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O primeiro dia da História

Descobertas arqueológicas de textos no Egito e no Paquistão põem em dúvida a crença de que a escrita tenha surgido primeiro na Mesopotâmia.

Denis Russo Burgierman

Tudo começou quando um homem empunhou um graveto para rabiscar sinais numa placa de argila ainda mole. Depois que a peça endureceu, ele leu os riscos que havia feito como letras de uma palavra – a primeira escritura produzida pela humanidade. Nesse instante, terminou a Pré-História, nome que se dá ao período anterior à invenção da escrita, e começou a História.

Até o ano passado, acreditava-se que esse momento de transição teria ocorrido há cerca de 5 000 anos, na Mesopotâmia, atual Iraque. A região era ocupada pelos sumérios, que já cavavam canais de irrigação para fazer agricultura em grande escala. “Depois que aprenderam a controlar a produção de alimentos, eles foram os primeiros a se agrupar em cidades com uma administração central. Isso os forçou a criar um modo de organizar a sociedade”, conta o maior especialista brasileiro em escrita mesopotâmica, Emanuel Bouzon, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. “Para tanto, aprenderam a escrever antes que os outros.”

Desde o ano passado, porém, a história da escrita está sendo reescrita. Novos achados arqueológicos, a milhares de quilômetros dos sumérios, sugerem que a idéia ocorreu a diversos povos ao mesmo tempo. Um deles foi anunciado no Egito, em dezembro de 1998, pelo arqueólogo Günter Dreyer, do Instituto Arqueológico Alemão. Escavando uma tumba real na margem do Nilo, em Abidos, ele desenterrou 180 placas de barro com formas rudimentares de hieroglifos, a escrita dos faraós. Elas podem ter sido gravadas há até 5 400 anos – três séculos antes das sumérias.

Em maio de 1999, os americanos Jonathan Kenoyer, da Universidade de Wisconsin, e Richard Meadow, da Universidade Harvard, jogaram ainda mais lascas na fogueira. Encontraram, no atual Paquistão, pedaços de vasos com garranchos modelados há 5 300 anos pelo povo dravda, os construtores de Harappa, umas das grandes cidades da Índia antiga.

Ainda não há consenso sobre as descobertas. “Mas a importância dos achados é incontestável”, afirma à SUPER o egiptólogo John Baines, da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ele desconfia que os manuscritos egípcios não são mais antigos que os mesopotâmicos. Apesar disso, indicam que a arte de registrar palavras por sinais estava sendo desenvolvida em mais de um lugar na mesma época. Os grafites paquistaneses, embora também contestados, reforçam essa conclusão. O dia mais importante da História tanto pode ter acontecido às margens do Nilo quanto no deserto iraquiano ou, ainda mais longe, nos vales da Ásia.

Em busca do texto perdido

Nenhum dos sinais gráficos encontrados no final do ano passado no Egito ou na Índia pode ser lido ou interpretado ainda. Ninguém sabe exatamente o que querem dizer. Mas está claro que não são meros desenhos. Os cientistas não têm dúvida de que representam, realmente, palavras gravadas na argila. No caso dos símbolos egípcios, é possível imaginar até que teriam sido proto-hieroglifos, ou seja, precursores dos hieroglifos – a escrita que usa figuras estilizadas no lugar das letras, adotada pelos faraós. Desde 1822, graças à descoberta da Pedra da Rosetta (veja na página 57), é possível traduzir as frases hieroglíficas, que, de fato, lembram as marcas recém-encontradas perto do Rio Nilo, inscritas em 180 retângulos de barro secos ao sol.

Cada placa retangular mede 3 centímetros de altura por 2 de largura e tem um furinho no canto, como se fosse uma etiqueta moderna. Assim, podiam ser penduradas num vaso por meio de um cordão. Foram achadas, junto a cacos de cerâmica, no túmulo de um soberano chamado Escorpião. Na sua época, o Egito ainda não era um império unificado. Escorpião era o mandachuva de um dos vários reinos independentes. O posto de faraó ainda não existia.

