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Tecnologia

Maravilhas desconhecidas, desastres experimentais e outros equipamentos exóticos desenvolvidos pelos participantes do confronto.

Por Fábio Marton - Atualizado em 13 dez 2019, 17h27 - Publicado em 29 nov 2019, 17h21

O maior canhão já feito e usado na guerra – e só não podemos dizer o maior canhão, ponto, por outra invenção alemã, o V3 (leia mais abaixo). Para que servia isso? Não muito. Era uma ideia antiquada a ser usada contra outra ideia antiquada: a Linha Maginot. Os franceses, famosamente, criaram a mais potente série de fortificações jamais vista, na fronteira com a Alemanha, para impedir uma invasão como na Primeira Guerra. No fim das contas, os alemães simplesmente deram a volta e invadiram pela bem menos defendida fronteira com a Bélgica. Concebidos em 1936, antes de a própria Linha Maginot ser concluída, os supercanhões Gustav e Dora só ficaram prontos em 1941, mais de um ano após Paris ter caído. Eram canhões ferroviários, que exigiam dois trilhos paralelos para mover seu carro de 80 rodas. Com seu projétil de 7.100 kg, 80 cm de calibre, e um alcance de até 47 km, só podiam apontar para frente, ou o recuo os faria tombar de lado. Assim, os trilhos eram dispostos em curvas para permitir atirar em outra direção.Uma tripulação de 250 soldados era necessária para montar o canhão, ao longo de três dias, mais 2.500 para pôr os trilhos. Incluindo proteção antiaérea, o total chegou a 4.500 soldados. Sem cumprir seu uso original, na Linha Maginot, o Gustav foi enviado ao Front Oriental, atuando, entre 5 e 17 de junho de 1942, no Cerco de Sebastopol. 48 tiros foram disparados, com sucesso, incluindo a destruição de um paiol de munições a 30 m de profundidade. Com esse uso, seu cano teve que ser mandado para recondicionamento. Seria posto em Leningrado no fim do ano, mas não daria mais nenhum tiro. Dora estaria presente no cerco de Stalingrado em agosto de 1942, mas não há registro de ter disparado. Quando disparavam, os supercanhões faziam seu trabalho. Mas não fazia mais sentido usar uma artilharia tão custosa, e extremamente vulnerável a bombardeios, para atacar alvos que então já podiam ser destruídos por aviões. Scargill/Wikimedia Commons
Na época chamaram de bomba voadora, mas é o primeiro míssil de cruzeiro. Isto é, um míssil que voa, como um avião. Também é a única aeronave a usar um motor pulsojato, uma forma intermitente de combustão, que causava um ruído aterrador – daí ganhar o apelido de buzzbomb, “bomba zunido”, dos britânicos. Era programado mecanicamente para voar em linha reta e mergulhar ao solo após determinada distância. Podia ser interceptado por caças, mas apenas os mais rápidos podiam acompanhá-lo e, mesmo assim, atirar causava uma explosão que podia destruir o caça. Os pilotos desenvolveram manobras exóticas, como dar um “totó” com as asas para desequilibrá-lo. Blockhaus Museum at Eperlecques/Getty Images
Se o V-1 dava chance e aviso, o 2 não tinha nada disso. Como que do nada, sem qualquer som e geralmente nada ser avistado, um quarteirão inteiro simplesmente ia pelos ares, levando consigo dezenas de pessoas. Isso porque, movendo-se a várias vezes a velocidade do som, o ruído só chegava depois dele. A segunda arma mais avançada de toda a guerra, depois das bombas atômicas, foi o primeiro foguete espacial, podendo atingir até 206 km de altitude (a altitude dos satélites mais baixos), mas se limitando a 80 km num voo típico. Clamaria 9 mil vidas. Imperial War Museum/Domínio Público
