse problema. Quando falamos no futuro da água para a humanidade, o problema está nos excrementos. A água para beber corresponde a 1% do consumo mundial. Outros 15% ou 20% são destinados para a agricultura. O grande problema é a evacuação dos dejetos orgânicos humanos.

Na sua pesquisa sobre os anões, há um trecho dedicado ao Brasil.
Fui convidado a frequentar por vários dias o Clube dos Baixinhos de Campinas, em São Paulo. Seus integrantes eram animados por um sentimento de superioridade. Queriam mostrar que tudo de bom que foi feito no mundo era obra de baixinhos. Na época em que estava lá, eles pesquisavam Jesus Cristo, que teria entre 1,52 e 1,53 metro de altura. Eles queriam demonstrar que Cristo media menos de 1,50 metro, como muitos dos personagens da história. Átila (rei dos hunos, que invadiu o Império Romano no século 5) media 1,49 metro de altura. As armaduras expostas no Museu do Exército, aqui na França, mal servem hoje a uma criança de 14 anos.

Logo depois, você pesquisou duelos. Qual a importância deles?
Em 1991, quando fiz essa pesquisa, o Paraguai era o único país que autorizava os duelos, mas não de qualquer maneira. Um comitê de honra se reunia para avaliar se havia um motivo válido para a disputa. Os demais países negam a existência dessa prática. Há cerca de mil duelos por ano no mundo, nas mais diferentes formas e códigos. Aqueles que terminam no tribunal nunca são tratados como duelos, mas como tentativas de assassinato ou homicídio.

Em seu livro sobre os seios, há a história do deputado francês Marcel Planiol, que, em 1889, propôs a taxação de roupas íntimas femininas, uma espécie de “imposto sobre os seios”.
Mas isso ocorreu em vários países, como Suécia e Alemanha. Todos os comportamentos humanos, sem exceção, foram regidos por leis, não importa o país. Existiam, por exemplo, impostos sobre o suicídio em vários lugares da Europa, nos quais a família pagava uma taxa. Chegavam até a tomar todos os bens do falecido. O suicídio é um comportamento individual, sobre o qual o Estado não pode atuar e não há coerção possível. Confiscar os bens e atacar os descendentes fazia o indivíduo potencialmente suicida refletir sobre esse ato.

E qual o sentido de pesquisar moscas?
É um perigo mortal completamente ignorado. Trata-se do único animal que se adapta ao homem em todo lugar. Mesmo nas regiões árticas encontramos moscas. Quando enviamos o primeiro satélite ao espaço, o Sputnik, havia moscas dentro dele. Os primeiros seres vivos que nasceram no espaço, de forma involuntária, foram moscas. Há moscas nos submarinos atômicos. Onde o homem está, há moscas. Há 80 mil tipos diferentes de moscas, cada um com seu alvo. São também máquinas de vôo extraordinárias. Os estabilizadores de avião foram criados a partir da observação de moscas, por exemplo.

Entre seus próximos projetos, há um livro sobre histórias de crianças assassinas e outro sobre o cuspe.
As crianças assassinas são, para mim, uma prova da maldade congênita do indivíduo. Não é a sociedade que perverte – ela mantém os indivíduos em comportamentos aceitáveis. Em relação ao cuspe, assistimos hoje a um retorno dessa prática. Até a década de 1950, havia nos ônibus franceses uma recomendação escrita: “É proibido falar com o motorista e cuspir no chão”. Por volta de 1955, ninguém mais cuspia na França, na Alemanha ou na Inglaterra. Hoje, a abertura das fronteiras trouxe indivíduos provenientes de países nos quais o cuspe é um costume, como é o caso de nações do Leste Europeu. Na tevê, não se pode assistir a um só jogo de futebol sem ver um jogador cuspir. É algo odioso. E o que fazem as crianças? Quando elas vão jogar futebol, também cospem, porque entram na lógica e no cerimonial do ídolo que procuram copiar. Outro projeto meu é montar uma enciclopédia de notícias insólitas. Já tenho mais de 15 mil histórias arquivadas e deverei selecionar cerca de 2 mil entre elas.

Martin Monestier

• Tem 75 anos
• Adora andar a cavalo
• É fã do cantor e compositor francês Jacques Brel
• Gostaria de escrever a história completa dos jesuítas, mas acha que não teria tempo de terminar a obra
• Sua cidade preferida é Assunção, no Paraguai
• Passou quase um ano no Brasil, em 1966