“As placas contêm uma grande variedade de sinais e, pela maneira como estão dispostas, deduzimos que formam palavras”, diz Dreyer. O egiptólogo brasileiro Antonio Brancaglion, da Universidade de São Paulo, que já foi a Abidos e sabe ler hieroglifos, concorda com o alemão. “Os sinais já se parecem com os que seriam usados séculos depois. Reconheci vários deles.” Brancaglion especula que as etiquetas serviriam para identificar a cidade de origem de mercadorias possivelmente guardadas nos vasos de cerâmica. Também poderiam ser uma espécie de recibo para indicar quais cidades já teriam pago tributo ao rei morto.

O problema com as descobertas feitas no Paquistão é mais complicado. Primeiro porque, ao contrário dos hieroglifos, a língua do povo dravda, que habitou a Índia e o Paquistão naquele período, não foi decifrada até hoje. Quase nada se sabe sobre a sua cultura, o que torna ainda mais difícil identificar e compreender os achados. Os restos arqueológicos recém-descobertos não ajudam muito. Na verdade, não passam de cacos de cerâmica que Richard Meadow e Jonathan Kenoyer tiraram das ruínas da cidade de Harappa, a mais importante daquela região, no passado. Dois dos fragmentos têm 5 300 anos. Os outros, cerca de 5 000 anos.

Por um galho

Os americanos se intrigaram com um símbolo gravado nos estilhaços. Trata-se de uma imagem semelhante a um galho, ou a um tridente, que já havia sido vista em peças que integram textos bem mais recentes da civilização harapana, de 2 500 a.C., que se supunham os mais antigos da Índia até então. É esse rabisco em forma de ramo que a dupla de arqueólogos acredita ser a mais antiga mensagem gravada pela civilização indiana-paquistanesa. Talvez a mais antiga do mundo se a datação das inscrições de Abidos não for comprovada.

Muita gente discorda. “Eu não acredito que a ‘escrita antiga’ deles sequer seja escrita”, demole Gregory Possehl, da Universidade da Pensilvânia. “São simples símbolos isolados, que não têm significado e não se combinam.” A crítica é pesada. Mas não desanima a equipe de Harappa. “Achamos que ainda vamos conseguir evidências mais firmes, talvez no próximo ano”, disse à SUPER o americano Kenoyer, por telefone. “Ainda temos 90% da cidade para escavar. Isso é só o começo”, afirma. Como ninguém jamais pesquisou períodos tão antigos de Harappa, a chance de êxito é boa.

Quem foi o primeiro?

As primeiras escritas do planeta surgiram quase ao mesmo tempo, mas apresentam características muito diferentes.

Mesopotâmia

Bem antes de escreverem com caracteres cuneiformes (feitos por cunhas ou estiletes), os sumérios contavam usando fichinhas desenhadas. Dez fichas com cabeça de carneiro significavam um rebanho de dez carneiros. Esse sistema precursor da escrita reforça a idéia de que foram eles os primeiros escribas.

Egito

Até o ano passado, todos os hieroglifos conhecidos eram tão complexos, e não havia sinal de uma grafia mais primitiva, que alguns historiadores achavam que eles não haviam sido inventados no Egito, mas importados prontos. Teriam sido apropriados dos mesopotâmicos e aperfeiçoados. Mas a descoberta dos textos de Abidos enfraquece essa tese.

Índia

A primeira língua da região é totalmente desconhecida, porque foi suprimida por invasores no terceiro milênio antes de Cristo. Restaram só os cacos encontrados nas duas principais cidades da região, Harappa e Mohenjo Daro. Por isso, é muito difícil estudar e traduzir a escrita dravda.

“Dá para ver claramente que há símbolos conectados nos vasos. Não tenho dúvidas de que é escrita e a mais antiga já encontrada. É um dos achados mais importantes dos 23 anos em que trabalho na região.”

Jonathan Kenoyer (à esquerda) e Richard Meadow (à direita), arqueólogos americanos que encontraram as inscrições dravdas no Paquistão.

“Quando abrimos o túmulo achamos belas e muito interessantes etiquetas. Mas, só depois de meses no laboratório estudando seu significado e determinando a datação, percebi que era a descoberta mais emocionante desde que comecei a escavar no Egito, em 1973. Seus sinais são muito complexos e não tenho dúvidas sobre a idade.”

Günter Dreyer, do Instituto Arqueológico Alemão do Cairo, que achou textos arcaicos em Abidos, Egito.

Ninguém gosta de perder dinheiro

Escrever, para os egípcios antigos, era uma ação nobre. Eles acreditavam que a palavra falada era criadora e que as letras haviam sido inventadas pelos deuses com a função sagrada de perpetuar a construção do Universo, que nunca termina. Cada sentença registrada em pedra ou papiro, a cada novo dia, era um pouco do Cosmo nascendo.

