GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

O tesouro de Tróia

Ricardo Arnt

Em 1873, um tesouro de 4 500 anos foi descoberto em Tróia, na Turquia. Em 1945, ele desapareceu, em Berlim. Agora, ressurgiu em Moscou, reabrindo a controvérsia sobre a pré-história grega e a lenda do Cavalo de Tróia. A ciência já descobriu que partes do mito são muito, muito reais.

Derretendo a geladeira da história

Quando os soviéticos avançaram sobre a Alemanha nazista em 1945, os soldados encontraram, no subsolo do Jardim Zoológico de Berlim, onze caixas de madeira do Museu de Pré-História e História Antiga. Dentro, bem embrulhadinhas, havia 259 relíquias descobertas pelo arqueólogo Heinrich Schliemann em 1873, em Tróia, na Turquia. Um tesouro de jóias, estátuas, armas, taças, ânforas (vasos com duas alças) e urnas de ouro, prata e bronze, de 4 500 anos de idade, que Schliemann batizou como o “Tesouro de Príamo”, atribuindo-o ao personagem que aparece como rei de Tróia no poema Ilíada, de Homero.

Secretamente, tudo foi empacotado de novo e enviado para Moscou. Durante cinqüenta anos, as jóias ficaram escondidas no porão do Museu Pushkin, para evitar pedidos de repatriação. Na verdade, entre 1945 e 1947, 200 000 objetos de arte, 2 milhões de livros e 3 quilômetros de arquivos, segundo os alemães, foram expropriados pelos soviéticos, como indenização de guerra, e transferidos para a Rússia. Com o fim da guerra fria e a liberalização política, criou-se o clima para descongelar a história. Em 1994, finalmente, o Museu Pushkin exibiu o acervo de livros que pertencia originalmente ao Museu do Livro de Leipzig, na Alemanha (veja Os livros que Stalin roubou de Hitler, número 8, ano 9). Agora, chegou a vez do tesouro mitológico de Tróia.

Desde 16 de abril, a mostra O Ouro de Tróia está exposta ao público e especialistas. Uma ala inteira do Pushkin foi reformada e equipada com ar condicionado, alarmes e caixas de vidro. Pesquisadores da Inglaterra, da Grécia, da Turquia, da Alemanha e dos Estados Unidos ajudaram a identificar e a catalogar as peças.

Entretanto, fora os russos, ninguém está contente. A Alemanha quer seu patrimônio cultural seqüestrado de volta, e recusou o empréstimo de outros itens de Schliemann à exposição. A Turquia, que não se recuperou até hoje da perda do tesouro, mandou comunicados a Berlim e a Moscou reivindicando a posse de tudo. E a Grécia, que, afinal, conquistou Tróia, também reivindica direitos sobre os bens – que os russos não pensam em ceder. Haja complicação.

O primeiro pop star da Arqueologia

Em 1870 o europeu culto acompanhou a descoberta de Tróia pelos jornais com emoção comparável à dos americanos que assistiram à chegada do homem à Lua pela TV, em 1969. Vinte anos depois, quando Heinrich Schliemann (1822-1890) morreu, houve luto oficial na Alemanha. Reis foram ao seu funeral.

Schliemann era um menino pobre, deslumbrado com a Grécia e com a imaginação incendiada pela visão de Tróia em chamas, cantada por Homero, na Ilíada. Acreditava que o poema tinha fundamento histórico. Por isso, depois de ter enriquecido comprando ouro na Califórnia e vendendo pólvora na Guerra da Criméia (1853-1856), aposentou-se com 46 anos e dedicou o resto da vida (e a fortuna) a realizar sua fantasia. Foi o primeiro Indiana Jones da Arqueologia.