Imagine vários canhões disparando dentro do cano de um canhão maior. Uma série de tubos conectada diagonalmente, como ramos de uma árvore de Natal no tronco. O projétil passa pelo tubo principal e, ao encontrar cada cano secundário, uma nova carga explosiva é disparada nele, aumentando sua velocidade. Após 130 metros disso, você tem um projétil movendo-se a 4,4 vezes a velocidade do som, capaz de atingir um alvo a 165 km, como nenhuma outra artilharia convencional antes ou depois. Repita o processo, em vários outros tubos, 600 vezes por hora, contra Londres. Essa era a imagem na cabeça de Hitler quando insistiu, contra conselhos de diversos engenheiros militares, em investir na terceira arma da série V (de Vergeltungswaffen, “armas de retaliação”, como as outras acima). A ideia do 3 era a mesma do 1 e do 2: achar um jeito de atacar o Reino Unido depois que a Alemanha havia perdido completamente a supremacia aérea e bombardeiros se tornaram suicídio. Uma imensa instalação, com 25 canhões V-3, foi construída na França, em Mimoyecques. E destruída antes que pudesse ser posta em operação por bombas-terremoto britânicas. Após o fracasso na França, os nazistas instalaram uma versão miniaturizada, com apenas dois canos de 50 m, apontada para Luxemburgo, ocupado pelos Aliados. Entre 11 de janeiro e 22 de fevereiro de 1945, o V-3 disparou 183 vezes contra a cidade, causando apenas dez baixas. Bundesarchiv/Wikimedia Commons
A primeira bomba inteligente da história foi criada para superar o desafio de atingir navios em movimento a partir de um avião em movimento. Na época se usava um torpedo em linha reta, o que podia permitir manobras de evasão. A Fritz X funcionava por rádio controle. Ao ser lançada, o operador tinha que manter seus olhos na mira até atingir o alvo. O míssil soltava um rastro de fumaça, para ajudar o operador a ver aonde ele estava indo. Vários navios Aliados foram atingidos, e também o encouraçado italiano Roma, afundado para não cair em mãos Aliadas. Sanjay Acharya/Wikimedia Commons
O título de maior avião da Segunda Guerra não fica com o B-29 americano, um monstro que podia tirar do chão 60 toneladas. Fica com uma máquina que acabou por ser completamente irrelevante. O descomunal BV-238 foi uma versão supersized do já gigantesco navio voador BV-222 Wiking, de 50 toneladas de peso máximo na decolagem. Basicamente, levantaria o dobro do peso. O 238 teve vida curta e nunca entrou em ação: começou os testes em abril de 1944, quando a guerra entrava nos finalmentes para a Alemanha e teve dois “irmãos” encomendados, mas nunca concluídos. Avistado no lago de Schaal, perto de Hamburgo, foi destruído por dois P-51 Mustang americanos em setembro de 1944. Achava-se que seria usado por Hitler para fugir para a América do Sul. Talvez. Bundesarchiv/Wikimedia Commons
Duas fuselagens de bombardeiros médios He-111 soldadas para criar um avião maior, com cinco motores, capaz de fazer decolar o elefântico planador Me-321 Gigant. Os controles ficavam na fuselagem da direita. A outra tinha que carregar um mecânico e operador de armas adicional. Gambiarra, mas funcionou: os pilotos gostaram, e versões de bombardeiro e reconhecimento foram projetadas. Nunca saíram da prancheta. Domínio Público/Wikimedia Commons
Uma máquina capaz de carregar 34 toneladas não é o que as pessoas têm na cabeça hoje ao pensar em “planador”, mas foi o que a Alemanha nazista (e os Aliados, com modelos menores) consideraram a opção mais econômica para levar material para o front. O Gigant, seu apelido oficial, foi pensado para a invasão da Grã-Bretanha, que nunca aconteceu. Seria então usado na União Soviética, particularmente na Batalha de Stalingrado. Vários seriam reformados, recebendo motores. U.S. War Department publication/Domínio Público
Foi o maior transporte da Segunda Guerra, uma versão motorizada do planador Me 321, e também chamado de Gigant. Voava tão bem quanto dá para imaginar vendo a imagem acima: uma banheira pouco aerodinâmica. Mesmo os seis motores não eram suficientes para mover o planador convertido de forma eficiente. A velocidade de cruzeiro ficava nos 218 km/h. Isso também limitava o alcance a no máximo 1.200 km. Ainda assim, foi o burro de carga da campanha de Rommel no Norte da África. Royal Air Force/Domínio Público
