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Platão, Jesus e o dinheiro

Entenda as ideias e a evolução da arte medieval.

Por Fábio Marton - Atualizado em 7 Maio 2020, 17h54 - Publicado em 6 abr 2020, 12h39

A palavra “gótico” tem data de nascimento: 1518, numa carta do pintor Rafael ao papa Leão 10º. Foi a primeira vez que alguém usou o termo para se referir não a um povo, mas a um estilo artístico: tudo o que existia entre a queda de Roma e a Renascença. Rafael acreditava, e fazia coro ao espírito da época, que a grande arte que tentavam recuperar havia sido destruída pelas invasões bárbaras. O nome vem de um dos povos invasores, os godos, chamados de gothi em latim. Assim, arte gótica – medieval – quer dizer, em sua origem, arte bárbara.

Os artistas não “desaprenderam” a pintar e esculpir com a queda de Roma. A primeira coisa a se entender sobre o estilo medieval é que ele não nasceu na Idade Média. É característico do fim da Antiguidade, o que é bem visível na arte do Império Bizantino, a parte do Império Romano que não caiu e não passou pela “barbarização” vista por Rafael.

Com a mudança da capital do Império para Constantinopla, em 330, e a chegada de religiões como o mitraísmo persa e o cristianismo da Judeia, a arte romana já havia se orientalizado, abandonando o realismo e se focando em ornamentação em materiais preciosos. E, além dessa influência do Oriente, havia uma mudança nas ideias. Nascido no Egito, o filósofo Plotino (205-270) ressuscitou o platonismo. O neoplatonismo, como o original, fala na essência das coisas: ideias perfeitas, que existem antes e além do ser humano. Sob o pensamento neoplatônico, a arte passa a ser essencialista. No lugar de retratar a natureza, importa captar a essência das coisas, mais real que a realidade, como Deus as enxergaria.

Figuras consideradas mais importantes passam a ser retratadas em tamanho maior. Traços minimalistas também se focam no que é essencial: os olhos, o nariz, a boca. Isso explica também as expressões plácidas medievais, em choque com as ideias atuais de expressividade. Em pinturas medievais, alguém pode estar matando ou sendo morto e ainda assim não expressar fúria, dor ou surpresa. No lugar de um momento vulgar de desespero, o que se queria retratar era a essência eterna das pessoas.

Outra coisa importante: a arte valia o que pesava. O material utilizado – ouro, joias, pinturas em tintas raras como o lápis-lazúli em pó – era mais valorizado que o trabalho. Livros ilustrados, tapetes e esculturas, na Idade Média, eram comprados como investimento, pensado em sua futura revenda. Assim, muita coisa se perdeu, particularmente quando a arte medieval passou a ser desprezada na Renascença. Quase tudo o que sobrevive é de coleções de Igreja, o que passa a falsa impressão que a maioria da arte medieval era religiosa.

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A evolução da arte da queda de Roma à Renascença.

FIM DO IMPÉRIO – século. 4

Mosaico pagão do século 4 em La Olmeda, Espanha, retratando cena da Ilíada. Nas expressões plácidas e estilizadas, e a composição não realista, com figuras “voando”, já é possível perceber características da arte medieval. Reprodução/Divulgação

TESOURO REAL – 778

O Códice Áureo de Lorsch é uma coleção dos evangelhos ricamente decorada, criada sob o reino de Carlos Magno, entre 778 e 820. Nele são visíveis as técnicas romanas de sombra e volume. Reprodução/Divulgação

ARTE PORTÁTIL – 1066

A Batalha de Hastings na Tapeçaria de Baieux, criada por normandos franceses alguns anos após o evento. Tapetes eram uma forma particularmente desejável de arte na Idade Média. Eles podiam ser enrolados para guardar ou carregar entre as diferentes residências de um senhor feudal. Aqueciam recintos no inverno (eram usados nas paredes, não no chão) e podiam ser feitos de materiais preciosos. Universal History Archive/Getty Images

PARA GUARDAR – 1228

Capa em ouro de uma coleção de evangelhos, por Hugo d’Oignies, Bélgica, 1228-1230. É um exemplo da chamada Arte de Mosa, feita no vale do rio com o mesmo nome. Um centro de excelência medieval. Reprodução/Divulgação

QUASE NA RENASCENÇA – 1399

Díptico de Wilton, feito sobre madeira, por um pintor anônimo francês ou britânico. A prosperidade da Europa pós-Peste Negra abriu espaço para um grande refinamento técnico por especialistas bem pagos. A técnica realista convive com uma mentalidade platônica e o valor material e decorativo. Reprodução/Divulgação

NOVA PERSPECTIVA – 1425

O Pagamento do Tributo, por Masaccio (Tommaso di Ser Giovanni di Simone), é o primeiro exemplo conhecido do uso de perspectiva, um método geométrico de representar distâncias desenvolvido pelo arquiteto Filippo Brunelleschi. Também notado pelo chiaroscuro, o trabalho de luz e sombra, e a expressividade típicos da Renascença. Reprodução/Domínio Público
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