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O cientista que descobriu o Brasil

Em abril de 1500, numa praia do sul da Bahia, o sábio Mestre João, integrante da frota de Cabral, improvisou um observatório astronômico e localizou o Brasil com exatidão pela primeira vez. De quebra, ainda batizou o Cruzeiro do Sul.

Eduardo Bueno

A noite era de lua nova. A imensidão do céu dos trópicos se devendava por inteiro. Reunidos na mansa enseada de águas cristalinas da hoje chamada Baía de Cabrália, a 12 quilômetros de Porto Seguro, no sul da Bahia, três homens apontavam para o céu seus instrumentos de madeira para medir a altura das estrelas. Embora ali estivessem os pilotos Pero Escolar e Pero de Alenquer, navegadores de larga experiência e muito conhecimento, a operação era coordenada por um fidalgo de origem espanhola, ainda mais versado do que eles na arte de perscrutar astros. O chefe da investigação, o astrônomo, astrólogo, cosmógrafo e médico da frota, respeitosamente chamado de Mestre João, entrou para a História naquela segunda-feira, 27 de abril de 1500. Foi o primeiro cientista a estudar o Brasil.

A esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral – constituída por oito naus, uma naveta de mantimentos e três caravelas – estava ancorada a 2 quilômetros da costa. Os homens reunidos na praia podiam vislumbrar a silhueta dos navios e escutar a algazarra descompromissada dos marujos. Todos a bordo pareciam felizes: fazia cinco dias que Cabral e sua tripulação tinham avistado, no entardecer de 22 de abril, quarta-feira, os contornos arredondados de um “grande monte”. Eles estavam se dirigindo para à longínqua Índia. Mas, realizada no meio do caminho, a descoberta – fortuita ou intencional, não importa – encheu a tripulação de contentamento. No Brasil recém-descoberto, ela renovou seus estoques de água e de lenha e, naquele instante, estava fascinada com as benesses do clima, o esplendor da natureza e a docilidade dos nativos.

Ainda assim, havia muito o que fazer. Mestre João fora incumbido de uma das mais importantes tarefas: descobrir, por meio da observação das estrelas, que terra era aquela e em que latitude se localizava. Ele demorou para pôr os pés em terra por motivo de saúde. Como tinha uma chaga inflamada na perna, precisou permanecer por mais tempo a bordo “de um navio muito pequeno e muito carregado”, no qual não havia “lugar para coisa alguma”, segundo escreveu depois ao rei de Portugal, d. Manoel.

Quase na mosca

Era perto do meio-dia quando o mestre meteu-se num pequeno barco a remo e se dirigiu para a praia. Com seu grande astrolábio de madeira mediu a altura do sol e calculou a latitude em que se localizava a nova terra. Obteve a medida de “aproximadamente 17 graus”, que se mostrou bem precisa: hoje, sabemos que a Baía de Cabrália fica a exatos 16º, 21’ 22”. O homem era competente. Graças aos cálculos realizados, concluiu que o velho e bom astrolábio, aparelho que os lusos haviam aperfeiçoado desde o início do ciclo das grandes navegações, quase um século antes, era superior às chamadas tábuas da Índia, instrumento de orientação de origem árabe, mais primitivo. Uma de suas missões na viagem era comparar as duas tecnologias. Sua maior contribuição à ciência, porém, estava reservada para a noite.

Ao observar as estrelas que luziam sobre a Bahia, Mestre João vislumbrou uma constelação de extraordinária beleza. Embora já fosse conhecido desde a Antiguidade – e servisse para orientar navegantes depois de cruzar a linha do equador –, o conjunto de astros ainda não tinha nome. Ao ver seu desenho no céu, Mestre João comparou-o a uma cruz. Batizou, assim, o Cruzeiro do Sul – a constelação que hoje brilha no centro da nossa bandeira.