Talvez o projeto de avião mais radical a entrar em produção: um microcaça a foguete que atingiu, num teste, 1.130 km/h – recorde que só seria superado por Chuck Yeagger no primeiro supersônico da história, o X-1, em 1947. Sua cauda era incompleta e, por seu tamanho reduzido, não era capaz de portar as rodas de decolagem. Elas eram descartadas no ar e o avião tinha que pousar sem rodas, sobre um trenó metálico retrátil. Mais um detalhe: as asas eram feitas de madeira. O 163 ascendia quase na vertical, a incríveis 81 m/s – quatro vezes mais que os aviões mais potentes na subida de então, inclusive jatos. Levava 2 minutos para alcançar os 9.000 m nos quais operavam os grandes bombardeiros Aliados. Disparava uma primeira vez, então ultrapassava o alvo, chegando a 12.000 m, para fazer o mergulho para um segundo ataque, quando atingia sua velocidade máxima. Depois disso, era voltar à base planando. A carga do motor a foguete só durava 5 minutos. Mais um detalhe precário e com um lado meio cômico: o avião não era pressurizado. Numa subida tão vertiginosa, os gases do intestino se expandem, com resultados no mínimo constrangedores. Para controlar o gasoso problema, os pilotos faziam uma dieta pobre em fibras alguns dias antes de decolar. A incrível gambiarra era quase impossível de interceptar em velocidade plena, mas ficava vulnerável quando acabava a curta carga do motor e tinha que planar, e também na pista, porque, sem rodas, ficava parado até chegar o tratorzinho para rebocá-lo ao hangar. A outra dificuldade operacional com o 163 era funcionar bem demais. Na velocidade em que atacava, havia muito pouco tempo para disparar contra os adversários antes de perdê-los de vista. Somente pilotos muito experientes conseguiam aproveitar essa janela mínima. Entre maio de 1944, quando foram introduzidos, e o fim da guerra, os mais de 300 Me 163 derrubaram apenas entre 9 e 18 aviões Aliados. USAF/Domínio Público
Contrário à percepção popular, os alemães na verdade tinham um bombardeiro pesado comparável aos americanos e britânicos, e o tinham em números: 1.169 unidades construídas. O 177 combinava o grau de proteção do B-17 Flying Fortress americano, com sete armas defensivas (o B-17 tinha nove), e a capacidade de carga do Avro Lancaster britânico, até 7 toneladas de bombas (o Lancaster levava 6.400, exceto pela versão modificada para a Grand Slam). Era também bem mais rápido que ambos: 565 km/h versus 462 km/h do B-17 e 454 km/h do Lancaster. Pena que se destruía sozinho. O problema veio da ambição do projeto: os dois motores gigantes, sobrecarregados, podiam se incendiar. Ganhou o apelido de Reichsfeuerzeug, o “isqueiro do Reich”. A estrutura geral do avião, derivada de uma irreal ideia de criar um bombardeiro gigante de mergulho, isto é, um que dispara apontando para o solo, era frágil, com pilotos frustrados que um bombardeiro pesado tinha que ser controlado “como se fosse de vidro”. Mesmo assim, viu bastante ação, e só não é mais famoso porque foi pouco avistado no Front Ocidental. Seu emprego foi principalmente contra os soviéticos. U.S. War Department publication/Domínio Público
O único projeto “kamikaze” alemão a entrar em ação era um bombardeiro leve Ju-88 carregado com duas toneladas de explosivos (quatro vezes a carga típica de um kamikaze japonês). Ele decolava com um caça Bf 109 ou Fw 190 preso em cima, ligado por cabos de forma que o piloto do avião menor pudesse controlar o maior. Ao avistar o alvo, o avião-bomba era apontado para o alvo e desacoplado. Seguia reto, por piloto automático, até seu final. Entre 1943 e o fim da guerra, os alemães construíram 250 Mistels – o nome vem de “visco” em alemão, uma erva parasita, como o caça parasita que guiava o bombardeiro sacrificado. Os resultados foram bem menos impactantes que a campanha de kamikazes japoneses. A única ação com vítimas fatais foi o ataque à fragata HMS Nith, em 24 de junho de 1944, que não afundou, mas teve nove mortos pela explosão próxima. No fim da guerra, foram usados contra os soviéticos, tentando parar seus esforços de construir pontes para a invasão da Alemanha. O resultado foi meros empecilhos temporários. U.S. Army images/Wikimedia Commons
