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O andar do homem-macaco

O mais completo esqueleto de um antepassado seu, leitor, com 3,6 milhões de anos, aparece na África do Sul, maravilha os cientistas e ilumina os primeiros passos da jornada humana.

Flávio Dieguez, com Denis Russo Burgierman

Foi um belo presente de Natal. Ao anunciar, no dia 9 de dezembro, a descoberta de um novo ancestral da humanidade, na caverna sul-africana de Sterkfontein, o inglês Ronald Clarke deu aos paleoantropólogos o que nenhum Papai Noel poderia dar. Era exatamente o que eles mais gostam: ossos dos seus antepassados. Mas, desta vez, numa quantidade nunca vista – um esqueleto inteiro, com todas as peças no lugar. “Temos 100% da ossada”, declarou à SUPER o autor do achado, que há sete anos trabalha na Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, na África do Sul.

“Nós nunca botamos as mãos num esqueleto completo. Vai ser a primeira vez”, confessa o paleoantropólogo Ian Tattersall, do Museu de História Natural de Nova York, nos Estados Unidos, uma das maiores autoridades no assunto. Ele conta que ainda não examinou o material, que continua quase todo preso na rocha na qual fossilizou. Assim a criatura continua sem CIC e RG. Sabe-se apenas que pertenceu a uma das seis espécies de um grupo chamado australopiteco. Quanto à idade, estima-se que esteja entre 3,2 milhões e 3,6 milhões de anos, embora alguns cientistas acreditem que possa estar mais próxima de 2,6 milhões de anos, conforme a SUPER apurou (leia na página 70).

Mas, neste momento, nada disso é muito importante, diz Tattersall. “Estou encantado com a perspectiva de estudar um fóssil dos pés à cabeça.” É compreensível. Já imaginou a dificuldade de tirar conclusões seguras quando tudo o que se tem para analisar são umas poucas lascas de crânio ou de fêmur? O esqueleto sul-africano, em comparação, representa um mapa preciso e minucioso para se chegar ao grande prêmio que é desvendar os enigmas da origem do homem.

Aqui, a maior charada de todas é saber exatamente quando os australopitecos, homens-macacos, passaram a marchar sobre duas pernas como só o Homo sapiens sabe fazer. Sobre isso, por enquanto, tudo é especulação. Alguns pesquisadores defendem que há 4 milhões de anos os bicharocos já perfilavam a coluna tão bem quanto nós. “Essa é a minha opinião”, declarou à SUPER o americano Donald Johanson, do Instituto das Origens Humanas, em Berkeley, Califórnia. Mas Clarke e o sul-africano Phillip Tobias, seu colega em Witwatersrand, duvidam. “Acho que há cerca de 4 milhões de anos os homens-macacos estavam apenas começando a se adaptar à postura ereta”, afirma Clarke.

A solução do problema está escrita em três pontos estratégicos do fóssil: o pescoço, a bacia e os pés (veja no infográfico à direita). Então, assim que tiverem nas mãos o mapa do tesouro sul-africano, é para esses pontos, antes de tudo, que os cientistas terão que voltar a atenção. “Nossas pesquisas vão levantar o véu de mistério que cobre os primeiros passos da humanidade”, aposta Tobias.

Siga as pistas

Aqui estão as dicas que vão mostrar se o fóssil ia e vinha com a desenvoltura do Homo sapiens ou se era desengonçado.

A cara do bicho

Nesta ilustração você vê o aspecto que o fóssil terá depois que for arrancado da rocha em que virou pedra.

Nuca reta

Se o ângulo entre o pescoço e a base do crânio ficar bem na vertical, é indício de que o bicho tinha postura elegante e dava passos seguros. Um ângulo inclinado o deixaria meio agachado e trôpego.

Cintura firme

Dependendo da forma como se encaixam nos quadris, as pernas podem ficar muito abertas, com os joelhos afastados. Aí o andar é bamboleante e difícil. Joelhos juntos facilitam a marcha.

Apoio sólido

O pé, já analisado, é ambíguo. O calcanhar reto garante base firme para a locomoção. Mas o dedão lembra um polegar – é meio afastado dos outros dedos – e pode ter sido usado para agarrar galhos. Pode não ter ajudado muito a ir e vir pelo chão.

Quanto tempo é preciso para ficar de pé

Na pesquisa sobre a evolução humana, é decisivo descobrir quando o ancestral humano desceu das árvores. O envolvimento do americano Donald Johanson com esse assunto começou em 1974. Nesse ano, ele extraiu de rochas da Etiópia o fóssil que é, até hoje, o mais famoso do mundo da Paleoantropologia. Como era de uma fêmea – de uma das espécies de austropiteco, chamada afarensis –, a ossada recebeu o nome de Lucy. Sua celebridade se deve ao fato de ter sido uma recordista em quantidade de ossos. Com 40% da anatomia preservada, Lucy deu aos cientistas um grande volume de dados inéditos, que, depois de estudados, levaram a conclusões extraordinárias. A mais importante: apesar de ter habitado a Etiópia há longínquos 3,2 milhões de anos, Lucy já tinha a coluna certinha.