Em 1868, depois de estudar os clássicos e Arqueologia em Paris, anunciou que Tróia não estava onde todos a procuravam, em Bunarbashi, na Turquia, e sim na colina de Hissarlik (veja mapa na página 43), onde o inglês Frederick Calvert escavara solitariamente. Em 1871, comprou o monte todo, empregou 180 trabalhadores e começou a cavar – com muita energia e pouca ciência. Convencido de que a cidade homérica estava no fundo, rasgou a colina de alto a baixo, destruindo boa parte das camadas arqueológicas superiores. Mas foi achando milhares de objetos de épocas e culturas diferentes. Em 1873, a 8,5 metros de profundidade, encontrou restos de uma cidade antiquíssima. Catalogou 8 830 objetos descobertos (… sim, ele contava cada conta de um colar como um item), identificou sete Tróias de diferentes períodos, proclamou Tróia 2 como a cidade da Ilíada e, num gesto quase teatral, atribuiu as jóias a Príamo – sem a menor evidência de que o rei tivesse existido.

Foi uma sensação. E um escândalo. Muitos especialistas rechaçaram seu trabalho e muitos o saudaram com assombro. O público europeu, sobretudo, maravilhou-se – motivado, especialmente, pelas notícias românticas das descobertas que o próprio Schliemann escrevia para os jornais.

Em 1874, começou outra escavação, em Micenas, na Grécia. Em dois anos, desenterrou outro tesouro e seis túmulos, com dezesseis corpos adornados, entre os quais identificou nada menos que os de Agamenon e Clitemnestra, o rei e a rainha que convocaram a guerra contra Tróia – sua velha idéia fixa. Erro grosseiro.

Em 1883, voltou a cavar em Hissarlik com a credibilidade reforçada pela companhia de antropólogos e arqueólogos. Entre eles, Wilhelm Dörpfeld que reorganizou a estratografia de toda a escavação (a descrição e identificação das camadas).

Depois da morte de Schliemann, Dörpfeld encontrou nove Tróias diferentes, em vez de sete. E corrigiu a datação das jóias para 2500 a 2200 a.C., indicando Tróia 6 como a cidade homérica. Em 1932, o arqueólogo americano Carl Blegen reviu tudo, outra vez, e definiu Tróia 7 como a lendária (veja as várias Tróias na página 42).

Schliemann errou muito, mas descobriu Tróia e ampliou sua história até a Idade do Bronze (300-1000 a.C.). Além disso, descobriu a civilização de Micenas (1600-1200 a.C.). E, antes de morrer, apontou para a civilização minóica, em Cnossos (3000-1100 a.C.), na Ilha de Creta, onde pretendia escavar, e que foi achada dez anos depois. Era muito mais do que um amador. Foi um visionário e um pioneiro.

A arte na vanguarda da ciência

Carl Blegen, o arqueólogo da Universidade de Cincinnatti que, em 1932, identificou Tróia 7 como a cidade homérica, não tinha dúvidas. No século 13 a.C., uma coligação de aqueus, gregos da civilização micênica, atacou os eólios de Tróia, instalados na costa asiática do Mar Egeu, aliados dos hititas. Mais ou menos como Homero conta.

A Ilíada tem 24 cantos e 15 537 versos, em parte compilados e em parte compostos por Homero, por volta do ano 750 a.C. Sabe-se muito pouco sobre esse poeta-cantor que a tradição dava como cego e que recitava improvisando, acompanhado pela lira. Aceita-se que tenha vivido entre 700 e 800 a.C., na Ilha de Chios, perto da Turquia (200 quilômetros ao sul de Tróia), e que tenha fixado na escrita pelo menos partes da Ilíada, assim como partes do outro clássico atribuído a ele, a Odisséia.

Historicamente, a Ilíada é duvidosa. Os traços que apresenta da civilização micênica, na Idade do Bronze, como arquitetura, rituais, roupas, costumes funerários e armaduras, na verdade pertencem à Idade do Ferro, à cultura da época em que foi escrita, bem posterior. Por ser um poema, o historiador inglês Moses Finley não poupava críticas: “Não há prova consistente de que a colina de Hissarlik tenha abrigado a Tróia de Homero. Não há prova de que a guerra entre troianos e gregos tenha sequer acontecido. Para mim, a Guerra de Tróia deve ser retirada dos livros de história”.