Em 1937, o Ministério da Aeronáutica da Alemanha lançou uma concorrência para um novo avião de reconhecimento. Os pré-requisitos eram ter o maior campo de visão possível e ser um monomotor – o que tornava o projeto difícil, pois o motor na frente era um enorme obstáculo para a visão. A solução encontrada pelo engenheiro Richard Vogt foi mais que radical: ele simplesmente botou o piloto fora do avião, em uma nacela no meio da asa, terminando com um avião com uma asa maior que a outra e uma cauda com um lado só. Como essa engenhoca voava? Melhor que os outros. Todo avião monomotor é “torto”: o giro da hélice (torque) faz ele tender a girar na direção contrária. Mas a nacela exterior compensava por isso, e o 141 era mais estável. Bundesarchiv/Wikimedia Commons
Funcionava assim: você apertava uma letra e uma lâmpada com outra letra se acendia acima da máquina. Aí alguém – provavelmente um assistente, não quem teclava – tinha que anotar num papel ou máquina de escrever. Se essa mensagem cifrada fosse digitada em outra máquina, a sequência seria a original, legível. Exteriormente, era só isso, uma máquina de trocar letras. Que os Aliados, aliás, já conheciam de antes da guerra, pois era vendida comercialmente. E capturaram vários modelos modificados durante a guerra. Ainda assim, precisaram de um trabalho hercúleo para decifrá-la. Pela forma como funcionava: uma corrente elétrica, ativada pela letra digitada, corria por uma série de rolos que embaralhavam o sinal, por um caminho complicado (veja acima) que terminava em outra letra. A cada letra digitada, os rolos mudavam de posição, de forma que a mesma letra não daria o mesmo resultado se digitada duas vezes. No fim das contas, mesmo tendo a mesma máquina, só seria possível decifrá-la se você conhecesse a configuração inicial dos rolos – o código – antes de usá-la. Mas havia uma falha grave: as máquinas Enigma tinham limitações nas combinações possíveis, não importa a configuração. E isso foi usado pelos Aliados para derrotar a máquina, com a ajuda da Bombe, criada pelo matemático Alan Turing, e depois os Colossus, primeiros computadores modernos. Com isso, as comunicações dos nazistas ficaram comprometidas, sem que eles sequer desconfiassem, permitindo múltiplos subterfúgios dos Aliados. Museo Scienzia e Tecnologia Milano/Wikimedia Commons
Não dá para negar que haja algo de carismático no que parece ser um tanque de brinquedo. Mas, quando cumpria sua missão, tinha um resultado devastador: a mina Goliath (“Golias”) era controlada por um cabo de 650 metros por tripulações de tanques. Levava, em sua versão maior, 100 kg de explosivos de alta capacidade, capazes de destruir um tanque inimigo, uma casa ou dezenas de soldados em campo aberto. Foram usadas contra os poloneses no Levante de Varsóvia, em 1944, e estavam presentes no Dia D. Nesse último caso, não foram muito úteis: tiros de artilharia cortaram os cabos que os ligavam a seus controles-remotos. Na maior parte das fotos, os Aliados, de fato, parecem estar as tratando como um brinquedão. baku13/Wikimedia Commons
Nenhum sistema de controle remoto da Segunda Guerra tinha precisão comparável à de um piloto. O Ohka foi a única arma especificamente empregada para ataques suicidas aéreos. Portando uma ogiva de 1.200 kg, maior que a de um foguete V-2 alemão, era basicamente um míssil de cruzeiro com uma pessoa dentro. Atingindo 926 km/h no seu mergulho final, também era impossível de interceptar. Mas tinha uma grave falha: seu alcance curto (37 km) obrigava a levá-lo num lento bombardeiro até perto do inimigo. O bombardeiro era alvo fácil para caças americanos. US Navy images/Wikimedia Commons
