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Os Malditos – O homen que odiava as mulheres

Cardeais do Vaticano, rei Luís 15 da França, Rousseau e uma legião de mulheres; todos admiravam Casanova, até que ele desse suas mancadas

Texto Álvaro Oppermann

Não era fácil ser um sedutor no século 18, aprendeu aos 16 anos Giacomo Girolamo Casanova de Seingalt (1725-1798). Casanova tinha acabado de se formar em direito quando virou amigo do senador Alvise Malipiero, 60 anos mais velho. O senador se tornou seu protetor, ensinou-lhe a apreciar a boa música e degustar os bons vinhos, mas sobretudo conquistar o sexo feminino.

“A tentação, nos homens, entra pelos olhos. Mas, nas mulheres, ah, ela entra pelo ouvido”, dizia Malipiero. O sedutor tinha de oferecer garantias às mulheres: ou a proteção econômica (o senador era notório mão-aberta com as amantes) ou então o sigilo absoluto.

Casanova aprendeu direitinho parte da lição. Trocou beijos com a amante do senador. Depois, levou para a cama duas irmãs de 14 e 16 anos, amigas dos Malipiero. Apenas se esqueceu do sigilo. Suas aventuras voaram aos ouvidos da sociedade veneziana. O senador, furioso, ameaçou matá-lo. E Casanova teve de fugir de Veneza.

Segundo o sexólogo americano Vern Bullough, diretor do Centro para a Pesquisa do Sexo da Universidade de Northridge, Casanova apresentava um quadro maníaco-depressivo e de psicopatia, e sua hipersexualidade lhe servia de válvula de escape. “O casanovismo está ligado quimicamente a baixos níveis do neurotransmissor monoamina oxidase, cuja falta está relacionada ao comportamento psicopático”, completa Bullough. Existe mais uma suspeita sombria: “Muitas das conquistas amorosas de Casanova, na verdade, podem ter sido fruto de estupro”, escrevem Georges Vigarello e Jean Birrell em History of Rape (“História do Estupro”, 2001, inédito em português).

Casanova tinha uma relação complexa com as mulheres. Sua mãe, a atriz Zanetta Farussi, vivia em turnês teatrais. Casanova pouco a viu na infância. Quanto ao pai, até hoje pairam dúvidas sobre a sua identidade. O romancista e ensaísta Stefan Zweig sustentou em seu livro Casanova uma tese polêmica: que na verdade o sedutor buscava nas mulheres um homem (veja ao lado). Não gostava das mulheres. Apenas do sexo com elas.

Expulso de Veneza, Casanova pulou de cidade em cidade. Trabalhou como escrivão no Vaticano, onde fazia as cartas amorosas dos cardeais, enviadas às amantes deles. Depois, foi jogador profissional. Tentou a carreira no Exército. De volta a Veneza, foi preso por atentado ao pudor. Em sua autobiografia, Casanova afirma que fugiu cavando um buraco no teto da cela. Já historiadores afirmam que escapou subornando um guarda.

Foi para Paris, onde ganhou um bom dinheiro passando-se por alquimista. Impressionou, entre outros, a madame de Pompadour e o filósofo Jean-Jacques Rousseau. Durante a Guerra dos 7 Anos (um evento que envolveu as maiores potências europeias), Casanova vendeu para o governo francês títulos do tesouro na Bolsa de Amsterdã, o grande centro financeiro da época. O rei Luís 15 convidou-o a se naturalizar e virar funcionário de sua corte. Mas Casanova estava marcado em Paris: novamente esquecera a lição do senador Malipiero e manteve publicamente uma relação amorosa com uma marquesa casada.

Casanova saiu à francesa de Paris e foi para Londres. Sem saber inglês, mas ávido por sexo e aventura, colocou um anúncio de aluguel nos jornais (imóvel comprado por ele com o dinheiro francês), para damas de boa reputação – código para prostitutas. Lá, pegou gonorreia. Não era a primeira vez que Casanova apanhava uma doença venérea, mas a idade, as noitadas e a doença começaram a pesar.

Cansado, voltou a sua Veneza. Gra­ças a um protetor, Sebastiano Foscarini, arranjou novo emprego: funcionário da Inquisição! Sua primeira tarefa foi investigar negócios escusos entre o Vaticano e a burguesia de Veneza.

Nessa época, por volta de 1780, conheceu Lorenzo da Ponte, libretista de óperas de Mozart. Reza a lenda que Da Ponte inspirou-se nele para criar o protagonista da ópera Don Giovanni (Don Juan em italiano). Foi seu momento final de glória. Com a morte de Foscarini, em 1785, Casanova perdeu o emprego inquisitorial e a proteção em Veneza. Depois dos 60 anos, alquebrado e sem dinheiro (pois gastava tudo com suas mulheres), passou o resto da vida como bibliotecário num castelo da Boêmia, onde era conhecido por camponeses como um velho ranzinza. Azar de Casanova, sorte da literatura: lá escreveu suas memórias, A História da Minha Vida. Nascia um mito.

 

 


Casanova e o falso castrato

Não havia disfarce que desviasse seu faro de uma boa transa

Reportagem fotográfica