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Antônio Conselheiro: homem comum que virou personagem histórico

Após trinta anos sob a água, o cenário da Guerra de Canudos ficou meses exposto. A SUPER foi lá entender a dimensão do conflito e o papel de seu líder

Os urubus eram tantos que formavam nuvens negras e nem assim davam conta de devorar os milhares de cadáveres. Muitos secavam ao sol, impregnando o sertão de um cheiro indescritivelmente podre. Cachorros, cujos donos também jaziam mortos por ali, acostumaram-se a comer carne humana e apavoravam os poucos desavisados que ousassem visitar a região. Do arraial, restavam escombros, onde antes havia duas igrejas, e montes de cinza, no lugar das casas de barro.

Cento e dois anos depois, a paisagem é certamente menos aterrorizante, mas tão desolada quanto a daqueles dias depois de 5 de outubro de 1897, quando Canudos foi destruída. Em setembro passado, a falta de chuvas secou o açude que inundou, nos anos 60, o velho campo de batalha, revelando suas ruínas. O palco exposto de uma das maiores guerras civis de nossa história, que deixou 10.000 mortos e mobilizou quase todo o contingente militar da nação, atraiu historiadores como ímã. A SUPER também foi lá. O que nós vimos sobre a lama não foram os restos de um antro de fanáticos nem os destroços de uma comunidade socialista, mas uma pobre vila, igual a tantas outras do sertão da Bahia.

Sem fortalezas e com alguma discriminação

A igreja nova de Canudos foi descrita pelos militares que a destruíram como uma fortaleza indevassável. Mas quem teve a chance de passear pela paisagem árida do lugar, no final de 1999, quando a seca evaporou o açude que escondia as ruínas do velho arraial, só viu as discretas fundações de uma igrejinha comum do sertão. Parecida com a da cidade de Crisópolis, 200 quilômetros ao sul dali, erguida, aliás, pelo mesmo construtor: Antônio Conselheiro. As paredes tinham 60 centímetros de espessura – e não 1 metro e meio, como foi dito. Bem diferente do que se esperaria de uma cidade supostamente construída para a guerra por fanáticos que só pensavam em matar republicanos.

Também não há sinal de que lá tenha prosperado uma comunidade igualitária, e de que terras eram distribuídas e não havia discriminação. “Ao contrário, os ricos e poderosos moravam na praça central, os remediados viviam mais longe e os pobres estavam na periferia”, diz o historiador Renato Ferraz, da Universidade Estadual da Bahia, apontando, no arraial abandonado, o provável lugar de cada bairro. Ou seja, havia diferenças sociais.

“Relatos sugerem a existência de uma rua dos negros e de outra dos índios, o que contraria a idéia de uma sociedade sem segregação”, ressalta o arqueólogo Paulo Zanettini de São Paulo. Ele fez escavações no lugar, recentemente, e espera pela diminuição das chuvas que estão caindo desde janeiro para poder voltar ao trabalho. “Estou convencido de que não havia nenhuma idéia libertária por trás da organização daquela comunidade”, afirma o historiador baiano José Calazans, com a autoridade de quem pesquisa o tema há cinqüenta anos.

Profissão: conselheiro

É exatamente isso: arqueólogos e historiadores estão chegando juntos à conclusão de que Canudos foi uma cidadezinha comum do sertão nordestino. Nem um antro de malucos fanáticos, como alardearam os militares depois da guerra, nem uma comunidade liderada por um precursor do socialismo. “Eles só queriam uma cidade para rezar em paz”, argumenta Zanettini. Uma azarada conjunção de fatos impediu esse destino banal.

Ao que tudo indica, nem mesmo Antônio Conselheiro era assim tão especial. Conselheiro não era seu sobrenome – e sim Vicente Mendes Maciel –, mas seu cargo, o grau máximo de uma hierarquia religiosa informal do Nordeste daquele tempo. Havia romeiros, beatos e conselheiros, que não se confundiam com os padres.

Os romeiros peregrinavam aos lugares santos pagando promessas e visitando igrejas. Os mais dedicados tornavam-se beatos e ganhavam o direito de usar um manto azul ou branco – nunca preto, exclusividade dos padres. Os beatos pediam esmolas para ajudar nas obras da igreja e tentavam levar uma vida inspirada nos exemplos dos santos. Os que conquistassem muitos seguidores podiam dar conselhos. Ou seja, pregar. Daí passavam a portar um cajado e recebiam o título de conselheiro.