Os especialistas notam que não há referências à grande guerra nos textos dos povos vizinhos contemporâneos, hititas, sírios e persas. Mas há nos gregos. E essa pode ser uma falsa questão, pois as descobertas arqueológicas mostraram que, por volta do século 13 a.C., muitas cidades-Estado foram destruídas por povos vindos do norte sem que se saiba quem eram. Nem por quê.

Volta e meia aparecem novas pistas. Em 1985, por exemplo, o lingüista Calvert Watkins, da Universidade Harvard, anunciou ter descoberto referências à guerra em textos de uma extinta língua do tronco hitita, na Turquia oriental.

Há também arqueólogos, como o alemão Franz Stephan, que acreditam no conflito sem tomar Homero ao pé da letra. Para ele, os gregos precisavam tirar os troianos da entrada do Estreito de Dardanelos para controlar o comércio com o Mar Negro. O ataque teria sido apenas uma operação de rapina, entre as muitas que os aqueus fizeram contra os rivais.

Se o episódio deixou uma marca profunda na memória ocidental foi porque encontrou em Homero um artista capaz de transformá-lo em um poema eterno. A Ilíada é arte, não é ciência. Da mesma forma, a novela Canção de Rolando sintetiza a França medieval mas ninguém a considera como documento histórico. Idem O Guarani, de José de Alencar, que dramatiza a história dos índios brasileiros mas está longe de ser um ensaio antropológico.

Em Tróia, a arte andou à frente da ciência. Foi o fascínio pela Ilíada que levou Schliemann a Hissarlik. Mas o poema é histórico ao retratar o tempo em que predominava um estado de guerra tribal constante na Grécia, como foi o período das migrações indo-européias. Além disso, transmite o ideal de glória dos gregos, medido por coragem, heroísmo e altivez na luta. Nas batalhas da Ilíada, os homens se portam com dignidade sobre-humana, quase divina. Não é à toa que os deuses participam do enredo da história. Homero foi o grande educador da Antigüidade, sem rival até o Cristianismo. Os ideais que formou nos inspiram até hoje.

PARA SABER MAIS

Ilíada, Homero, Tradução Carlos Alberto Nunes, Ediouro, São Paulo, 1996.

Schliemann of Troy: Tresure and Deceit, David Traill, University of California Press, 1995.

The Golden Treasures of Troy, Archiv für Kunst und Geschichte, Berlin. Abrams, New York, 1996

Tróia e os troianos, Carl W. Blegen, Editorial Verbo, Lisboa, 1971.

À Procura dos Mundos Perdidos, Henri-Paul Eydoux, Edições Melhoramentos e Edusp, São Paulo, 1967.

Jóias de 4 500 anos

O trabalho dos ourives do ano 2500 a.C. era primoroso.

Detalhe sutil

Prendedor de cabelo de ouro, em forma de anel espiral

Ostentação

Bracelete de ouro, com 12 centímetros de diâmetro

Um tesouro inestimável

As jóias atribuídas ao rei Príamo na verdade são 1 500 anos anteriores à Ilíada.

Adornos finos

Diadema de 56 centímetros de largura, com centenas de placas de ouro, e brincos de 200 gramas, de ouro

Minerais nobres

Cabos de cetros, com 28 centímetros de comprimento cada, de lápis-lazúli (azul) e jade (verde), com os números feitos por Schliemann

Banquete real

Taça de ouro, com 20 centímetros de comprimento, com alças laterais

Luxo só

Gargantilhas compostas de peças de ouro de variadas formas, feitas à mão, sem moldes

Divindade

Estatueta de bronze, de 15 centímetros de comprimento, usada em culto religioso

As nove Tróias da colina de Hissarlik

Esquisas arqueológicas indicam que a cidade descrita por Homero foi a sétima Tróia.

Tróia, hoje

Em meio a ruínas e turistas, o arqueólogo alemão Manfred Korfmann, da Universidade de Tübingen, dirige a pesquisa arqueólogica atual.

Tróia 9 (85 a.C.-400 d.C.)

Cidade romana, rebatizada de Ilíon, com vastos teatros e templos. Seus habitantes orgulhavam-se de descender dos troianos lendários retratados por Homero e já vendiam souvenirs do Cavalo de Tróia.

