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O espião que queimava dinheiro

Ele nada tinha de James Bond, era franzino, magro e encurvado, mas foi o espião que rendeu mais de US$ 1 bilhão aos americanos em pesquisa científica

Texto Ernani Fagundes

O diretor da CIA Milt Bearden, autor de O Grande Inimigo – A História Secreta do Confronto Final entre a CIA e a KGB (Objetiva), contava como piada aos amigos da agência que Adolf Tolkachev pagava todas as contas da embaixada em Moscou. Aquele homem quieto e cauteloso nascido em 1927 no Cazaquistão era um caso raro, segundo Bearden. Foi Tolkachev quem procurou os americanos em 1977 e insistiu em espionar, numa época em que não acreditava mais na existência de voluntários, mas, sim, de agentes duplos. Conquistou a confiança e entregou farta documentação do Escritório de Projetos Aeronáuticos da URSS. Entre 1979 e 1985, tempo suficiente para ganhar dois codinomes, Sphere e Vanquish, o cientista se encontrou com agentes americanos em operações arriscadas, mas que decididamente valiam o risco das emboscadas da KGB. Tolkachev recebia cerca de US$ 100 mil convertidos em rublos nesses encontros, mas estranhamente a CIA não entendia como o espião gastava o dinheiro.

Abril/1985

A captura
Os russos foram brutalmente eficientes na prisão. A equipe da KGB liderada pelo baixinho e enérgico Vladimir Sharavatov pegaram o cientista na calma rua Rogachevskoie Shosse, próxima a sua casa de campo, a 25 km de Moscou. Tolkachev não ofereceu resistência. Sharavatov lhe inseriu uma corda entre os dentes para impedi-lo de morder alguma pílula de veneno. Foi arrastado para um ônibus sem janelas, onde foi despido e vestiram-lhe uma roupa esportiva azul.

13/Junho/1985

O interrogatório
Logo que amanheceu o dia, o diretor da KGB, Rem Krassilnikov, resolveu ouvir Tolkachev mais uma vez. O desanimado e cansado cientista ficara em isolamento total desde a prisão, mas pacientemente confessou tudo, repassando todos os detalhes de como se encontrava com os americanos em Moscou.

Segredo e vida pacata
Seu trabalho de espião era um segredo só seu. Nunca o compartilhou com qualquer pessoa, nem mesmo com a esposa, Nathalia, e o filho, Oleg. Viviam uma vida de relativo conforto no número 1 da rua Ploshchad Vosstaniya. O prédio de apartamentos construído no governo de Stálin era semelhante a um bolo de noiva, destinado à bem tratada elite soviética que habitava o Anel Jardim de Moscou.

Motivação
Tolkachev escondia um ódio profundo pelo sistema soviético, que nutria pelo modo como os russos haviam tratado a família de sua esposa, Nathalia. A mãe de sua mulher havia sido executada pelo regime stalinista em 1938 e o pai dela ficou muito tempo num campo de trabalhos forçados, morrendo logo depois que conseguiu liberdade, em 1955.

Jan/1977

Primeiros contatos
Ideologicamente convicto de ser um espião, Tolkachev procurou os americanos. Na primeira abordagem foi a um posto de gasolina reservado aos diplomatas, aproximou-se de um carro da embaixada americana, atirou um bilhete dentro do carro e afastou-se. Foram mais 6 bilhetes até a CIA acreditar que era um voluntário confiável. Em sua última investida, correu riscos ao abordar o mordomo italiano da embaixada.

As cópias

De posse de máquinas fotográficas em miniatura 35 mm, T-50 e T-100, fornecidas pelos americanos, Tolkachev passou a entregar sacolas cheias de rolos de fotos de documentos do Escritório de Projetos Aeronáuticos. Embora o russo não tivesse gabinete próprio no instituto, ele fotograva a papelada em sua mesa com outros colegas de trabalho por perto. Para disfarçar, colocava livros em sua volta para poder tirar as fotos sem ser notado.

Jan/1979

Primeira entrega

Seu primeiro contato visual com o agente da CIA John Guilser foi no parque Gorky. E entregou extensas notas manuscritas sobre avançados sistemas de radar chamados “faça fogo ao ver”.

Janeiro 1979/1995

O que entregou
A produção de Tolkachev era farta e periódica. Num único encontro, por exemplo, entregou 174 rolos de filme com 36 fotos cada. Entre os segredos que entregou aos americanos estavam projetos de eletrônica aeronáutica, radar, mísseis e sistemas de armamentos dos caças Mig-23, Mig-25, Su-27 e do avançado Mig-29, a última cartada tecnológica dos russos no final da Guerra Fria.

Os pagamentos pessoais
Os americanos atendiam pedidos de Tolkachev, como remédios para si e livros como o proibido Arquipélago Gulag, de Alexandre Solzhenitsin, romances de escritores russos como Turgenev e Pushkin. Pediu discos do Led Zeppelin, Beatles e Uriah Heep, coisas muito difíceis de encontrar em Moscou. O material era gravado em cassetes da Europa Oriental para evitar suspeitas.


Queimando dinheiro

Tolkachev fazia questão de receber dinheiro, pois achava que só assim os americanos valorizavam seu trabalho. Mas ironicamente queimava em sua lareira milhares de dólares e rublos para não levantar suspeitas de enriquecimento. O máximo que fez foi comprar um carro pela primeira vez na vida, um simples Zhiguli, um Fiat fabricado na URSS.

22 de Outubro de 1986

Sua morte
Mais de um ano após sua prisão em Lefortovo, a agência oficial de comunicação soviética Tass divulgou um comunicado sobre sua execução em 22 de outubro de 1986. Morria Adolf Tolkachev, o mais rentável espião dos americanos, um homem convicto de seu ódio ao sistema.