Um balão de hidrogênio com uma bomba, solto ao vento. Essa foi a primeira arma intercontinental da história, um sonho perseguido sem sucesso pela Alemanha. Os japoneses lançaram 9.300 balões Fu-Go (“Código Arma”) ao ar, esperando pelo melhor. 300 chegaram lá, mas a maioria caiu em áreas inabitadas. Só um atingiu humanos, causando seis mortes de civis. US Navy images/Domínio Público
Não, não é engraçado. O Japão matou até 500 mil chineses – mais que o dobro de Hiroshima e Nagasaki combinadas – com insetos contaminados. Eles eram derrubados em bombas tipo Ishii (do general Shiro Ishiii, o líder da divisão de pesquisas com armas biológicas, a Unidade 731). As bombas eram complexos invólucros de cerâmica com uma cauda estabilizadora de metal, que soltavam sua carga no ar. Andy Faria/Superinteressante
Um submarino que é um porta-aviões. A ideia não surgiu no Japão, mas o país seria o único na história a pô-la em prática. Havia 42 submarinos portando aviões no país e de um deles partiram os poucos ataques aéreos aos EUA continentais. O maior deles, os Lookout Air Raids, com os quais os japoneses tentaram incendiar florestas no Oregon, entre 9 e 29 de setembro de 1942. Na prática, era uma coisa bem limitada: um submarino japonês típico levava só um avião, alguns dois, e os maiores de todos, os I-400, três. Um porta-aviões da classe Essex podia levar 100 aviões. Com 122 metros de comprimento e 6.560 toneladas, os três I-400, de cuja existência os americanos não desconfiavam até o fim do conflito, foram os maiores submarinos da Segunda Guerra. Portavam três aviões especialmente desenvolvidos para eles, os Aichi M6A Seiran. O avião não era lá tudo isso: como não havia pista de pouso no submarino, tinha que ser um hidroavião, pouco aerodinâmico e por isso lento, para pousar na água e ser recolhido. A Marinha Imperial Japonesa tinha grandes planos para os I-400. Duas missões foram programadas para setembro de 1945: uma, atacar a cidade de San Diego com armas biológicas, podendo causar a morte de dezenas de milhares. A outra, destruir o Canal do Panamá. Domínio Público/Wikimedia Commons
Se os japoneses foram de porta-aviões submarinos, os russos preferiram tentar o porta-aviões aéreo. O projeto Zveno (“esquadrilha”) consistia num bombardeiro TB-1 ou TB-3 e até cinco caças. Na versão que entrou em combate, um TB-3 com dois Polikarpov I-16. Podiam decolar juntos ou se acoplar no ar. Chegando ao local de ataque, os caças se desatrelavam do bombardeiro e davam escolta ou cumpriam missões próprias, como ataques direcionados. Dependendo da distância da missão, voltavam então sozinhos ou se atrelavam novamente. Parece exótico, mas era uma solução brilhante para um problema universal da época: caças, diferente de bombardeiros, não tinham capacidade de combustível para voar até um alvo a milhares de quilômetros. Bombardeiros, sem os caças, ficavam vulneráveis a ataques inimigos. Melhor ainda: o bombardeiro, decolando com o poder dos motores dos caças, podia sair mais pesado, carregando mais bombas e combustível. O Zveno cumpriu 30 missões com sucesso, mas acabou aposentado em 1942, porque tanto a “nave-mãe” quanto os caças ficaram obsoletos e não foi possível adaptar o projeto a outros modelos. O problema da escolta persistiria pela guerra, com bombardeiros hiper-armados com torretas defensivas, voos noturnos, caças pesados (inferiores em combate) e, finalmente, caças especializados, como o P-51 Mustang, como saída. A ideia de nave-mãe foi estudada depois da guerra, mas o desenvolvimento do reabastecimento no ar tornou-a obsoleta. Domínio Público/Wikimedia Commons