Se Pero Vaz de Caminha foi o cronista dos nativos e das belezas da terra recém-descoberta, Mestre João foi o cartógrafo do céu e o primeiro a descrever, por meio de instrumentos, onde estava o Brasil.

O misterioso homem que veio da Espanha

Por muito pouco o nome de Mestre João não se perdeu completamente na História. O que o salvou do anonimato foi a decisão de escrever uma carta a d. Manoel. Ao cair da tarde de 1º de maio de 1500, incomodamente instalado na câmara do pequeno navio no qual viajaria para as Índias, sob a luz bruxuleante de uma candeia, ele pegou a pena e redigiu o relato breve e objetivo que se tornaria a única prova de sua participação na aventura.

Junto com dezenas de outras cartas – incluindo o famoso texto de Caminha e as preciosas missivas escritas por Cabral e por todos os demais capitães da esquadra –, os escritos de Mestre João foram enviados para o reino a bordo da naveta dos mantimentos. Sob o comando de Gaspar de Lemos, a embarcação zarpou para Portugal na manhã do dia 2 de maio de 1500 levando as extraordinárias novas sobre a descoberta da Terra de Vera Cruz.

Terremoto e incêndio

Por esses emprevistos que parecem determinar o rumo da História, apenas os relatos in loco de Caminha e de Mestre João passariam à posteridade. A outra notícia conhecida, de um piloto anônimo, foi escrita já em Portugal. Todos os demais documentos perderam-se na voragem dos séculos. Alguns devem ter sumido no terremoto que abalou Lisboa em fins de 1531. Outros desapareceram durante o período da chamada “união ibérica”, quando as coroas de Espanha e Portugal foram reunidas sob um só cetro. Os demais sucumbiram na devastadora tragédia que se abateu sobre Lisboa na manhã do dia 1º de novembro de 1755, quando um fortíssimo terremoto – seguido de grande incêndio – devastou a capital portuguesa. No dramático acontecimento, 19 000 manuscritos e 70 000 livros foram para o beleléu.

A “certidão de nascimento” do Brasil redigida por Caminha ficou perdida até fevereiro de 1773, quando foi redescoberta pelo guarda-mor da Torre do Tombo, José Seabra da Silva. A carta de Mestre João permaneceu por mais tempo ainda na obscuridade: só foi encontrada em 1843, pelo historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen, também nos recônditos da Torre do Tombo.

A partir de então os historiadores iniciaram uma complexa discussão em torno da figura escusa de Mestre João. Quem foi, afinal, o misterioso narrador dos céus do Brasil na semana de seu alvorecer? Era castelhano, grego ou alemão? Por que escreveu em espanhol e não em português? Chamava-se Mestre João ou Joam? Seria ele um tal de mestre João Menelau, referido por outras crônicas quinhentistas?

Só em fins do século XIX o historiador luso Sousa Viterbo concluiu que Mestre João era Joam Faras, “bacharel em artes e medicina, físico e cirurgião particular do rei d. Manoel”. A tese de Viterbo tem sido aceita, desde então, pela maioria dos historiadores modernos.

Joam Faras, natural da Galícia, na Espanha, deve ter se mudado para Lisboa por volta de 1485. Em Portugal, traduziu um dos clássicos da cosmografia antiga, o livro De Situ Orbis (Uma Descrição do Mundo), escrito em latim clássico, no século I, pelo geógrafo romano Pompônio Mela, nascido na Península Ibérica. Foi, aliás, graças a essa tradução que Sousa Viterbo pôde identificar Mestre João. Na obra, Joam Faras se diz “bacharel em artes e medicina, físico (o fisiologista de hoje) e cirurgião do mui alto rei d. Manoel” – da mesma forma como o faria na carta enviada desde o Brasil. As atividades de cosmógrafo, astrônomo e astrólogo estavam, até certo ponto, ligadas à prática da medicina. Antes de tratar de alguém, ainda mais um rei, fazia-se o mapa astral de seu paciente. O próprio d. Manoel – estivesse doente ou não – mandava ver diariamente como andavam os astros.

