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O Brasil não é um país tão violento

Essa cobertura não apenas afugenta os turistas como também pinta uma imagem falsa, do país e do mundo em geral.

Michael Kepp

A imprensa internacional cobre a violência no Brasil de uma maneira tão sensacionalista que os estrangeiros ficam com a impressão de que nossas ruas são muito mais perigosas do que elas realmente são. Essa cobertura não apenas afugenta os turistas como também pinta uma imagem falsa, do país e do mundo em geral.

Pegue minha mãe, por exemplo. Ela já jurou que nunca virá me visitar, apesar de eu viver no Rio há 21 anos. Como suas principais fontes de notícias sobre o Brasil são os noticiários de TV, ela acredita que o Rio é habitado principalmente por traficantes e seqüestradores. Anos atrás ela viu uma reportagem da rede de TV americana CNN sobre a morte da atriz Daniela Perez, assassinada pelo seu par romântico na novela e sua mulher.

Parece incrível, mas eu tive que explicar para a minha mãe que não, não é comum atrizes de novela serem mortas pelos galãs no Brasil. E recentemente tive que convencê-la que era improvável que eu fosse vítima de uma bala perdida parecida com a que matou a personagem Fernanda em Mulheres Apaixonadas – episódio que serviu de gancho para reportagens sobre a violência no Rio de Janeiro que ocuparam as páginas do jornal francês Le Monde e do Christian Science Monitor, um jornal americano que ela lê.

A cobertura da imprensa de Primeiro Mundo sobre a violência no Brasil tende a ser sensacionalista, não apenas porque esse tipo de notícia vende, mas porque faz o público pensar que vive no melhor dos mundos possíveis. Ironicamente, para mim, o Brasil preenche essa descrição muito melhor que os Estados Unidos. Primeiro porque as pessoas daqui têm mais generosidade, ginga e prazer de viver que a maioria dos americanos. Além disso, o Rio é um lugar onde eu me sinto seguro. Nunca fui vítima de um assalto de nenhum tipo na Cidade Maravilhosa. Uma vez ladrões arrombaram meu apartamento no Rio quando eu estava viajando, mas isso me ocorreu duas vezes em Nova York, onde eu vivi por apenas três anos nos anos 70.

É claro que eu tomo precauções. Dirijo um carro barato, não uso jóias e não fico passeando na orla da zona sul à noite. Mas não furo sinais vermelhos à noite para evitar abordagens, uma prática que o jornal americano Wall Street Journal disse que era comum no Rio de Janeiro.

Como não me sinto em perigo e não quero propagar falsas impressões, eu, como jornalista, não escrevo histórias sobre a violência brasileira em publicações americanas. E também não reclamo da violência urbana brasileira nas crônicas que escrevo para revistas e jornais brasileiros (nem no livro de crônicas sobre o país que acabei de publicar). Afinal de contas, eu venho de um país que, como mostrou Michael Moore no documentário Tiros em Columbine, também tem uma cultura violenta. Se é verdade que o Brasil tem uma cota de violência maior do que seria razoável, pelo menos não estamos acuados por garotos de 11 anos que massacram seus colegas de escola ou por assassinos adolescentes escondidos em picapes, que matam desconhecidos usando rifles de longo alcance.

A alienação social e a pobreza de espírito que uma pessoa precisa ter para cometer esse tipo de assassinato aleatório e insensível são produtos mais da cultura americana, pouco comuns por aqui. Naquela cultura individualista e competitiva, a maioria das crianças, sob tremenda pressão para vencer, deixa a casa dos pais logo depois do colegial, uma ruptura que os deixa alienados.

Poderia isso explicar por que os assassinos em série são quase sempre homens brancos de classe média, aqueles dirigidos culturalmente para vencer e com o menor senso de comunidade? Talvez os negros e latinos pobres “raramente cometam” tais crimes porque seus guetos lhes dêem um senso mais agudo de comunidade, uma rede cultural mais segura.

O Brasil ainda não se parece com a sociedade americana porque os brasileiros valorizam a família, sua instituição cultural mais importante. Os pais mimam as crianças, em vez de negligenciá-las. E não as encorajam a deixar o lar tão rapidamente. Eu mesmo deixei a casa dos meus pais aos 18 anos para cursar faculdade. Mas na família que eu ajudei a criar, à moda brasileira, o filho de 23 anos da minha mulher ainda vive conosco, e sua filha de 27 anos mora a alguns quarteirões. Nossos laços familiares, como os da maioria dos brasileiros, são parte da rede social que me faz sentir sortudo por viver aqui. É por tudo isso que eu acredito que, embora não viva no melhor dos mundos possíveis, ele ainda é muito melhor que o mundo de onde eu vim.

* Jornalista americano, autor de Sonhando com Sotaque – Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro, ed. Record.

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