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Um criador de problemas

Artigo de Luiz Dal Monte Neto em que conta a história de quebra-cabeças.

Luiz Dal Monte Neto

Um leitor me perguntou recentemente como faço para inventar os puzzles que aparecem nesta seção. Na verdade, não fui eu quem os criou. O que tenho feito é selecionar alguns problemas entre os milhares que existem, procurando dar-lhes uma apresentação mais atraente, ás vezes relacionando-os á nossa realidade imediata, outras, procurando melhorar um pouco seus enunciados ou suas respostas originais. Isto deve ser óbvio para a maioria dos leitores, que certamente já reencontraram por aqui alguns quebra cabeças que freqüentam há muito tempo as mesas escolares, escritórios, bares e restaurantes.

A origem de muitos puzzles é em si mesma, um quebra cabeça sem solução. Já não se consegue identificar a procedência, nem muito menos os autores. Estão por ai há décadas, séculos e circulam entre os homens como a gripe. Sabe-se, porém, a autoria de puzzles suficientes para consagrar alguns nomes. Pessoas que são lembradas e admiradas pela mesma razão que muitas são destadas: passaram a vida criando problemas para os outros.

Uma dessas pessoas chamava-se Samuel Loyd e nasceu na Filadélfia, nos Estados Unidos, em 1841. Seu pai era um corretor de imóveis bem sucedido que havia se transferido para Nova York. Desde pequeno, o introvertido Sam, como era chamado, revelara um talento especial para atividades curiosas, como ventriloquia, mímica e prestidigitação. Os planos paternos destinavam-lhe uma sólida formação em engenharia, mas não previram, aos dez anos, o encontro com o xadrez. O jogo absorveu-o completamente. Passou a se dedicar ao seu estudo e à composição de problemas. O primeiro foi publicado aos 14 anos e, dois anos mais tarde, Loyd já era editor de problemas do Chess Monthly, uma publicação especializada editada por D. W. Fiske e Paul Morphy, este um dos maiores jogadores do século passado.

No xadrez competitivo Loyd não se destacou, mas, em compensação, viria a se tornar um dos maiores problemistas americanos. Sua criatividade ultrapassava qualquer expectativa. Nos aniversários de amigos, chegava a dar-lhes problemas de xadrez rigorosamente compostos, cujas peças apareciam em formação geométrica que geravam as iniciais dos nomes deles! Outras vezes, compunham um contorno estilizado de números, objetos e animais. Possuidor de uma imaginação fantástica, era-lhe incômodo manter-se preso às regras do jogo. Então começaram a surgir problemas de mate em “meio lance”, mates ajudados pelo adversário, e vários outros exemplos de xadrez heterodoxo.
Durante a década de 1870, o interesse de Sam pelo xadrez foi se reduzindo paulatinamente e mais e mais se concentrando nos quebra- cabeças e brindes promocionais inteligentes, em que atingiu a excelência e, segundo consta, ganhou muito dinheiro. Seu primeiro grande sucesso comercial foi um puzzle em cartão chamado The Trick Donkeys (os burros mágicos) teve uma tiragem de milhões de copias. Ele esta reproduzido na figura 1: dois retângulos com burros e outros com dois jóqueis. Pede-se que os três retângulos sejam dispostos de forma que os dois jóqueis montem os burros simultaneamente. Não vale cortar ou dobrar os retângulos.

Outra criação imortal foi conhecidíssima quebra cabeça 14-15(veja figura 2), conhecido pelos franceses como “taquin”, que conquistou meio mundo naquela época e ainda hoje e freqüentemente relançando pelas indústrias de brinquedos. Consistia numa caixinha onde se deslizavam 15 quadrinhos que deviam ser colocados em ordem ( veja a figura3). Loyd ofereceu um bom prêmio a quem descobrisse a solução, mais ela não existia. Naturalmente, ele sabia disso, tanto que também propôs outros enunciados para o mesmo problema, dessa vez com soluções ( e sem prêmios). Caso o leitor se interesse em conhecer as particularidades do 14-15, pode consultar SUPERINTERESSANTE ano 4, nº10, onde o assunto é explicado detalhadamente.

Até a sua morte, em 1911, Sam Loyd manteve colunas em vários jornais e revistas, apresentando milhares de puzzles dos mais diversos temas, dos aritméticos e algébricos aos geométricos e topológicos. Dos alfabéticos e lingüísticos, aos de Físico e teoria das probabilidades. Seu filho continuou por algum tempo o trabalho, mas infelizmente sem o talento equivalente. Em 1914, publicou a Cyclopedia of Puzzles, uma coletânea de boa parte da obra do pai, hoje, coisa de colecionador. Há uma seleção em dois volumes feita por Matin Gardner e publicada em inglês pela editora Dover ( Mathematical Puzzles od Sam Loyd e More Mathematical Puzzles of Sam Loyd).
É provável que Sam Loyd se tornasse um brilhante engenheiro. Quem sabe? Mas, se essa fosse sua opção, a Matemática recreativa não seria a mesma.