Conselho do mestre criou a maior confusão

Embora Mestre João tenha batizado a constelação mais importante do hemisfério, a carta que ele enviou ao rei d. Manoel ganhou fama por outro motivo. Na tentativa de auxiliar o monarca a identificar o local no qual se encontrava, o cientista escreveu: “Mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá V. A. ver o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa antigo e ali achará Vossa Alteza escrita também a (fortaleza da) Mina”.

Afirmação tão direta e específica serviu de argumento para os defensores da tese de que o Brasil já era conhecido há muito em Portugal. Afinal, se a terra na qual Cabral aportara em 22 de abril já constava de um mapa, é evidente que os portugueses haviam estado nela antes.

Empório tenebroso

O primeiro passo para a elucidação do enigma consistiu em desvendar a identidade de Pero Vaz Bisagudo. Quem matou a charada, em 1921, foi o historiador português Carlos Malheiro Dias. Ele descobriu em documentos antigos um tal Pero Vaz da Cunha “d’alcunha Bisagudo, capitão-mor da armada de vinte galés enviadas ‘com muita e luzidia gente, assim d’armas como oficiais’, para a construção da fortaleza da Mina”.

Esse forte – chamado também de Castelo de São Jorge da Mina, ao qual o próprio Mestre João fez referência em sua carta – foi a primeira grande feitoria erguida em além-mar pelos portugueses. Tratava-se de um poderoso entreposto militar e comercial construído entre dezembro de 1481 e março de 1482 na costa de Gana, litoral ocidental da África, perto da atual cidade de Accra. A fortaleza, também chamada Elmina, logo se tornou um tenebroso empório de escravos. Cristóvão Colombo e o navegador Duarte Pacheco Pereira (suposto precursor de Cabral no descobrimento do Brasil) estiveram lá. Do forte vieram, mais tarde, os primeiros escravos africanos trazidos para o Brasil, em 1533.

Apesar de Bisagudo ter realmente existido, ninguém nunca soube que mapa era aquele ao qual o mestre se referiu em sua carta. A única coisa que se sabe é que a cartografia da época costumava mostrar dezenas de ilhas misteriosas e lendárias. Uma delas, tida como uma espécie de paraíso, era chamada Hy Brasil. As fantasiosas porções de terra apareciam até mesmo em mapas importantes, como os feitos pelo genovês Andrea Bianco, em 1448, e pelo médico e astrônomo florentino Paolo Toscanelli, em 1474 – que inspirou Colombo a buscar as Índias pela rota do oeste. O primeiro globo terrestre da História, idealizado pelo alemão Martim Behaim, em 1484, tampouco ficou atrás.

Mas quem poderá dizer que o mapa de Bisagudo era delirante? É difícil acreditar que Portugal, com todo o conhecimento já acumulado em suas aventuras náuticas, mandasse numa expedição tão importante um cosmógrafo desinformado. Na chegada, como todos que estavam com ele, o cientista pode até ter achado que não estava num continente. Com certeza, considerou o lugar uma espécie de paraíso. Mas isso não autoriza ninguém a supor que ele achasse estar no território mitológico. Fica, então, a dúvida cruel: será que o mapa de Bisagudo já mostrava mesmo o Brasil, ainda que na forma de uma ilha?

Para saber mais

História da Colonização Portuguesa do Brasil, Carlos Malheiro Dias, Litografia Nacional, Porto, Portugal, 1926

O Brasil na Lenda e na Cartografia Antigas, Gustavo Barroso, Cia. Editora Nacional, Rio de Janeiro, 1933

A Viagem do Descobrimento, Eduardo Bueno, Objetiva, Rio de Janeiro, 1998

Os Três Únicos Testemunhos do Descobrimento do Brasil, Paulo Roberto Pereira, Lacerda Editores, Rio de Janeiro, 1998

Padrinho do Cruzeiro do Sul

O médico da frota do descobrimento batizou a constelação mais famosa do hemisfério sul.

