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Por que mutilam o clitóris?

Alguns estudiosos arriscam uma explicação. O antropólogo peruano Manuel Cuentas afirma que se trata de ¿um rito de transição.

Por 31 mar 2002, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h27
  • Bia Labate, de Pucallpa

    Nos últimos anos, a ONU declarou guerra contra a mutilação genital feminina e escalou um time de celebridades para sair pelo mundo protestando contra o costume ancestral de grupos africanos e muçulmanos de arrancar o clitóris das mulheres. Disso eu sabia. O que eu não esperava era encontrar mulheres mutiladas numa visita a um país vizinho do Brasil, o Peru. Conversei com essas mulheres, tentei descobrir as razões por trás desse hábito que nos parece tão terrível e pedi a um índio da tribo shipibo-conibo, da Amazônia peruana, que desenhasse, passo-a-passo, o ritual.

    Afinal, por que os shipibo faziam isso? (Consta que abandonaram o hábito, mas alguns pesquisadores acreditam que em comunidades mais isoladas as amputações ainda estejam em voga.) Obtive as respostas mais diversas: “A mulher com clitóris fica ociosa”; “para que engorde”; “para tirar o mau cheiro”. Algumas soam surreais: “Se não tirasse, cresceria um pênis ali”. Outras justificativas eram algo tautológicas: “Se não, ela seria discriminada”, “a verdadeira mulher não tem”. Enfim, ao insistir muito, acabava sempre assim: es la costumbre (“é o costume”). O fato é que a capadura era, além de uma obrigação, uma virtude, um ato de cidadania. A mulher que não extirpasse seu clitóris não arrumava homem.

    Alguns estudiosos arriscam uma explicação. O antropólogo peruano Manuel Cuentas afirma que se trata de “um rito de transição: ela entra com um status e sai com outro, apta para o matrimônio” (a mutilação era feita depois da primeira menstruação). Já Jacques Tourneau, etnocientista francês, acha que se trata de uma castração simbólica para dominar as mulheres e uma forma de retirar seu apetite sexual, diminuindo assim as relações extramatrimoniais. Para a psicanálise, o clitóris pode ser considerado um pequeno pênis e sua extirpação tira o aspecto masculino e categoriza a jovem sem ambigüidade como mulher.

    Erminia Bartales, uma anciã shipibo que não sabe quantos anos tem, lembrou que estava tranqüila no dia da operação e alegre porque sabia que teria marido e filhos (mas depois doeu muito). Conversamos através de um intérprete, que traduzia do shipibo para o castelhano. De repente, ela começou a simular uns bocejos, sinalizando que já estava cansada do papo. Então, suspirou algo. As crianças que observavam começaram a rir e tivemos que parar a entrevista. Depois o tradutor me contou que ela havia dito, irônica: “Coitadinho do meu clitóris, fiquei oca”. Ninguém, exceto eu, parecia muito impressionado ou ávido por um sentido profundo. Ao contrário, o ambiente era de leveza. Coisas normais da vida da mulher. Es la costumbre, pues.

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    Não tente fazer em casa

    O índio shipibo Peshe Meni desenhou para a Super o ritual de extração do clitóris dos índios peruanos
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    1 – Durante um ano, a família da jovem planta mandioca e cria animais. Quando chega o anissehati – a grande festa que dura uma semana – os animais são sacrificados e a mandioca é fermentada para virar masato, uma bebida alcoólica. No último dia, a jovem permanece entre duas mulheres, que a seguram, indo e voltando para o centro da roda, onde todos dançam. Lá, ela bebe o masato

    2 – Quando a jovem está embriagada a ponto de perder os sentidos, algumas mulheres a tiram do grupo e a levam a uma casa. A especialista no corte amarra uma faixa apertada em volta da cintura da noviça. Com uma faquinha ela desfere o golpe fatal. O clitóris e pedaços de cabelo são escondidos, objetos de tabu. Uma argila é aplicada para que o local não feche e uma corda feita de uma árvore é amarrada em volta da cintura – e retirada apenas um mês depois

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