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Pesquisadores recuperam 42 páginas perdidas de manuscrito do Novo Testamento

O material, considerado perdido há séculos, faz parte do "Codex H", uma cópia antiga das cartas do apóstolo Paulo. Veja o que ele diz.

Por Luiza Lopes 30 abr 2026, 18h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h35
Pesquisadores recuperam 42 páginas perdidas de manuscrito do Novo Testamento Priorizar nos meus resultados Google

Quarenta e duas páginas de um manuscrito do Novo Testamento (a segunda parte da Bíblia cristã, escrita após o nascimento de Jesus) foram recuperadas por uma equipe internacional de cientistas.

O material, considerado perdido há séculos, faz parte do chamado “Codex H” (códice H), uma cópia antiga das cartas do apóstolo Paulo datada do século 6.

No século 13, o códice foi desmontado no Mosteiro da Grande Lavra, um centro monástico na Grécia. Na época, pergaminho era caro. Em vez de descartar materiais antigos, monges reaproveitavam as folhas para encadernar novos livros ou como reforço estrutural de outros manuscritos. 

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Foi o que aconteceu com o Codex H. Suas páginas foram cortadas, redistribuídas e acabaram espalhadas por bibliotecas de vários países europeus.

Durante séculos, isso tornou praticamente impossível recuperar o manuscrito completo. As páginas estavam fisicamente separadas, muitas vezes irreconhecíveis. 

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Ainda assim, parte desse material nunca deixou de existir. Vários desses fragmentos ficaram preservados dentro de outros livros e acabaram chegando a bibliotecas e coleções onde já eram conhecidos por pesquisadores. 

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Segundo a equipe, que é liderada pelo professor Garrick Allen da Universidade de Glasgow, a virada veio não com a busca por novos pedaços, mas com uma nova forma de analisar aquilo que já estava disponível.

Técnica inovadora

Antes de ser desmontado, o códice (um tipo primitivo de livro) passou por uma espécie de “manutenção” comum na época. Como o texto estava apagando, escribas reforçaram as letras aplicando tinta por cima da escrita original. Esse detalhe, aparentemente técnico, acabou sendo decisivo. 

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Parte dos compostos químicos dessa tinta migrou, ao longo do tempo, para outras páginas que estavam em contato com ela. Essas páginas, por sua vez, também foram reutilizadas e sobreviveram dentro de outros manuscritos.

Foi justamente esse “rastro invisível” que permitiu a descoberta. Em vez de procurar páginas desaparecidas pelo mundo, os pesquisadores analisaram páginas que já eram conhecidas e estavam preservadas. 

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Usando a chamada imagem multiespectral, eles conseguiram revelar esses vestígios químicos. A técnica capta diferentes comprimentos de onda da luz, como infravermelho e ultravioleta, e permite enxergar marcas que o olho humano não detecta.

Mesmo sem o fragmento original, era possível recuperar o conteúdo que havia sido “impresso” ali de forma indireta, como uma sombra deixada pela tinta. Assim, os pesquisadores conseguiram reconstruir textos de páginas que já não existem mais fisicamente.

Imagens multiespectrais e datação por carbono reconstroem digitalmente o Códice H, revelando antigos hábitos de escribas e estruturas bíblicas primitivas.
Pesquisadores aplicando a imagem multiespectral. (Damianos Kasotakis/University of Glasgow/Divulgação)

O que há no texto?

O texto recuperado inclui trechos das epístolas de Paulo, como partes da Primeira Carta aos Coríntios. Não há diferenças relevantes em relação ao conteúdo já conhecido. Ainda assim, os pesquisadores consideram a descoberta significativa.

“Considerando que o Codex H é um testemunho tão importante para a nossa compreensão das escrituras cristãs, ter descoberto qualquer nova evidência – quanto mais esta quantidade – de como ele era originalmente é algo verdadeiramente monumental”, afirmou Allen em comunicado.

Segundo o professor, o valor do material está menos no que ele diz e mais em como ele apresenta o texto. As páginas recuperadas trazem alguns dos exemplos mais antigos conhecidos de listas de capítulos das cartas de Paulo. 

Essas divisões são bem diferentes das atuais. Hoje, a Bíblia é organizada em capítulos e versículos padronizados, mas isso é uma convenção relativamente recente: os capítulos surgiram por volta do século 13 e os versículos, só no século 16.

Ou seja, durante a maior parte da história, esses textos circularam de outras formas. O Codex H mostra uma etapa intermediária desse processo. Ele já apresenta tentativas de organizar o conteúdo, com divisões e marcações que ajudam na leitura.

Outro aspecto interessante são as intervenções dos escribas. Os fragmentos mostram correções, anotações e ajustes feitos por quem copiava o texto. Isso ajuda a entender como esses profissionais lidavam com erros, dúvidas e interpretação.

O próprio estado físico do manuscrito revela uma prática comum na Idade Média: livros eram considerados materiais reutilizáveis, e não objetos intocáveis. Quando um texto envelhecia ou se tornava menos útil, seu suporte era reaproveitado.

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