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Qual o real interesse por trás da libertação dos escravos no Brasil?

Movimentos sociais e novos ventos na economia culminaram no fim oficial do regime escravocrata no Brasil

PERGUNTA DA LEITORA Vitória Mourão, Boa Vista, PR
ILUSTRA Jefferson Costa
EDIÇÃO Felipe van Deursen

1 – Impulsionado pelos ideais de liberdade da revoluções Francesa e Americana (ambas no século 18), o movimento abolicionista ganhou força ao redor do mundo no século 19. Ao mesmo tempo, a Revolução Industrial criou mais mercados consumidores e modificou as relações de trabalho, com movimentos operários batalhando em prol da valorização do trabalhador livre

 

 

2 – Os ingleses queriam expandir seu mercado para o Brasil, mas, para isso, precisavam de mais consumidores (ou seja, de mais trabalhadores livres com dinheiro), e não de mais escravos. Para isso, eles proibiram o tráfico de escravos em 1807. Em 1845, a Lei Aberdeen permitia à Marinha inglesa prender e punir qualquer navio negreiro encontrado nos mares

 

 (Jefferson Costa/Mundo Estranho)

3 –  Enquanto isso, o governo brasileiro lançou leis (pouco respeitadas) que proibiam o desembarque de escravos. O movimento abolicionista brasileiro ganhou força na segunda metade do século. Após a Guerra do Paraguai (1864-1870), em que muitos negros lutaram, ele ficou ainda mais forte. Igreja, Exército, intelectuais, profissionais liberais e universitários passaram a apoiar o fim da escravidão

 

 (Jefferson Costa/Mundo Estranho)

4 – Com o mercado sob pressão, o preço do escravo disparou. O Império incentivou a imigração europeia, que foi lucrativa, já que rendia mais para os fazendeiros e empresários em geral explorar o trabalho assalariado mal pago do que bancar os custos de um escravo. A resistência negra se manifestou por meio de rebeliões, mas elas eram esparsas e, às vezes, não defendiam abertamente o fim da escravidão

 

 (Jefferson Costa/Mundo Estranho)

5 – Novas leis surgiram. A do Ventre Livre (1871) dava liberdade aos filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data. Já a dos Sexagenários (1885) livrava os escravos com mais de 60 anos. Ambas eram controversas, pois davam margem para que os mais vulneráveis da população negra (crianças e idosos) fossem jogados à própria sorte. Mas a Ventre Livre tinha uma vantagem prática real: permitiu que escravos comprassem a própria alforria, o que era possível com trabalhos remunerados e até “vaquinhas”

 

 (Jefferson Costa/Mundo Estranho)

6 – Alguns especialistas afirmam que a Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea em 1888 (o fim oficial da escravidão), era uma pessoa alheia, que entrou na luta só após a pressão ser grande demais. Já outros dizem que os principais membros da família real eram abolicionistas convictos, mas não agiam mais por causa do poder da aristocracia rural, que dominava o Congresso

 

 (Jefferson Costa/Mundo Estranho)

7 – Os fazendeiros argumentavam que, com o fim da escravidão, a economia entraria em colapso. Mas isso não aconteceu em outros lugares do mundo. Onde não existia mais escravidão, havia desenvolvimento. Sem receber indenização, os senhores de escravos retiraram o apoio político a um já cambaleante Império, o que levaria à Proclamação da República, em 1889

 

 (Jefferson Costa/Mundo Estranho)

8 – Apesar de a Lei Áurea ter sido uma vitória para as pessoas escravizadas, elas e seus descendentes nunca foram ressarcidos pelos horrores que sofreram, perpetuando a desigualdade no Brasil. Permaneceram à margem e foram estigmatizados pelas gerações seguintes, algo visível até hoje. Para alguns especialistas, a Lei Áurea serviu para responder às pressões sociais e econômicas de um mundo novo sem, de fato, dar poder aos negros e, assim evitar que uma revolução surgisse entre as camadas mais baixas da população contra a elite do país. “O abolicionismo foi o primeiro grande movimento político de massa no Brasil”, afirma Martha Abreu, professora de história da Universidade Federal Fluminense

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ABOLICIONISTAS NOTÁVEIS
Grandes homens que trabalharam pelo fim da escravidão

 (Jefferson Costa/Mundo Estranho)

1 – André Rebouças (1838-1898) Advogado autodidata, engenheiro e conselheiro do Império, defendia que a integração do negro à sociedade passava pela garantia do acesso à terra

2 – Francisco José do Nascimento (1839-1914) Conhecido como Dragão do Mar, foi líder jangadeiro do Ceará, primeira província do Império a abolir a escravidão, em 1884. Ajudou a impedir o tráfico nas praias locais

3 – Luís Gama (1830-1882) Escritor, jornalista e advogado autodidata, atuava nos tribunais para conseguir a alforria de escravos e defendia negros acusados de crimes. Ajudou a libertar mais de 500 pessoas

4 – José do Patrocínio (1853-1905) Filho de um vigário e uma escrava, fez faculdade de farmácia e atuou como jornalista. Auxiliou fugas de escravos e liderou campanhas para a compra de alforrias

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CONSULTORIA Eduardo Molina, historiador e professor da professor da FMU/Objetivo (SP), Laurentino Gomes, escritor de livros sobre a história do Brasil (está preparando uma trilogia sobre a escravidão), Martha Abreu, historiadora e professora da UFF (Niterói, RJ), e Reinaldo Guimarães, professor de Serviço Social da Faculdade Anhanguera (Niterói, RJ) e pesquisador do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros
FONTES Artigo O Destino dos Negros após a Abolição, de Gilberto Maringoni; livro O Castelo de Papel, de Mary Del Priore; sites Almanaque Brasil, BBC Brasil e Fundação Cultural Palmares

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