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Perigo na multidão

Peregrinos que visitavam a cidade sagrada do Islã ficaram presos em um túnel escuro. Para combater esse tipo de incidente, o governo saudita recorre à estatística

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h16 - Publicado em 2 fev 2013, 22h00

Amanda Silva

Tumulto
Arábia Saudita – 1990 – 1426 mortos – 2000 feridos

No ranking dos dez tumultos que mais mataram gente em toda a história, a Arábia Saudita aparece 4 vezes. Todos os episódios de pisoteamento estão concentrados em uma cidade, Meca, e sempre na mesma época do ano: o hajj, a tradicional peregrinação anual para a cidade sagrada dos muçulmanos. O surpreendente de tudo isso é que um acidente tão previsível não possa ser contido.

Sabe-se que o número de peregrinos estrangeiros aumenta ano após ano. Em 1996, 1,5 milhão de pessoas se reuniam em Meca. Em 2011, foram mais de 2,5 milhões, vindos de 160 países. Também é conhecido o ponto do trajeto em que a maior parte dos incidentes acontece: a passarela Jamarat, onde é realizado um dos rituais obrigatórios mais importantes do período, o apedrejamento do demônio.

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A pior dessas tragédias é também o tumulto mais mortal já registrado no mundo. Aconteceu em 1990, quando os fiéis atravessavam um túnel que leva a Jamarat. Havia 50 mil pessoas dentro da passagem, de 450 por 18 m, uma multidão muito maior do que o sistema de refrigeração suportava, quando a luz apagou. No pânico que se seguiu, mais pessoas morreram sufocadas do que pisoteadas. Entre as vítimas, havia egípcios, indianos, paquistaneses, indonésios, malaios, turcos e, é claro, sauditas.

Realizado todos os anos, o hajj é tradicionalmente uma viagem arriscada. No começo do século 20, era preciso fazer boa parte do percurso para Meca a pé, e os corpos das vítimas da fome, da sede e dos assaltos se acumulavam ao longo da trilha. Ao chegar à cidade sagrada, onde nasceu o profeta Maomé, cada peregrino precisa cumprir uma série de obrigações. Uma das mais importantes consiste em se reunir na Jamarat para lançar 21 pedras contra o diabo. É uma forma de reviver a tradição islâmica, que narra três episódios em que Abraão teria sido tentado a desobedecer os desígnios de Deus.

O ritual deve ser realizado entre o meio-dia e o anoitecer. Mas muitos fiéis acreditam que o correto é lançar as pedras ao cair da tarde. É quando milhares se concentram no mesmo local.

Solução matemática

Para prevenir acidentes, o governo saudita já ampliou a passagem várias vezes desde que ela foi inaugurada, em 1963. A reforma mais recente e mais importante foi realizada a partir de 2004 e contou com a consultoria do matemático escocês Keith Still. Professor da Universidade de Aberdeen e especialista nos padrões de movimento das massas, ele tem uma técnica para calcular a probabilidade de acidentes: basta observar o ponto de concentração, o de dispersão e a velocidade de movimento das pessoas. Se elas começam o roteiro mais rápido do que terminam, está instalada uma situação de risco: rapidamente, o fluxo cessa e a concentração aumenta até o limite de 4 pessoas por metro quadrado, a partir do qual é impossível se mover sem esbarrar em quem está ao lado. O massacre começa a se propagar em ondas. É exatamente o que ocorre em Meca.

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A reforma tentou reduzir o número de pontos de alta densidade de pessoas. Para isso, foi preciso transformar as 3 pilastras que os fiéis apedrejam em colunas mais largas, que reduzem a concentração da massa. Depois veio a transformação de Jamarat em uma estrutura de várias passarelas interligadas, capazes de receber 300 mil peregrinos por hora. As mudanças surtiram efeito: o último tumulto mais grave aconteceu em 2006. Mas a solução pode ser temporária: o governo saudita prevê que, até o fim da década, o número atual de visitantes vai dobrar, e as reformas atuais poderão se mostrar insuficientes.

Top 10
Os tumultos mais mortais*

1. 1426 mortos Arábia Saudita, 1990 peregrinação a Meca
2. 1389 mortos Rússia, 1896 coroação do czar Nicolau II
3. 953 mortos Iraque, 2005 peregrinação à mesquita Al Kadhimiya
4. 800 mortos Índia, 1954 festival religioso de Khumba Mela
5. 362 mortos Arábia Saudita, 2006 peregrinação a Meca
6. 357 mortos Cambodja, 2010 procissão religiosa em Phnom Penh
7. 318 mortos Peru, 1964 confusão no Estádio Nacional de Lima
8. 270 mortos Arábia Saudita, 1994 peregrinação a Meca
9. 258 mortos Índia, 2005 festival religioso de Khumba Mela
10. 251 mortos Arábia Saudita, 2004 peregrinação a Meca

* Sem levar em conta os tumultos ocorridos durante guerras

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