No ano 130, Ptolomeu catalogou quatro das cinco estrelas do Cruzeiro na constelação de Centauro. Elas ficaram esquecidas até o século XV, quando começaram a ser usadas pelos navegadores. O eixo vertical da cruz sempre aponta para o sul.

Na mira dos astros

O arsenal usado por Mestre João para medir a distância das estrelas.

Roda mágica

O astrolábio era uma roda dividida em graus que tinha, presa em seu centro, uma seta móvel. Quando alinhada com os raios do sol (o que era indicado pela sombra), a parte superior da seta mostrava, na roda, a altura do sol acima do horizonte, o que permitia estabelecer a latitude.

Do oriente

O kamal – ou tábua da Índia – era um pedaço quadrado de madeira com um fio todo marcado de nós preso em seu centro. Segurava-se o fio com os dentes e afastava-se a tábua até que o astro ficasse encostado na parte de cima e o horizonte na de baixo. Os nós do fio esticado diziam qual era a altura angular da estrela.

Ângulo certo

Para saber quantos graus um astro estava acima do horizonte, usava-se também a balestrilha, conjunto de duas varas graduadas perpendiculares entre si. Olhava-se por uma ponta da maior e movia-se a menor. Quando a extremidade de cima da vara menor encontrasse o astro e a de baixo encostasse no horizonte, formava-se o ângulo com o qual se podia calcular a altura da estrela.

Aposta contra a morte

No perigoso ambiente das caravelas do século XVI, a presença do médico era imprescindível.

Dois entre três homens que se arriscavam a singrar o “Mar Tenebroso” (como era chamado o Atlântico) jamais retornavam. Boa parte naufragava. Outro tanto sucumbia às condições sanitárias a bordo. A começar pela alimentação. Ela era baseada quase exclusivamente numa monodieta de biscoito de marear, uma bolacha dura e salgada, quase sempre podre, perfurada por baratas (1) e com bolor malcheiroso. Para piorar, a comida e a água eram guardadas no porão, sem cuidados mínimos de higiene (2). A maioria dos marinheiros passava tão mal que não tinha forças para subir ao convés e fazer suas necessidades nos baldes reservados para isso (3). Faziam-nas no porão, muitas vezes já recoberto pelo fruto de seu próprio enjôo. A esse conjunto de circunstâncias tão favoráveis à proliferação de doenças é preciso acrescentar que naquela época o banho era consideravado um malefício à saúde. Achava-se que dois, no máximo três por ano eram suficientes. Por isso, doenças de pele eram comuns (4). Até Mestre João, que era médico, contraiu “uma coçadura” na perna, a partir da qual surgira uma ferida “maior que a palma da mão”.

Terra da bem-aventurança

Mais de vinte mapas mostram, em lugares diferentes, a ilha Hy Brazil, também chamada de São Brandão.

Fujona

À ilha mitológica era atribuída a capacidade de afastar-se quando os barcos se aproximavam – o que explica por que sua localização variava de mapa para mapa.

Os dois Brasis

Hy Brazil teria sido descoberta e colonizada por São Brandão, monge irlandês que partira para o mar em 565, aos 105 anos, em busca de um lugar para dedicar-se a Deus. Até 1624, expedições procuraram esse território bem-aventurado. Não deve, portanto, ser descartada a hipótese de que o nome escolhido para a terra descoberta por Cabral tenha sido inspirado na lendária ilha do monge.

Na ponta da pena

Veja alguns trechos da carta enviada pelo cientista ao rei.

“”(…) segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra (…) tomamos a altura do sol ao meio-dia (…), segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17 graus (…).””

“”(…) acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior do que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa alguma.””

“”(…) não se pode tomar (a altura dos astros) com elas (as tábuas da Índia) senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disto mais que do astrolábio (…)””

“”(…) estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro (a Ursa Maior) (…)”