Um tanque de controle remoto, comandado de outro tanque a até 1,5 km. Podia ser usado para liberar cortinas de fumaça, soltar bombas próximo a fortificações inimigas, disparar com metralhadoras ou lança-chamas. Só dois foram usados no começo da guerra e logo abandonados. Era uma ideia excessivamente futurista, pois os tanques não tinham câmeras de televisão. O tanque era cego. Os soviéticos estavam desenvolvendo uma solução, mas a Alemanha invadiu antes. Domínio Público/Wikimedia Commons
A Alemanha nazista saiu na frente em foguetes. Tendo estudado a tecnologia criada nos EUA por Robert Goddard, subestimada no próprio país, ela entrou na guerra com a União Soviética com a bateria de foguetes fixa Nebelwerfer. A Rússia respondeu com a ideia mais simples do mundo: criou suas baterias, mas em cima de caminhões. A “Catarininha”, batizada em homenagem a uma música tradicional russa, foi uma revolução: podia atacar e bater em retirada imediata, sem que os alemães pudessem responder. RIA Novosti/Wikimedia Commons
Um cachorro treinado para se esconder embaixo de um tanque ao comando. Com uma bomba amarrada nele. Cruel? Muito. Eficiente? Nada. Os soviéticos treinaram os cachorros para entrar debaixo de seus tanques, movidos a diesel. Os tanques alemães eram movidos a gasolina. Cães são guiados pelo cheiro. Faça as contas. As pobres Laikas corriam para debaixo dos tanques soviéticos. Isso quando atacavam qualquer tanque. Às vezes simplesmente corriam de volta para seus treinadores, com bomba armada. Que eram obrigados a matar o bicho a tiros. Não é difícil entender por que os soldados do Exército Vermelho abominaram a ideia. Andy Faria/Superinteressante
Montar num torpedo: essa foi a solução que a Itália encontrou para sua inferioridade naval no Mediterrâneo, num projeto que começou bem antes da guerra, em 1935. Oficialmente chamado Siluro a Lenta Corsa (“torpedo lento”), ganhou o apelido de Maiale (“porco”) pelos homens-rã que o operavam, dada sua lentidão e falta de manobrabilidade. Apesar do nome, não era uma arma suicida: a ogiva era destacável e magnética. Quando chegavam aos alvos, sem nunca emergir, os tripulantes a prendiam no navio inimigo, ativando seu temporizador de 2 horas. Montavam de volta no torpedo e retornavam ao submarino do qual haviam sido disparados. Deu certo: o torpedo humano resolvia a imprecisão dos torpedos convencionais e o enorme risco aos submarinos quando tinham que revelar sua posição para atacar. Em 19 de dezembro de 1941, três Maiales afundariam os grandes encouraçados britânicos HMS Valiant and HMS Queen Elizabeth. Foi o suficiente para os britânicos imitarem a ideia, criando no ano seguinte o Chariot, seu próprio torpedo humano. Os alemães também adotaram, inventando o Neger – que, diferente do Maiale e do Chariot, tinha um torpedo comum preso a ele. Que tinha a tendência horrenda a não se destacar na hora do ataque, levando seu operador junto consigo para a morte. Quanto ao Japão, adotou a ideia de seu próprio jeito: o Kaiten era um literal torpedo tripulado kamikaze, que obteve vários sucessos, como seus parceiros aéreos. O torpedo humano continua aí, aliás. Qualquer propulsor de mergulho (o sea scooter) é basicamente um torpedo humano moderno. Museo Sacrario delle Bandiere/Wikimedia Commons

O homenageado pela ideia foi o major-general Percy Hobart, líder do Corpo dos Engenheiros Reais, e os “divertidos do Hobbart” eram tanques especializados de engenharia, adaptados de diversos modelos britânicos, como os tanques Churchill e Matilda, ou o americano M4 Sherman. A ideia era superar os diversos desafios impostos pela invasão anfíbia do Dia D. Missão que cumpriram com louvor, abrindo caminho para veículos militares de engenharia modernos, geralmente desenhados da prancheta, não adaptados a tanques.

