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Os vencedores do aquecimento global

Enquanto o mundo se preocupa com os efeitos devastadores do aumento da temperatura do planeta, muita gente soube tirar partido desse caos

Texto Tiago Cordeiro

Os prejuízos provocados pelo aquecimento global são bem conhecidos. Por exemplo: com o degelo das calotas polares, o nível do mar vai aumentar e cidades inteiras vão submergir. Algumas regiões do planeta vão se tornar insuportavelmente quente, e a força de tempestades e furacões tende a aumentar. Mas, como em toda situação de mudança e de crise, nem todo mundo está perdendo com o aumento da temperatura do planeta. Em todos os cantos do globo, há quem esteja saindo com lucro. “Estima-se que os efeitos do aquecimento global vão provocar uma movimentação financeira da ordem de US$ 200 bilhões por ano. Muita gente vai ser beneficiada por esse remanejamento de valores”, diz o consultor Antonio Carlos Porto Araújo, da Trevisan Consultoria. Conheça agora 10 histórias de pessoas e empresas que estão se dando bem com essa história, muitíssimo bem, obrigado.

Ele comprou um terreno por US$ 7

Parecia coisa de maluco. Em 1997, o empresário americano Pat Broe fez uma proposta ao governo canadense: por um território da baía de Hudson, a 950 quilômetros do círculo polar ártico, ele pagou US$ 7. Localizada no nordeste do Canadá, essa área só tinha gelo. Em 2005, quando a calota do Pólo Norte alcançou o menor tamanho já registrado, Broe começou a fazer contas. Dentro de alguns anos, a baía de Hudson se tornará navegável, e ele acredita que poderá ganhar US$ 100 milhões por ano explorando os atalhos marítimos que o Porto de Churchill vai oferecer aos navios que, cada vez mais, deverão navegar na região em busca de petróleo e gás natural. “O Pólo Norte está perdendo gelo rápido e logo vai ser um dos territórios mais disputados do planeta”, diz o jornalista americano Gregg Easterbrook, autor de The Progress Paradox (“O Paradoxo do Progresso”, sem tradução no Brasil). Quer investir? Então corra, porque o povoado de Anderson, no interior do Alasca, está vendendo terrenos de meio hectare. Mas agora o preço já está bem mais alto: US$ 500 por lote.

Mais água nos portos

O porto de Pat Broe não é o único beneficiado. É verdade que muitos atracadouros vão ter que se mudar por causa do aumento do nível das águas, mas isso não é necessariamente ruim. A administração do Porto de Santos, por exemplo, estima que o aumento da lâmina d’água vai permitir a entrada de navios de maior calado. Em muitos casos, vai ser necessário fazer uma reestruturação. Várias cidades portuárias pelo mundo estão investindo nisso. É o caso dos portos Newark e Elizabeth, localizados lado a lado na região metropolitana de Nova York e responsáveis por um movimento de bens da ordem de US$ 100 bilhões anuais. Aliás, no local, desde o começo da década, uma série de inundações provocou grandes prejuízos. Desde 2003, a administração da cidade vem realizando um plano considerável para aumentar a profundidade e a largura de seus canais.

Grana para infra-estrutura

Outros investimentos em infra-estrutura certamente vão gerar renda. “Com o aumento da força das tempestades, vai haver uma grande demanda pela construção de barragens, diques, aterros e casas cada vez mais resistentes”, aposta o consultor Antonio Carlos Porto Araújo. Pense num caso recente: depois de ser devastada pelo furacão Katrina, em 2005, a região de Nova Orleans, nos EUA, recebeu, até agora, US$ 250 milhões só em investimentos de reforço de infra-estrutura. Agora imagine se muitas outras áreas forem afetadas com a mesma violência. Outra grande demanda vai acontecer na área de energia. Nos últimos anos, pequenas centrais hidrelétricas, de até 3 megawatts, começaram a se multiplicar em vários países do mundo, da China à Alemanha, passando pela África do Sul. Além de serem pouco poluentes, elas provocam um estrago ambiental bem menor, porque geram um lago de apenas 5 km2 de área. É 280 vezes menos do que o lago formado por uma grande hidrelétrica, como a de Furnas, por exemplo. É um ótimo negócio. Só no Brasil, a empresa de energia Alstom construiu 7 pequenas usinas e, entre abril de 2006 e março de 2007, fechou contratos que somam nada menos do que R$ 200 milhões.

A onda dos biocombústiveis

Com o preço do barril de petróleo batendo recorde atrás de recorde, cresce a busca de alternativas. É uma tendência sem volta: hoje, os biocombustíveis são responsáveis por 1% do consumo mundial. Daqui a 25 anos, eles vão responder por 7% do total. Em janeiro, o presidente George W. Bush anunciou que pretende fazer com que, em 2025, 25% do combustível usado nos EUA seja limpo. Bilionários americanos, como o investidor George Soros, o fundador da AOL Steve Case e os criadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, estão botando dinheiro no etanol. Juntos, só eles têm planos de investir US$ 1,1 bilhão no Brasil. Dessa grana, US$ 900 milhões são de Soros, que está investindo em 3 usinas no Mato Grosso do Sul.