Mas os arqueólogos contemporâneos estão descobrindo que as letras surgiram por um motivo bem mais mundano: grana. Até recentemente, as inscrições egípcias mais antigas conhecidas louvavam deuses e os faraós. Mas não as peças desenterradas em Abidos. “Tudo indica que a função das etiquetas nos vasos era a de administrar a circulação de produtos e o pagamento de tributos”, diz Dreyer.

Já se suspeitava que a economia estava por trás também dos primeiros textos da Mesopotâmia. “Desde o começo, eles ajudaram na administração do governo”, diz Emanuel Bouzon. As mais antigas tábuas de argila sumérias trazem anotações de quantidades de produtos (veja a foto à esquerda). Bouzon explica que elas apareceram justamente quando surgiram as primeiras cidades, como Uruk, no atual Iraque, que é do quarto milênio antes de Cristo. “Aí, tornou-se necessário um funcionário que registrasse tudo para contabilizar a produção e distribuí-la entre os cidadãos.” Com a agricultura, o homem abandonou o nomadismo e sedentarizou-se, criando aldeias permanentes que deram origem a cidades e novas relações comerciais e sociais.

Ou seja, a escrita foi inventada para organizar uma sociedade que se tornou complexa. O achado de Dreyer confirma isso – a unificação do grande império dos faraós se deu só dois ou três séculos depois do reinado de Escorpião, onde já havia proto-hieroglifos. “Quanto mais antigas as inscrições, torna-se mais claro que elas surgiram simultaneamente à civilização das cidades”, diz Brancaglion. No caso da Índia, fica difícil afirmar, porque ninguém ainda entende o significado das possíveis letras. Mas também lá as datas coincidem com o aparecimento dos primeiros centros urbanos.

Será coincidência?

Isso explica por que povos tão distantes acharam soluções tão parecidas. “Eles chegaram à mesma idéia ao mesmo tempo porque tinham as mesmas necessidades”, especula Bouzon. Só que nem todos os pesquisadores concordam. “A idéia de escrever pode ter sido transmitida”, diz o egiptólogo Baines. “Não que um povo tenha copiado a escrita do outro em detalhes. Afinal não há nenhum sinal em comum entre eles. Mas acho que há conexões entre os sistemas da Mesopotâmia, do Egito e da Índia.” Comerciantes que cruzavam os desertos da Ásia em caravanas podem ter visto a novidade, achado bacana e contado a alguém em casa.

Alguns séculos depois, no terceiro milênio antes de Cristo, os antigos perceberam que a nova ferramenta, além de facilitar as contas, era o melhor jeito de se dirigir aos deuses, guardar a História e fazer poesia. Daí para os livros sagrados, papiros, enciclopédias, CD-ROMs, jornais e revistas, como a SUPER, foi só um passo.

Para saber mais

Lendo o Passado, J.T. Hooker (org.), São Paulo, Edusp, 1996.

NA INTERNET

http://www.harappa.com

Os três berços da escrita

Um pouco antes de 3 000 a.C., três povos aprenderam simultaneamente a registrar suas idéias com marcas feitas em tijolos de argila.

1. Egito, 3 400 a.C.

Em dezembro de 1998, o alemão Günter Dreyer surpreendeu o mundo com fotos de 180 etiquetas de barro com inscrições feitas por egípicios há pelo menos 5 400 anos. Encontrou-as em Abidos, na beira do Rio Nilo, 400 quilômetros ao sul do Cairo, na tumba de um rei chamado Escorpião. Até então, os mais antigos hieroglifos do Egito eram de, no máximo, 5 000 anos.

2. Mesopotâmia, 3 100 a.C.

Antes de Dreyer, a escrita mais arcaica era a das tábuas de argila do povo sumério, encontradas em 1913, em Uruk, no atual Iraque. Não há uma que possa ser considerada a mais antiga de todas, já que as datações não são confiáveis. Mas, em geral, considerava-se o ano de 3 100 a.C., há 5 100 anos, como a data inaugural do uso da escritura na região e no mundo.

3. Índia, 3 300 a.C.