Como Antônio, havia outros. Na mesma época, ficaram famosos por suas obras o Conselheiro Francisco e o Conselheiro Guedes. Todos viajavam de cidade em cidade, construindo igrejas para os fiéis assistirem às missas e fazendo cemitérios para que ninguém fosse enterrado em solo pagão, o que era considerado terrível por cristãos convictos.

Os três conselheiros tiveram problemas com os poderosos, porque desviavam mão-de-obra da roça para as suas obras. Dentre todos, o mais querido era Antônio, como atesta Antônio Dantas de Oliveira, o Antônio de Isabel, de Massacaré, ao sul de Canudos. Aos 107 anos, ele é provavelmente o único homem vivo que pode dizer que conheceu Conselheiro. “Eu tinha 5 anos quando ele passou perto daqui”, conta. “Todo mundo queria vê-lo e meus pais me levaram. Estava cheio de gente. O povo gostava muito dele.” Tanto que, em 1893, quando o Conselheiro se mudou, aos 63 anos, para um vilarejo perto de uma fazenda chamada Canudos, já levava duas ou três centenas de seguidores.

Diferentemente do que diziam alguns historiadores, ele não fundou a cidade. Canudos já existia. “Prova disso é o documento que encontrei, datado de 1881, que criava uma escola lá”, afirma Marco Antonio Villa, um especialista no assunto da Universidade Federal de São Carlos. “Minha avó conta que a avó dela já morava aqui quando ele chegou”, atesta o canudense João de Régis, de 92 anos. “Antônio perguntou se queriam que ele reformulasse a igreja e disseram que sim.” Acabou escolhendo também um novo nome para o povoado: Belo Monte. Mas Canudos, a antiga denominação, foi que ficou para a História.

Uma bola-de-neve rolava pelo sertão

Mas, se Canudos era uma cidade comum, o que a teria levado à guerra? A explicação começa em 1893. Quatro anos antes a República havia sido proclamada e os impostos aumentados. A situação econômica tornou-se tema constante nas pregações de Antônio, que, afinal, como religioso, se compadecia dos pobres.

No começo daquele ano, ele esteve em Natuba, hoje Nova Soure, e seus seguidores destruíram as tábuas com o cálculo dos impostos. O ato de rebeldia irritou as autoridades e transformou Antônio em fora-da-lei. Foi nessa condição que ele chegou a Canudos.

O tempo transcorreu mais ou menos em paz até que, em novembro de 1896, circulou o boato falso de que os homens de Conselheiro invadiriam Juazeiro. O governador da Bahia, pressionado pelos fazendeiros inimigos de Antônio, enviou a Canudos uma tropa de 118 homens para destruir os supostos rebeldes. Avisado, Conselheiro mandou sua gente detê-los no caminho. Ninguém sabe exatamente quantos homens eram – o Exército registrou 3.000, mas, hoje, os historiadores falam de 700 –, armados com algumas espingardas, facas e enxadas. Dez militares e 100 canudenses morreram.

Apesar da diferença nas baixas, a milícia baiana recuou. Dois meses depois, sairia a segunda expedição, agora com 600 homens. Outra batalha no caminho deixou quase 500 canudenses e apenas dez soldados mortos. Mas a falta de munição obrigou a um novo recuo.

Ninguém tentou dialogar. “Desde o começo, os conselheiristas apenas se defenderam”, diz Ferraz, que acompanhou a reportagem da SUPER. “Eles ficaram juntos, solidários, um traço típico da gente do sertão, que enfrenta muitas dificuldades.” O que os movia não era fanatismo religioso, mas o carinho por um líder legítimo.

Para completar, conheciam muito bem o seu terreno. “Só estranha essas derrotas quem não sabe o que é a caatinga”, ironiza Calazans. A reportagem da SUPER entende o que o historiador quer dizer. Andamos pelo cenário das batalhas carregando o equipamento fotográfico – provavelmente tão pesado quanto o armamento militar – e voltamos baqueados pelo sol forte, sedentos e cheios de rasgos nas roupas e de arranhões infligidos pelas plantas espinhentas. Imagine o que era fazer o mesmo sob a mira de espingardas de jagunços acostumados ao local.