Por aqui, as usinas de álcool combustível estão passando por um processo de profissionalização. Neste momento, os investimentos em novas usinas no país somam US$ 17 bilhões; temos 325 usinas e outras 86 em fase adiantada de construção. Num futuro bem próximo, as usinas independentes, capazes de processar até 2 milhões de toneladas por safra, deverão ser incorporadas por gigantes do setor. Uma delas, a Cosan, tem planos de se instalar nos EUA, na Europa e na Austrália. Neste ano, a construtora Odebrecht entrou de sola nesse mercado. A empresa quer montar 3 bases produtoras, no Mato Grosso do Sul, em Goiás e em São Paulo. Se as brasileiras não se mexerem, vão perder espaço para a inglesa Infinity Bio-Energy, que recentemente chegou ao Brasil com US$ 850 milhões nos bolsos. O problema é: a produção de biocombustíveis ocupa uma área de 14 milhões de hectares, ou 1% de toda a terra cultivável do planeta. Evidentemente, não é todo mundo que tem terra sobrando desse jeito. O Brasil tem essa grande vantagem.

Lucro nas farmácias

Com o aumento do calor em diversas regiões do planeta que já são pobres e em algumas mais ricas, como o sul da Europa, a tendência é que o número de epidemias tropicais aumente. A mudança climática ainda cria períodos mais longos de chuvas, que favorecem a multiplicação dos insetos que transmitem a dengue, por exemplo. Na Bolívia, em março deste ano, chuvas fora do comum deixaram 40 mil famílias desabrigadas no departamento de Santa Cruz, onde os casos de dengue aumentaram. Outras doenças, como a malária e a febre amarela também tendem a se tornar mais comuns. “Epidemias tropicais são bons negócios para laboratórios. Em geral, o tratamento para elas já existe. Basta aumentar a escala para acompanhar a nova demanda”, diz o consultor Antonio Carlos Porto Araújo.

Mercado de energia em alta

O mercado das energias solar, eólica, geotermal, marítima e de biomassa ainda não estourou, mas tende a crescer de 10 a 25% nos próximos 15 anos. No departamento da energia solar, o desafio é fazer com que as células fotoelétricas se tornem mais eficientes. No de energia eólica, a dificuldade é a mesma: gerar eletricidade com mais eficiência. Muito dinheiro está sendo investido em pesquisas – na Renewables 2004, conferência internacional sobre fontes renováveis realizada em Bonn, na Alemanha, eram 30 empresas concorrentes, incluindo a Eon, a General Electric Wind, a Solar World e a NanoSolar. Só na Alemanha, o setor de energias renováveis fatura, por ano, US$ 15 bilhões, 40% a mais do que há 7 anos. Nas estimativas da Agência Internacional de Energia, até 2030 o uso de energia eólica vai aumentar em 18 vezes, e o da solar pelo menos em 60 vezes.

Enquanto as energias alternativas não se impõem sobre o petróleo e o carvão, o jeito é economizar e poluir menos. Existem empresas especializadas em fornecer equipamentos capazes de criar “carvão limpo”, que polui menos o ar – a Foster-Miller e a NeuCo são especializadas nesse mercado. Outro nicho importante é o de aparelhos que otimizam o uso de energia. Empresas americanas que fornecem equipamentos que monitoram o uso de energia, como a Elster, a Itron e a eMeter, estão se aproveitando da demanda.

Novo mercado de cotas

O crédito de carbono é a mina de ouro do momento. Seu funcionamento é muito simples: o Protocolo de Kyoto, assinado em dezembro de 1997, estabelece uma cota máxima que cada país pode emitir de gases que provocam efeito estufa. Os países, por sua vez, restrigem a emissão das empresas. As empresas que não se tornam mais verdes compram créditos que sobraram daquelas que estão abaixo da cota. Trata-se de um mercado que deverá gerar, em todo o mundo, algo em torno de US$ 150 bilhões no ano 2010 – neste momento, são US$ 10 bilhões no planeta e US$ 20 milhões no Brasil. Em setembro, o primeiro leilão de crédito de carbono da América Latina gerou R$ 34 milhões na Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo. Algumas empresas, como a Rhodia e a Sadia, estão entrando nesse mercado para vender créditos de carbono que elas conseguiram por reduzir seus índices de poluição. Essa indústria já tem seus primeiros ecoempreendedores de sucesso. Há 10 anos, o brasileiro radicado em Londres Pedro Moura Costa criou a Ecosecurities, companhia especializada no mercado de créditos de carbono. Hoje, sua empresa chega a valer US$ 1 bilhão na Bolsa de Londres.