Já havia divergência e polêmica suficientes entre os especialistas antes de uma equipe americana encontrar em Harappa, na antiga Índia, atual Paquistão, em maio de 1999, este caco de 5 300 anos. Os arqueólogos alegam que estes símbolos com forma de tridente usados pelo povo dravda aparecem, também, em textos mais recentes (de 2 500 a.C.) dessa cultura. Conclui-se que são “letras” da língua harappana.

A função do escritor

O autor dos primeiros registros provavelmente se parecia com um destes indivíduos.

Mesopotâmia

O escriba era o responsável pela distribuição dos bens da lavoura e dos rebanhos entre os cidadãos que não produziam comida. Com o tempo, isso foi lhes conferindo um poder imenso, principalmente porque ninguém mais, nem mesmo o rei, sabia decifrar os registros.

Egito

O primeiro escritor daqui também foi um comerciante ou funcionário do Estado. Depois, eles viraram uma classe de sábios, detentores do conhecimento. Pela lei egípcia, o faraó era necessariamente um escriba também.

Índia

Pouco se sabe sobre os escribas da antiga Índia. Os textos mais antigos foram gravados em vasos ou carimbados neles com ajuda de um molde. Isso indica que seus autores podiam ser artesãos ou comerciantes.

Faça as contas em sumério

O historiador Peter Damerow, do Instituto Max Planck, da Alemanha, traduziu esta tábua mesopotâmica de 3 000 a.C.

Uma bolinha seguida de jarrinhas indica frações de um pote de grãos, possivelmente cevada. Duas jarrinhas significam metade; três, 1/3; quatro, 1/4 e assim por diante.

Aqui o escriba queria escrever a fração 1/2, mas errou. Em vez de desenhar uma bolinha, fez uma tijela grande (o número 1) seguido por dois jarrinhos. Será que deu confusão?

Este é o número 5 seguido da expressão pote de cerveja. A tábua traz receitas para fazer a bebida, cujo registro era provavelmente uma função administrativa de um funcionário do Estado.

Esta é a palavra “grande”. Junto com os dois símbolos anteriores, quer dizer: “5 potes grandes de cerveja”

Este é um número bem complicado. O símbolo à esquerda significa 1 200 (dois números 60, somados, com uma bolinha no meio, que indica multiplicação por 10). Os outros dez pequenos símbolos são números 60 (10 vezes 60 é igual a 600). A soma de tudo, portanto, é 1 800. Difícil, não?

Chineses e maias também inventaram letras

Ao longo da História, a escritura surgiu no Extremo Oriente e na América.

3 200 a.C.

Surgem os primeiros escritos, no Egito, na Índia ou na Mesopotâmia. A maioria dos pesquisadores tende a aceitar esta última como o berço inaugural, mas a confirmação das novas descobertas pode mudar tudo.

1 500 a.C.

Não há registro de que os chineses tivessem qualquer contato com as escritas do Oriente Médio. Mesmo assim, eles criaram seu próprio sistema, totalmente diferente, e depois o transmitiriam ao Japão.

300 a.C.

Sem contato com a Ásia e a Europa, os olmecas, zapotecas e maias, do México e da América Central, criaram sua própria forma de registrar. Usavam muitas figuras e poucas letras. A tradução dessas línguas está longe de ser completada.

A pedra que desvendou o Egito

Há 200 anos, uma fantástica descoberta chamou a atenção da ciência para as escritas antigas. Em 1799, durante a ocupação do Egito pelas tropas francesas do imperador Napoleão, um tenente do Exército comandava a demolição de um muro na cidade de Rashid, chamada de Rosetta pelos europeus. Estava cavando uma trincheira mas acabou desenterrando uma pedra com três escrituras diferentes.

Na Pedra de Rosetta grafou-se um mesmo decreto real do ano 196 a.C. em hieroglífico, em demótico egípcio (a língua dominante entre os séculos V e VII a.C.) e em grego antigo. Comparando os sinais já conhecidos dessas duas últimas, decifraram-se os até então misteriosos hieroglifos. O historiador francês Jean-François Champollion (1790-1832) levou 23 anos para dar conta da missão, em Paris.

Hieroglifo

Até 1822, ninguém fazia idéia de como traduzir esses estranhos sinais.

Demótico egípcio

Inventado pelos gregos, é um modo mais simples de escrever em egípcio.

Grego

Comparando figuras do egípcio com palavras já conhecidas em grego, o mistério foi desfeito.