Inimigo público

Até aí, apesar das mortes todas, os incidentes eram casos de polícia, da alçada do governador da Bahia. Mas as recorrentes pregações contra os impostos da República transformaram Antônio em inimigo do Estado. Falava-se que queria derrubar o governo e reinstaurar a monarquia. O presidente Prudente de Moraes foi tachado de fraco. Muita gente, no Rio e em São Paulo, temia um golpe. Nesse clima de tensão crescente, o governo federal foi impelido a entrar na brincadeira. Chamou o coronel Antonio Moreira César, conhecido como o Corta-Cabeças, para liderar a terceira expedição. Famoso pela crueldade, Moreira César era o mais conhecido militar do país e sério candidato a presidente da República. Partiu com 1 300 soldados para Canudos e, arrogante, liderou um imprudente ataque frontal. Um balaço derrubou-o do cavalo, matando-o horas depois. Suas tropas desorganizadas fugiram, deixando para trás centenas de fuzis. Aí, o Exército zangou-se.

Em Os Sertões, a obra-prima que escreveu depois de acompanhar como correspondente o final da quarta expedição, Euclides da Cunha chama os jagunços de inimigos invisíveis. “Invisíveis depois de ganharem as armas dos militares”, ressalva Ferraz. “Antes eram bem visíveis. Usavam pólvora caseira, feita de salitre tirado das rochas. Ela soltava uma fumaceira enorme.”

A quarta e última expedição foi esperada com os fuzis alemães de última geração do Exército. Do outro lado também houve evolução. No primeiro ataque, o comando estava nas mãos de um tenente; no segundo, de um major; no terceiro, de um coronel; no quarto, os quase 9.000 soldados recebiam ordens de dois generais. Em Monte Santo, o ministro da Guerra, em pessoa, acompanhava a operação. O ataque, iniciado em julho, só acabaria em 5 de outubro. Foi um morticínio. Morreram 2.000 soldados e 5.000 canudenses.

Conselheiro não resistiu. Morreu em 22 de setembro vítima de uma “corredeira” – como os sertanejos chamavam a diarréia –, talvez causada pela gangrena em um ferimento na perna. Em Canudos, restaram ruínas, cinzas, cadáveres, cães e urubus. Nenhum homem vivo. Mil mulheres e crianças sem rumo, sendo distribuídas a quem as quisesse. Euclides da Cunha mesmo levou um menino para o Rio, que entregou a um amigo para adoção.

Bombardeado, queimado e depois alagado

Mal acabou a guerra, surgiu um movimento para denunciar a crueldade do Exército. Centenas de conselheiristas, talvez mais de 1.000, tiveram o pescoço cortado. “É justo que se condenasse o crime. Mas não se pode esquecer que foi a opinião pública que exigiu esse tratamento a Conselheiro”, diz Ferraz. “Os ânimos estavam muito exaltados. E os canudenses também matavam seus prisioneiros.” Só não os degolavam porque cortar o pescoço era um costume macabro dos gaúchos, que compunham a maior parte das Forças Armadas. Os sertanejos preferiam executar os soldados estripando-os: ou seja, metendo a peixeira na barriga. Como se vê, a história da “índole pacífica” do povo brasileiro é um mito.

No total, morreram cerca de 10.000 homens, 7.000 na última expedição. A maioria dos corpos foi queimada e abandonada. Os cães selvagens expulsaram quem quer que morasse por perto. Dizia-se que a região de Canudos ficou despovoada por mais de dez anos. Mas alguns depoimentos provam que não foi bem assim. A mãe de João de Régis, por exemplo, voltou no ano seguinte.

Outro que retornou ao lugar foi José Galdino de Santana, sertanejo que perdeu o pé em uma batalha, no quarto ataque. Quem contou isso à SUPER foi o filho dele, Henrique, hoje com 84 anos. “Ele disse que só viu uma fumaça vindo de onde estava o Exército e correu”, lembra-se. Mesmo assim, um estilhaço lhe acertou o tornozelo e decepou o pé. “Dos outros que estavam por perto, não sobrou pedaço de mais de 100 gramas de carne”, diz Henrique.

Na nova ocupação de Canudos, porém, a antiga praça, onde ficavam as igrejas do velho arraial (ver abaixo), continuou vazia. “Parece que eles evitaram o lugar por respeito”, diz Zanettini. “Em junho de 1909, uma nova igreja foi inaugurada com festa”, conta o historiador Manuel Neto, do Centro de Estudos Euclides da Cunha, em Salvador, outro pesquisador do assunto. “É uma prova de que a cidade já voltara a existir bem antes disso.”