Indústria de árvores

Junto com os créditos, está crescendo uma indústria de substituição de carbono com a plantação de mudas de árvores. Você já deve ter ouvido falar, por exemplo, em shows “carbono zero”, que repõem suas próprias emissões. O Carnaval 2007 do Rio de Janeiro neutralizou seu gasto de energia elétrica com 1 200 novas árvores. Quem vai se responsabilizar por esse plantio? Em parte, as grandes empresas. A geradora de energia AES Tietê tem um projeto pioneiro de reflorestamento. Até outubro, foram recuperados 1 450 hectares, de um total de 10 mil previstos. Algumas empresas menores estão se especializando em oferecer projetos desse tipo a grandes corporações. Para as pessoas físicas, entidades ambientalistas e ongs calculam o quanto seu banho quente e seu automóvel prejudicam o ambiente, calculam sua dívida com a natureza e cobram de R$ 10 a 30 por muda de árvore.

Verdes na fita

Depois do sucesso dos documentários A Marcha dos Pingüins, que faturou US$ 130 milhões, e Uma Verdade Inconveniente, que ganhou dois Oscars, Hollywood resolveu aderir aos filmes ecologicamente corretos. O ator Leonardo Di Caprio escreveu e produziu A Última Hora, que estreou nos cinemas brasileiros em novembro. E a rede britânica BBC finalizou Planeta Terra, um projeto de 11 episódios, que, inclusive, foi lançado pela SUPER. Uma versão condensada, batizada de Earth, foi exibida no 4° Amazonas Film Festival, em novembro, em Manaus. No terreno da ficção, prepare-se para uma leva de filmes verdes e apocalípticos. Cineastas famosos, como James Cameron, de Titanic, e M. Night Shyamalan, de O Sexto Sentido, estão trabalhando em produções de suspense que a crítica americana apelidou de “ecothrillers”. Cameron está filmando Avatar, uma ficção científica em que o homem tenta colonizar outros planetas depois de ter destruído a Terra, e Shyamalan prepara The Happening, em que a natureza se vinga da humanidade com um grande cataclismo em escala global. Tudo muito ecologicamente correto – e rentável.

A boa do mangue

De acordo com o botânico Carlos Alfredo Joly, da Unicamp, a mata Atlântica pode perder até 60% de área se a temperatura média do planeta subir entre 3 e 4 graus. Por outro lado, os manguezais parecem gostar do aumento do calor. O biólogo Luiz Drude de Lacerda, professor da Universidade Federal do Ceará, fez um levantamento em mais de 50 estuários entre Piauí e Pernambuco, comparou o que viu com pesquisas anteriores e concluiu que as áreas de manguezais estão 40% maiores do que há 30 anos. “O mangue, que precisa de salinidade para se desenvolver, deve estar crescendo por causa do aumento médio do nível do mar”, ele especula.

O novo mapa do poder

Saiba o que vai acontecer com os países daqui a 50 anos, contando com o aquecimento global

GANHAM PODER: Rússia, Canadá, Groenlândia, Alasca, Escandinávia, Chile e Argentina

Com o sumiço de parte da capa de gelo e o possível aumento da temperatura, territórios com grandes áreas geladas no hemisfério norte vão se tornar produtivos para a agricultura. Além disso, vastas regiões da Sibéria e dos arredores do Pólo Norte têm grande quantidade de petróleo. A Sibéria tende a fazer da Rússia uma grande potência econômica. E o Pólo Norte pode provocar uma corrida pelo ouro. “A situação do Pólo Norte pode ficar tensa”, diz o jornalista Gregg Easterbrook. “A demarcação de territórios não é clara e já vem sendo desrespeitada.” Já o caso do Chile e da Argentina é outro: se a região equatorial da América Latina ficar quente demais, os países mais ao sul serão muito procurados por serem mais agradáveis.

CONTINUAM NA MESMA: EUA, Europa (com exceção da Escandinávia), China, Japão, Brasil, África do Sul

Países com grande extensão territorial, como China, Brasil e EUA, têm potencial para explorar fontes de energia renováveis. Por outro lado, estarão muito sujeitos a tufões e inundações. A Europa e a África do Sul tendem a continuar sob uma temperatura aceitável. Já o Japão e outros países do Sudeste Asiático, sempre muito prejudicados por tempestades violentas, terão um consolo: o degelo está abrindo a rota marítima do noroeste, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico por meio do Pólo Norte e poderá baratear bastante as exportações dos asiáticos.

PIORAM: México, África Central

Regiões pobres ou subdesenvolvidas, e que já sofrem com o excesso de calor nos dias de hoje, tendem a se tornar ainda mais difíceis, uma vez que as condições climáticas que são preocupantes atualmente tendem a piorar. E, se formos pensar que grande parte do Brasil também está nessa condição, como o sertão nordestino, por exemplo, daí teremos que reavaliar a nossa posição nesse quadro. “Até mesmo a Região Nordeste brasileira pode perder economicamente por causa das prováveis inundações de cidades litorâneas e do aumento um tanto considerável do calor”, diz Gregg Easterbrook.

Para saber mais

Como Comercializar Créditos de Carbono

Antonio Carlos Porto Araújo, Trevisan, 2006.

Etanol, o Combustível do Brasil

José Tobias Menezes, Kosmos, 2003.