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O pai do palito de dentes (e da necessidade de usá-lo)

Inspirado pelo sorriso das brasileiras, o americano Charles Forster inundou o mundo com palitos de dentes. Difícil foi convencer as pessoas a comprá-los

Por Ayrton Mugnaini Jr. 29 fev 2008, 22h00 • Atualizado em 2 mar 2017, 19h01
  • Um dos mantras do capitalismo é “criar dificuldades para vender facilidades”. Nem sempre é fácil. Pegue-se, por exemplo, a necessidade de manter os dentes livres de sujeira, fiapos e outros resíduos nojentos. Para resolver esse problema prosaico, a humanidade passou a maior parte de sua história se virando com gravetos, espinhos, ossos e lascas de bambu. Diante da oferta de gêneros tão variados – muitos até gratuitos –, como alguém nos convenceu de que precisávamos comprar um apetrecho específico para a higiene bucal?

    A resposta: com propaganda em quantidade e qualidade. Abusando desse ingrediente, o americano Charles Forster tornou-se o primeiro fabricante de palitos de dentes em escala mundial. Durante uma viagem a Pernambuco (dê uma olhadinha nos Grandes Momentos, aqui embaixo), ele ficou fascinado pelos belos dentes das brasileiras. O segredo é que elas faziam a higiene bucal usando palitos de salgueiro, uma árvore de galhos longos e finos (escovas de dentes já existiam, mas seu uso ainda era muito recente e pouco divulgado).

    Percebendo que poderia monopolizar um mercado que nem existia, Forster contratou um inventor para criar uma máquina que produzisse lascas de madeira uniformes. Em 1870, sua fábrica já produzia palitos bons e baratos, a uma quantidade superior a 1 milhão por dia. Faltava vender aquela tralha toda. Sua tática foi tão engenhosa quanto simples: contratou rapazes e garotas estudantes da Universidade Harvard para irem comer no restaurante mais descolado de Boston, o Union Oyster House, e em seguida pedir em voz alta: “Por favor, palitos! Não tem? Mas como?” Depois de alguns dias, bela coincidência, Forster entraria no lugar oferecendo sua mercadoria. O cara não parava por aí: quando vendia um lote de palitos, o negociante mandava pessoas ir comprá-los. E aí os revendia novamente, aumentando ao mesmo tempo a oferta e a procura.

    Daí para o sucesso, com o perdão do trocadilho, foi dois palitos. Os produtos de Forster garantiram lugar em bares e restaurantes e fizeram dele um milionário. Depois de sua morte, em 1901, seu filho Maurice tomou as rédeas do negócio de palitos e mostrou-se tão habilidoso quanto o pai, chegando a comprar todo o estoque de alguns concorrentes. A empresa seguiu independente até 1992, quando se rendeu à onda de fusões e passou pelas mãos de diversos donos. Hoje, os palitos Forster pertencem ao conglomerado americano Jarden, mas não são mais feitos na velha fábrica no estado de Maine. Na caixinha atual, lê-se um made in China, escrito em letras miúdas.

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    Grandes momentos

    • O que Forster veio fazer no Brasil? Nas décadas de 1840 e 1850, ele vinha pra cá direto. Sua função era cuidar dos negócios de um tio – uma firma de importação e exportação de móveis.
    • Nos festejos do centenário da independência americana, em 1876, ele percorreu cidades distribuindo caixas de palitos ao público.
    • No auge de sua produção, as indústrias de Forster chegaram a ter 700 funcionários trabalhando em 4 fábricas, produzindo cerca de 20 bilhões de palitos a cada ano.

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