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Saara elétrico

Maior projeto de energia limpa do mundo vai transformar o sol que aquece os escorpiões do deserto em eletricidade para a Europa

Texto Pedro Burgos

Nos imensos desertos do Norte da África e do Oriente Médio pode estar a solução para dois grandes desafios: o subdesenvolvimento dos países africanos e a demanda por energia limpa na Europa. Basta aproveitar o sol. Essa é a idéia do projeto multinacional Desertec, que prevê a instalação de dezenas de usinas solares CSP – sigla em inglês para energia solar concentrada – e a exploração de outras fontes renováveis de energia, além de uma rede de cabos com uma tecnologia que permite a transmissão de eletricidade por milhares de quilômetros (veja quadro ao lado). A ambiciosa iniciativa já conta com o apoio do governo alemão e com o entusiasmo de grandes empresas européias.

Ao preço de R$ 680 bilhões, o projeto traria, além do suprimento de 15% da energia consumida pelos europeus, um empurrão no desenvolvimento dos países africanos e asiáticos. Esse, ironicamente, é o maior empecilho ao plano: a União Européia – em especial a França – teme entregar poder numa área tão estratégica a regimes politicamente instáveis. Sem falar que alguns deles, como Argélia e Marrocos, ainda guardam rancor pela ocupação francesa que durou até o século passado.

O engenheiro inglês Gerry Wolff, coordenador do Desertec, minimiza as dificuldades. Para ele, a divulgação da idéia já é uma vitória. “Muitas pessoas, incluindo homens de negócios e investidores, já reconhecem os atrativos da CSP e transmissão de longa distância. Isso significa que o conceito Desertec já está saindo do papel em vários lugares do mundo.”

Limpa, eficiente e interligada

Como é a rede de geração e distribuição de energia renovável do projeto Desertec

Eólica

A transformação do vento em eletricidade é a energia limpa do momento. “Fazendas de vento” são comuns no litoral europeu. O problema é que os ventos diminuem no verão e no inverno. Por outro lado, essas são as épocas mais propícias à obtenção de energia solar – as duas fontes se complementariam no projeto.

CSP

Usa espelhos gigantes para refletir a luminosidade para uma torre, aquecendo a água até ela evaporar e movimentar turbinas geradoras de eletricidade. A vantagem adicional dessa usina é que ela dessaliniza a água do mar, que pode ser usada em projetos de horticultura na sombra dos espelhos.

Geotérmica

Esse novo tipo de usina bombeia água para o subterrâneo, onde as rochas são muito quentes, através de um buraco de até 1 000 km. No percurso a água vai se aquecendo e volta para a superfície já em forma de vapor, que movimenta as turbinas. O subproduto do processo é calor para aquecimento das casas.

Fotovoltaica

A tecnologia de painéis solares é conhecida há décadas, mas a sua implantação sempre foi considerada cara. Hoje as células solares são mais finas e acompanham automaticamente a luz do sol, como girassóis, aumentando sua eficiência. É ideal para cidades pouco populosas e comunidades rurais.

Hidrelétrica

As usinas hidrelétricas são barragens em rios de grande vazão que utilizam a força das quedas d’água para movimentar enormes turbinas. São pouco comuns na Europa. O esforço agora está em aproveitar as quedas de água que surgem em montanhas geladas da Noruega e Islândia e nos Alpes.

HVDC

Sigla para corrente direta de alta voltagem, é uma linha de transmissão de baixo desperdício. Normalmente 15% da energia elétrica é perdida a cada 1 000 km. Com o HVDC, essa taxa cai para 3%, tornando possível levar para a Europa, por baixo do Mediterrâneo, a energia gerada no deserto.

Biomassa

Em vez de queimar bagaço ou lenha, as mais modernas usinas de biomassa transformam quimicamente o material orgânico em um gás não poluente, o verdadeiro combustível do processo de geração de energia. No caso europeu, a matéria-prima são restos de madeira reflorestada.