Isso deu a Johanson a certeza de que os australopitecos, e em particular os afarensis, eram bons andarilhos. “A época exata em que eles surgiram não sabemos, mas ela chega a pelo menos 3,9 milhões de anos atrás”, conta ele. Confirmando a hipótese, o americano desenterrou, em 1995, também na Etiópia, um crânio de afarensis com essa idade.

Por ironia, apenas um ano antes, Ronald Clarke tinha achado os primeiros fragmentos do esqueleto quase completo anunciado agora – que iria, ao mesmo tempo, desbancar o recorde de Lucy e desafiar a tese de Johanson. Clarke teve uma sorte incrível, pois estava apenas examinando depósitos de fósseis guardados na universidade para estudo posterior. Num desses baús de ossos, identificou peças petrificadas do pé esquerdo de um australopiteco. E elas levantaram a suspeita de que esse antepassado não era tão hábil assim ao caminhar. De um lado, o pé tinha um calcanhar bem reto, que é uma característica humanóide. Mas também trazia nos dedos alguns sinais macacóides. “Somando uma coisa à outra, deduz-se que o australopiteco ainda não estava perfeitamente adaptado para morar no chão”, argumenta Clarke.

A partir daí, muitos especialistas passaram a desconfiar de que a arte de andar não era tão antiga, abrindo um farto debate. Clarke não ficou só na conversa. Decidiu botar a mão na massa – ou melhor, o pé na caverna.

Juntando a perseverança à sorte que antes já o tinha ajudado a pescar a jóia mais preciosa do baú, o inglês saiu à caça do resto do corpo. Ele tinha certeza de que o encontraria no mesmo lugar onde aquele pé havia estado antes de ir para a universidade – uma das câmaras subterrâneas da caverna de Sterkfontein. Em novembro de 1996, Clarke encerrou a busca com sucesso e perto do Natal do ano passado pôde dar uma de Papai Noel dos paleoantropólogos. Agora, com um corpo inteiro à disposição, eles têm os meios para seguir, sem tropeçar, as pegadas certas dos nossos mais velhos ancestrais.

Para saber mais

Becoming Human, Ian Tattersall, Editora Harcourt Brace, Nova York, 1998.

Na Internet: Site da Universidade de Witwatersrand: http://www.wits.ac.za

A guerra dos milhões

A idade do esqueleto está sob disputa. Estima-se que ela seja a mesma das rochas em que ocorreu a petrificação, na caverna de Sterkfontein, a 50 quilômetros de Johanesburgo (veja o mapa). Os minerais teriam de 3,2 milhões a 3,6 milhões de anos. Mas esse valor tem de ser confirmado, disse à SUPER o antropólogo Jeffrey McKee, da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos. “Dá para associar o fóssil a restos de antílopes também encontrados na caverna e que sabemos ter 2,6 milhões de anos. Acho essa data mais segura”, diz ele.

Laços de família

Nesta árvore estão representados alguns dos nossos antepassados. Localize nos seus galhos o novo fóssil.

Há 100 000 anos

Homo sapiens

Com os pés no chão e um cérebro grande, espalhou-se pelos continentes e fundou a civilização.

Há 250 000 anos

Homo neanderthalensis

Dominou boa parte da Europa e provavelmente se extinguiu depois de disputar espaço e comida com o Homo sapiens.

Há 2 milhões de anos

Homo erectus

Seu cérebro, com 70% do volume do nosso, era 2,5 vezes maior que o dos australopitecos. Já fazia instrumentos de pedra e caçava grandes animais.

Há 3,2 milhões de anos

Lucy

Nossa tataravó mais célebre. Constituía até agora o esqueleto mais completo da espécie Australopithecus afarensis.

Há 3,9 milhões de anos

Australopithecus afarensis

A maior parte dos cientistas acha que ele foi o primeiro a se mover com agilidade sobre duas pernas, mas essa tese vem sendo contestada.

Há 3 milhões de anos

Australopithecus africanus

Com ossos menores que o afarensis (veja abaixo), não está claro se foi antepassado nosso. Sua linhagem pode ter desaparecido sem deixar descendentes.

Há 3,6 milhões de anos

O novo fóssil

Tanto pode ter sido um parente mais velho de Lucy (ao lado) como um africanus. Nesse caso, seria o mais antigo remanescente dessa espécie.

Há 5 ou 7 milhões de anos

Chimpanzé

Nosso primo mais chegado. Ele sempre se apoiou sobre as quatro patas no chão. Não há certeza de quando o seu ramo separou-se do galho do australopiteco.

Fotografia colorida

O fóssil sul-africano já foi um sujeito de carne, além de osso. Veja como ele pode ter sido.

Vegetariano

Dentes e maxilares indicam que o forte de seu cardápio eram vegetais. Da pouca carne que comia, quase tudo devia ser restos deixados por outros animais. Não há sinal de que fazia armas para caçar.

Indeciso

Bem ou mal, ficava na vertical para se deslocar. Morava em florestas mistas, comuns na África há 3 ou 4 milhões de anos, nas quais se combinavam campinas rasteiras e matas mais fechadas.

Presa fácil

No solo, estava mais para caça do que para caçador. Era lento para correr dos predadores. Talvez por isso tenha continuado a subir nas árvores mesmo depois de ficar ereto, segundo defendem alguns pesquisadores.