Debaixo d’água

Sessenta anos depois, em 1969, o novo arraial de Canudos foi inundado por uma barragem construída para combater a seca. Em setembro de 1999, a falta de chuvas expôs as ruínas por quatro meses. Os arqueólogos esquadrinharam as velhas igrejas e acharam o esqueleto de um soldado sem pernas, provavelmente arrancadas por uma explosão. O botão de sua farda trazia o desenho de uma lira, o que indica que era um músico. Ou seja, ajudava a executar o Hino Nacional para estimular as tropas enquanto avançavam sobre a cidade.

Como esse, há perto de 10.000 esqueletos enterrados lá no sertão, junto com armas, fardas e munições. Em qualquer lugar que você cave dois palmos, as chances de encontrar vestígios do combate são enormes. Tanto que quase todos os moradores da região guardam sua pequena coleção particular de relíquias. Em janeiro de 2000, as chuvas voltaram e a água cobriu de novo o arraial. Foi uma oportunidade rara para vislumbrar aquela que já foi uma cidadezinha comum do interior da Bahia e virou um dos mais sangrentos campos de batalha da nossa história.

 

Algo mais

Este arbusto, a favela, dá nome ao morro onde o Exército acampou em Canudos. Depois da guerra, os soldados que não receberam pagamento foram ao Rio de Janeiro protestar e acamparam no Morro da Providência. O acampamento acabou apelidado de favela, nome que se estendeu a outros morros pobres.

A vila de Conselheiro

Novo retrato mostra Canudos antes da guerra, sem retoques.

O Exército afirmava que eram 25.000 habitantes. Quem visita o lugar vê que não caberia tanta gente. No máximo, 10.000, morando em 2.000 casas. O restante foi invenção para justificar as três derrotas dos militares.

A igreja nova e a velha ficavam a uns 100 metros de distância. Ambas foram feitas por Conselheiro. Ninguém entende por que havia duas.

O principal comerciante era Antonio Vilanova, dono de um bem-suprido armazém e provavelmente o verdadeiro administrador da cidade.

Este era provavelmente o bairro dos negros. Eram ex-escravos que seguiram Conselheiro desde a região dos engenhos de cana, 200 quilômetros ao sul, atrás de uma vida melhor.

Sabe-se que em Canudos havia muitos índios das tribos caimbé e kiriri. Eles conheceram Antônio em suas andanças e também foram para Canudos em 1897, prontos para a guerra.

Ataque final

Em setembro de 1897, o arraial estava cercado.

As tropas ocupavam o morro ao lado do arraial, de onde podiam atirar nas igrejas.

Das torres da igreja nova os jagunços tentavam atingir os soldados. Quando ela caiu, no começo de setembro, a derrota ficou próxima.

A última trincheira ficava na praça e resistiu até o começo de outubro. Euclides da Cunha contou que os defensores que restaram eram um velho, dois homens feitos e uma criança.

Os soldados deram a volta no arraial, cruzaram o Rio Vasa-Barris e tomaram algumas casas. Centenas de soldados morreram nessa operação. Mas os conselheiristas ficaram cercados e não puderam reagir.

O arraial ressurge

Dez anos depois da guerra, Canudos já estava recomposta.

Muitos dos sobreviventes da guerra retornaram. Mas os relatos indicam que a maioria dos novos habitantes era gente recém-chegada à região.

Ninguém foi morar na antiga praça central, embora fosse o melhor lugar, devido à proximidade do rio e à facilidade de buscar água. Os novos canudenses talvez tenham evitado o lugar por respeito.

Uma nova igreja foi inaugurada em 1909 para substituir as duas antigas, destruídas nos bombardeios e depois dinamitadas.

O Rio Vasa-Barris seria represado nos anos 60 para combater a seca. Foram suas águas que inundaram a região. Uma nova cidade, também chamada Canudos, foi construída a 10 quilômetros deste ponto.

Para saber mais

Canudos, o Povo da Terra, Marco Antonio Villa, Editora Ática, São Paulo, 1997.

Os Sertões, Euclides da Cunha, Editora Ática, São Paulo, 1998.