Tróia 6 (1870-1700 a.C.)

Reocupada por um novo povo migrante, que tinha o cavalo como meio de transporte, possuía uma grossa linha de muralhas, de tijolos sobre pedras, com torres, e um fosso, característica mais dos povos orientais do que dos gregos. Tinha ruas estreitas, casas com piso, área construída de 200 000 metros quadrados e cerca de 6 000 habitantes. Dörpfeld indicou-a como a cidade da Ilíada. Mas foi um terremoto, e não o fogo, que a destruiu.

Tróia 3 (2450-2200 a.C.)

Tróia 4 (220 -2000 a.C.)

Tróia 5 (2000-1870 a.C.)

Nesses períodos, a cidade foi menos luxuosa. Abaixo das muralhas, ao sul, se desenvolveram bairros pobres.

Tróia 2 (2600-2450 a.C.)

Era uma cidade poderosa, com sólidas muralhas e cultura refinada, à qual pertencem as jóias encontradas por Schliemann. Há sinais de que foi destruída por fogo. Schliemann identificou-a como a Tróia homérica e as jóias como o “ Tesouro de Príamo”, o rei troiano da Ilíada.

Tróia 1 (2900 a.C.)

Foi construída por um povo de origem desconhecida, cujos cemitérios não foram encontrados. Era uma cidade modesta, mas fortificada, de casas quadrangulares com alicerces de pedra. Suas cerâmicas são comparáveis àquelas do mesmo período encontradas nas ilhas do Mar Egeu.

Tróia 8 (800-85 a.C.)

Cidade grega, pouco habitada, contemporânea do apogeu de Atenas, da expansão de Alexandre, o Grande e do surgimento do poema Ilíada.

Tróia 7 (1250-1020 a. C.)

Depois de sucessivas reconstruções e abandonos, surgiu uma cidade menos opulenta que Tróia 6, que acabou destruída por um grande incêndio. Suas ruínas mostram traços de devastação e cadáveres mortos com violência. Carl Blegen identificou-a como a cidade homérica.

Um estado de guerra constante

Tróia estava cercada por civilizações e vizinhos belicosos.

Europeus da Idade do Bronze

Gregos

Cretenses

Tróia

Egípcios

Hebreus

Hititas

Fenícios

Assírios

A fúria dos deuses

Traição, fofoca e astúcia divinas desfilam na Ilíada.

A Ilíada é uma sucessão de batalhas sangrentas no décimo e último ano do cerco de Tróia pelos gregos, que termina com a destruição da cidade. Em meio à luta, rememora-se que o príncipe troiano Páris, filho do rei Príamo, foi chamado a decidir qual das deusas – Hera (esposa de Zeus), Afrodite (deusa do Amor) ou Atena (a Sabedoria) – merecia a maçã (pomo) de ouro dedicada “à mais bonita” pela deusa Éris (a Discórdia). Daí a expressão “pomo da discórdia”.

Em troca da vitória, Afrodite oferece a Páris o amor da “mulher mais bela do mundo”, Helena, a esposa de Menelau, rei de Esparta – e vence o concurso, é claro. Páris vai para a Grécia onde seduz e rapta a fatal Helena. Para resgatá-la, os gregos reúnem tropas de várias cidades, sob o comando de Agamenon, irmão de Menelau, e atacam Tróia.

A luta dura dez anos. Tróia resiste. Os deuses se dividem: Hera, Atena e Poseidon (deus do mar) apóiam os gregos. Afrodite, Apolo (deus do sol) e Ares (deus da guerra) apóiam os troianos. Ulisses e Aquiles são os heróis gregos e os irmãos Heitor e Páris os heróis troianos.

No final, com ajuda de Atena, os atacantes constroem um grande cavalo oco de madeira, o Cavalo de Tróia, escondem guerreiros no seu interior e o abandonam em frente à cidade, fingindo bater em retirada. Os troianos trazem o troféu para dentro das muralhas e, à noite, os gregos saem, abrem os portões, invadem e destroem a cidade. Foi o Cavalo de Tróia que consagrou a expressão “presente de grego”.