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Qual é a origem do Dia de Ação de Graças?

Nada de jantar simpático: uma aliança militar entre uma tribo nativa e protestantes radicais se tornou um mito de fundação moldado aos interesses dos colonizadores.

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 26 nov 2020, 18h44 - Publicado em 28 nov 2019, 18h02

O feriado mais importante dos EUA começou como uma festa de comemoração de colheita – quem vive de plantar e colher festeja esse segundo momento com intensidade, pois é ele que garante a sobrevivência do plantador, claro.

Esse tipo de comemoração, então, existe desde que o mundo é mundo. E o mundo é mundo, as we know it, há mais ou menos 15 mil anos, quando da criação da agricultura. As técnicas de plantar e colher surgiram primeiro no Oriente Médio. E foi lá, naturalmente, que a humanidade teve suas primeiras festas agrícolas.

Uma delas segue viva até hoje: você conhece como “Páscoa”. A coisa começou como uma comemoração de colheita, há uns bons milhares de anos. Mas “recentemente”, por volta de 800 a.C., os israelitas incluíram essa comemoração em suas tradições, e passaram a comemorar o Êxodo do Egito, tradição fundadora da identidade judaica, na época dessa festa. Daí ela ganhou seu nome atual (que veio de “Pesach”, “passagem” em hebraico). Depois, os primeiros cristãos incluiriam a data em suas próprias tradições, relacionando a data da ressurreição de Cristo à Páscoa.

Mas estamos falando aqui do Dia de Ação de Graças. E ele tem tradições bem peculiares. A raiz do Thanksgiving remonta a Henrique 8o (1491-1547), o rei inglês que rompeu com o catolicismo, criando uma Igreja para chamar de sua, a anglicana, que segue firme como a congregação religiosa oficial da ilha. Isso ocorreu no mesmo contexto social e político da Reforma Protestante de Martinho Lutero.

Como o rompimento, Henrique 8o acabou com uma série de feriados católicos. Sabe como é: santos não têm vez entre protestantes. Para compensar, a Igreja anglicana criou comemorações-tampão para colocar no lugar: os Dias de Jejum e os Dias de Ação de Graças. Eles não tinham data fixa: eram decretados para celebrar momentos importantes, como a coroação de um monarca ou a vitória em uma batalha.

A tradição americana diz que o “primeiro Dia de Ação de Graças” em algum território que faça parte dos EUA atuais aconteceu em outubro de 1621, em Plymouth, no atual Massachusetts. É um equívoco. Sabe-se hoje que houve uma série de celebrações de Ação de Graças nos anos anteriores, principalmente na região do atual estado da Virgínia, que também recebeu colonos britânicos bem cedo. A regra era simples: se algo bom aconteceu, agradeça com um banquete.

O banquete de Plymouth, porém, ganhou aura mitológica por ter reunido colonos britânicos e nativos americanos, do grupo étnico Wampanoag. Esses colonos específicos escaparam para a América no navio Mayflower porque eram de um grupo de protestantes que se opunha aos anglicanos. Eles seguiam tradições calvinistas, eram conhecidos como Peregrinos (Pilgrims, em inglês) e não eram bem-vindos no Reino Unido.

As versões infantis da história – feitas para fixar o mito na cabeça da molecada – dizem que os nativos ensinaram de bom grado os colonos a plantar e caçar, e todos ficaram “amigos”. Fantasia pura: embora os nativos de fato tenham ensinado os protestantes a lidar com as espécies locais, isso não foi feito por caridade nem era o objetivo principal do contato.

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O que houve entre colonos de Plymouth e os Wampanoags foi uma aliança militar. A tribo sofria os efeitos de uma praga, que dizimou boa parte de sua população, e começou a ser atacada por tribos rivais. Os Wampanoags, porém, tinham um trunfo. Um de seus membros, um sujeito de apelido Squanto, já tinha sido escravo de europeus – a colonização das Américas, afinal, tem tudo a ver com pilhagem, poder e escravidão lá no Hemisfério Norte também.

Dada sua experiência prévia, Squanto falava inglês. E quem se comunica, Chacrinha já dizia, não se trumbica. Com Squanto fazendo o meio de campo linguístico, a chefia dos nativos entrou num acordo com a dos colonos, e nasceu a aliança militar. Aliança que acabou marcada pelo tal Dia de Ação de Graças multiétnico, com 90 Wampanoags e uns 50 britânicos. Até que ponto houve de fato um banquete de celebração? É difícil saber.

A figura de Squanto, na verdade, simboliza um grande número de indivíduos desse grupo étnico que já estavam ligados na chegada do Mayflower e sabiam com quem estavam lidando. Não era um cara só. Grupos étnicos diferentes, e tribos dentro desses grupos étnicos, tinham divergências políticas acirradas sobre se aliar ou não aos europeus. A aliança de que tratamos aqui não era unanimidade entre os Wampanoags.

O que importa é o seguinte: esse dia de ação de graças (em letras minúsculas) comemorado entre cristãos e índios se tornou o Dia de Ação de Graças com letra maiúscula. Um dia que não comemora uma colheita, mas a própria colonização da América – e que só se tornou um feriado oficial em 1863, no governo Lincoln.

Foi algo conveniente: no século 19, os EUA estavam interessados em forjar a imagem de uma colonização pacífica, que legitimasse os protestantes como donos daquela terra. “Os protestantes brancos estavam infelizes com o fluxo migratório de judeus e católicos europeus, e queriam assegurar sua autoridade cultural”, explicou o historiador David Silverman, da George Washington University, ao Smithsonian. “O melhor jeito de fazer isso foi criar um mito de fundação em que os nativos convidam os peregrinos a tomar posse da terra.”

Àquela altura, a população indígena da costa leste já estava praticamente dizimada – e a versão distorcida dos colonizadores prevaleceu. A graça de um, afinal, costuma ser a desgraça do outro.

 

 

 

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