MANGUAL – O nome (flail no original) vem da arma medieval formada por uma bola numa corrente. Os Sherman Crab, Matildas Scorpion e Baron, Churchill Toad eram equipados com rolos com correntes com bola na ponta, que giravam, atingindo o solo violentamente. A ideia era detonar todas as minas terrestres no caminho, sobrevivendo. O que, de fato, faziam. IWM/Getty Images
CROCODILE – Um tanque Churchill com um lança-chamas, com 140 m de alcance, em adição a seu canhão de 75 mm padrão. A função era desentocar alemães de suas defesas na praia. Era uma formidável ferramenta psicológica. A mera visão do fogo fazia os alemães saírem correndo e se renderem. IWM/Wikimedia Commons
DD TANK – O Double Drive (“dupla propulsão”) era um Sherman americano dotado de flutuadores e uma hélice subaquática. Os soldados os apelidaram de Donald Duck. No Dia D, eram lançados a até 3,6 km da praia. A maioria chegou à costa para fazer seu trabalho, mas ondas revoltas afundaram dezenas em Omaha. IWM/Wikimedia Commons

 

Do seu bombardeiro Avro Lancaster, a equipe lança sua carga: uma gigantesca bomba, equivalente, em peso, a duas Fat Man de Nagasaki. Erram o alvo, abrindo um buraco alguns metros ao lado. A bomba explode embaixo da terra, sem causar dano aparente. Segundos depois, a estrutura inteira inimiga simplesmente desaba. As bombas-terremoto britânicas vinham em duas versões: a Tallboy, estreando em 8 de junho de 1944, com 5.400 kg, já era a maior bomba derrubada de um avião, quando foi superada pela Grand Slam, nos finalmentes da campanha europeia, em 14 de março de 1945. Extremamente aerodinâmicas, as bombas eram lançadas de 5.500 m de altitude e aceleravam a quase a velocidade do som. Seu nariz era de aço reforçado, impedindo que explodissem ao impacto. Assim, penetravam até 40 metros no chão, ou 7 metros de concreto. Se uma bomba terremoto explodisse dentro de um bunker, seu efeito era como a de uma convencional. O truque estava em “errar”: quando ela penetrava no solo, criava uma caverna artificial (camouflet) que logo despencava sob seu próprio peso, desestabilizando catastroficamente as construções no entorno. Isso era o “terremoto” e o que derrubava as estruturas. Foi como um ataque conjunto de Grand Slams e Tallboys destruiu o viaduto de Bielefeld, em 14 de março de 1945, que ainda estava em pé após 3.500 toneladas de bombas comuns. IWMuseum/Domínio Público
Os britânicos queriam destruir represas alemãs e, por sua estrutura ultrarresistente, isso só seria possível se atingidas pelo lado de dentro. Mas, dentro, havia redes antitorpedo protegendo a parede. Os ingleses se saíram com uma solução exótica: uma bomba que quica. As bombas Upkeep (ou dambuster, “arrebenta-represas”) usadas na Operação Chastise, em 17 de maio de 1943, eram postas para rodar no sentido oposto ao movimento do avião. O resultado é que saltitavam sobre a superfície, por cima das redes, até atingir a parede. Duas represas foram destruídas assim e o resultado foram 1.600 vítimas. Duxford IWMuseum/Wikimedia Commons
Um foguete que solta uma bomba presa a um paraquedas. A ideia era criar um campo minado aéreo e saiu da cabeça de ninguém menos que Winston Churchill. Seriam usadas, mas sem grande sucesso. Não era difícil se desviar de um paraquedas tão visível. E Churchill veria numa demonstração prática o outro empecilho: o vento trouxe os paraquedas de volta ao navio. Felizmente, as bombas eram de festim. Andy Faria/Superinteressante
Na guerra, uma ordem decifrada pelo inimigo pode significar o desastre para uma missão inteira. A Alemanha criou sua máquina Enigma, uma solução mecânica ultrassofisticada que os britânicos, ainda assim, decifraram, pela força da equipe do pioneiro dos computadores Alan Turing. Os americanos tinham algo mais eficiente, o que é, ainda hoje, o único código militar que nunca foi quebrado: índios. Foram recrutados falantes das línguas lakota, meskwaki, mohawk (moicano), comanche, tlingit, hopi, cree e crow. Mas a que ocupou um lugar particularmente decisivo foram os navajos. Sua língua, extremamente complicada, não é inteligível nem aos falantes de línguas da mesma família. Em 1941, estimava-se que apenas 30 pessoas no planeta, fora os próprios navajos, fossem capaz de entender sua língua. Comunicações de maior urgência ou menor grau de sigilo eram simplesmente faladas em dialetos indígenas. Mas havia também um código, extremamente simples, que consistia em usar palavras nas línguas indígenas para representar letras, por meio de sua tradução para o inglês. Em navajo, a palavra moasi significa gato, que em inglês é cat. Portanto, moasi era a letra C. La-chah-eh, cachorro, era a D, de dog. Na batalha de Iwo Jima, seis navajos transmitiram 800 mensagens. O major Howard Connor, chefe das comunicações da 5a Divisão de Marines, principal combatente da batalha, afirmou que “sem os navajos, Iwo Jima jamais seria capturada”. US Army images/Domínio Público
