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Os Malditos – Piada sem graça mata 33

Cidadão-modelo se fantasiava de palhaço e lia passagens da Bíblia na hora de dar o bote em adolescentes pobres a quem oferecia vagas de emprego

Texto Willian Vieira

Enquanto aguardava ser executado na penitenciária de Stateville, em Illinois, EUA, John Wayne Gacy Jr. discutia com os carcereiros um tema crucial: quais eram as chances do time de beisebol Chicago Cubs naquele ano. Era 10 de maio de 1994 e ele parecia tranquilo na sua cela, cercado pelos quadros que pintava – muitos de Pogo, um palhaço de histórias em quadrinhos. Até os advogados de Gacy diziam que ele não demonstrava remorso. E sem sentir culpa alguma foi condenado pela morte de 33 rapazes nos anos 70.

A vida de Gacy tinha tudo para ser uma história chata. Nasceu num subúrbio de Chicago em 1942, numa família com duas irmãs, uma mãe que o adorava e um pai alcoólatra. Adulto, seguiu um caminho de classe média americana: faculdade de administração, dois casamentos, filhos e uma empresa própria. Na sua empreiteira, a PDM Contractors, fez dinheiro contratando só adolescentes – “para baixar custos. Virou membro do Partido Democrata e, em 1978, Gacy posou ao lado da então primeira-dama, Rosalynn Carter.

Mas a investigação do desaparecimento de um adolescente derrubou a máscara carismática com que Gacy escondia um serial killer. Faltavam duas semanas para o Natal de 1978 quando Robert Piest, 15, saiu com a mãe para procurar uma vaga na empreiteira de Gacy. Ela ficou na farmácia em frente, esperando. Nunca mais o viu.

O desaparecimento levou o tenente Joseph Kozenczak a investigar Gacy, o último a ter visto o garoto. No início, parecia inacusável. Fora casado, tinha filhos, era membro de instituições religiosas e costumava se vestir de Pogo, o palhaço, para animar festinhas infantis e alegrar crianças em hospitais.

Quase um filantropo – até Ko­zenc­zak conferir sua ficha criminal. Des­cobriu que em 1968 Gacy tinha sido preso por molestar meninos. Em poucos meses conseguiu a liberdade por bom comportamento, mas bastaram 3 anos para voltarem as acusações de crimes sexuais contra rapazes. Era o que faltava para a polícia ir à sua casa.

Lá, a polícia encontrou um açougue, certo? Nem tanto. Ela achou somente pistas: sedativos, um pênis de borracha preta, algemas, cordas, filmes ho-moeró­ticos, roupas pequenas demais para o barrigão de Gacy e um anel com inscrição de uma escola de ensino médio – além de um persistente odor de podre, que vinha do chão.

Só mais tarde a polícia descobriu que o anel era de um garoto de 19 anos desaparecido um ano antes. Soube também que mais 3 rapazes, todos de 17 anos e contratados pela empreiteira de Gacy, tinham sumido sem explicação.

Pressionado, Gacy confessou ter matado e enterrado uma pessoa no chão da garagem. Mas o fedor levou a polícia a remover todo o chão da casa. Então acharam um cemitério clandestino.

Dizendo-se possuído por outra personalidade, Gacy fez um mapa para a polícia com os locais exatos de cada um dos 27 corpos. Outros 2 foram encontrados no terreno e mais 4 em rios da região – um deles, o de Robert Piest, o garoto em busca de emprego que, indiretamente, pôs fim à matança.

A arte do palhaço

Seu julgamento começou em 6 de fevereiro de 1980. Os advogados tentaram descrevê-lo como um louco varrido incapaz de controlar suas ações, que deveria estar num hospital psiquiátrico. Mas os depoimentos de testemunhas e psiquiatras desenharam um homem racional, calculista e, mais ainda, inteligente e encantador. Gacy tinha pleno domínio das faculdades mentais durante os assassinatos. Só era incapaz de fazer um julgamento moral consciente de seus crimes.

Disse ter jogado os últimos corpos no rio porque não cabiam mais em casa – ah, cavar dava dor nas costas”. Para se livrar da acusação, disse que sua personalidade malvada é que tinha cometido os crimes. Ele mesmo só poderia ser condenado por administrar um cemitério clandestino, argumentou.

Psicopata nato, Gacy virou personalidade nacional. Nos 14 anos em que esteve preso, respondeu a telefonemas e a muitas das cerca de 27 mil cartas que recebeu. Também pintou telas, algumas com autorretratos seus fantasiado de Pogo. Cada uma chegou a valer até US$ 20 mil após sua execução. “As pessoas ficam fascinadas com os esforços de um homem que também matou 33 pessoas”, disse o curador de uma mostra com seus quadros.

A atração do público não parou por aí. Gacy criou um número pago (desses 0900) para quem quisesse ouvir seus 12 minutos de defesa. Cada telefonema dava a Gacy US$ 23,88.

No dia da execução, seu nome foi pronunciado com caretas por apresentadores de televisão e motivou passeatas contra pedofilia pelas mesmas ruas de Chicago por onde dirigira seu Oldsmobile preto em busca de vítimas. Mas Gacy parecia distante. Saboreou com calma sua última refeição: frango, batatas e camarões fritos (segundo os guardas, gostou mais do camarão que do frango). De sobremesa, morangos.

Pouco depois do meio-dia, recebeu uma injeção letal: pentotal de sódio, como anestésico; brometo de pancurônio, para paralisar a respiração, e cloreto de potássio, para o coração. Morreu. Mas não sem ter dito, pouco antes, que era inocente e ter dado adeus ao mundo com uma palhaçada. Gritou: “Kiss my ass” -“Beije minha bunda”.

O modus operandi do palhaço assassino
Quando julgado, Gacy culpou sua outra personalidade pelas mortes e disse só gerenciar um cemitério clandestino

1. Dono de uma empreiteira, Gacy se aproximava de jovens e lhes oferecia emprego. Quando não rolava, pagava pelo sexo.
2. Levava os caras para casa e os convencia a se deixar algemar. Então amordaçava as vítimas com uma cueca.
3. Gacy dopava e molestava os garotos. Às vezes os torturava vestido de palhaço Pogo, citando passagens bíblicas.
4. Os corpos eram então enterrados em covas rasas, debaixo de casa. O cheiro não ia embora nunca.