Empestear os nazistas até a derrota. A ideia era disparar com um tubo de spray um composto sulfuroso inofensivo, mas horrendamente fedido – a piada no nome faz referência a quando alguém solta um pum e diz “quem, eu?”. O oficial atingido, repulsivo para todo mundo em volta, ficaria desmoralizado, ou mesmo uma reunião poderia ser cancelada assim. Um carregamento foi enviado para a Resistência Francesa, mas logo descobriram que o “agressor” terminava tão empesteado quanto o agredido. E fácil de encontrar. Andy Faria/Superinteressante
Suponha que você é um operador de caldeira, jogando carvão com uma pá para manter o fogo vivo. Então encontra um rato morto na sala. O que faz? O gesto mais natural é jogá-lo no fogo, e foi pensando nisso que os britânicos inventaram ratos mortos com explosivos escondidos. A explosão do rato em si seria minúscula, mas causaria a explosão da caldeira – de um navio, de uma fábrica, de um trem –, que é catastroficamente potente. A ideia teve fôlego curto: um carregamento com 100 ratos-bomba destinado à Resistência Francesa foi capturado em 1942. Os alemães passaram a transmitir ordens de jamais jogar ratos em caldeiras e continuaram a procurar obsessivamente por ratos mortos. O projeto foi cancelado, mas, pelo tempo perdido pelos alemães, considerado um sucesso. Andy Faria/Superinteressante
Os japoneses tinham os kamikazes. Os alemães inventaram o Mistel. Os americanos também fizeram sua tentativa: seu primeiro drone de ataque. Já chamavam de drone, inclusive – e também “robô”, “bebê” e “Willy Cansado”. E era um plano mais pretensioso que o da competição: a ideia era entupir bombardeiros pesados B-17 Flying Fortress e PB4Y (versão naval do B-24 Liberator) com explosivo Torpex, 50% mais potente que TNT. Isso era feito removendo assentos, rádio, blindagem, armas defensivas, tudo o que não fosse minimamente essencial, podendo assim carregar o dobro de uma carga regular de bombas. No total, 13,6 toneladas de explosivo, mais que o dobro das maiores bombas até então usadas. O drone decolava tripulado, e então, atingindo a altitude adequada, ainda sobre solo amigo, o piloto e o copiloto armavam os explosivos e saltavam. O controle então passava a ser feito por rádio, de outro bombardeiro próximo, que o guiava a colidir com o alvo. No primeiro ataque, em 4 de agosto de 1944, foram quatro aviões. Em um deles, a tripulação saltou com sucesso, mas a aeronave imediatamente entrou em parafuso, caindo no mar. No outro, o piloto morreu por saltar cedo demais e o avião atingiu a vila de Sudbourne, na Inglaterra. O terceiro explodiu no campo, em Oxford, destruindo 8 mil m², matando o engenheiro de voo. O único que chegou a atravessar o Canal da Mancha foi direcionado ao alvo, como planejado, mas caiu a 500 metros dele, atingido por fogo antiaéreo. Nos demais voos, resultados semelhantes. O segundo teve dois aviões perdendo o controle, um deles voando carregado sobre a cidade de Ippswitch antes de cair no mar. O terceiro foi abatido. E assim até o fim do programa, com a perda de uma quase celebridade, Joseph P. Kennedy Jr., irmão do futuro presidente John Kennedy, cujo avião explodiu prematuramente no ar. Saldo final: 14 missões, sete mortes americanas, zero alemã. U.S. Air Force/Domínio Público
O último avião Aliado a ver combate – e o último no qual morreram Aliados – é um obscuro fiasco que já era obsoleto ao entrar em ação. O B-32 surgiu como um plano B caso o ultratecnológico B-29, o avião de Hiroshima e Nagasaki, não desse certo. É basicamente uma versão crescida do B-24 Liberator. Era para, como o B-29, ter vários avanços, mas nada deu certo e o que foi entregue foi um bombardeiro grande, mas com nada de especial. A missão letal foi em 18 de agosto, três dias após a rendição do Japão. Dois B-32 decolaram para uma missão de reconhecimento. Foram interceptados por uma esquadrilha dos japoneses, receosos de um novo ataque. Nenhum foi derrubado, mas o fotógrafo, o sargento Anthony Marchione, morreria por um disparo japonês. U.S. Air Force/Domínio Público
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