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Uma esperança partida

O jornal Quilombo, cuja linha-fina era ¿vida, problemas e aspirações do negro¿, foi a primeira publicação a tratar ¿ de forma séria ¿ dos mais diversos aspectos da vida dos negros no Brasil.

Leandro Sarmatz

Entre dezembro de 1948 e julho de 1950, um incipiente chamado à consciência negra floresceu no Brasil, país do “racismo cordial”. O jornal Quilombo, cuja linha-fina era “vida, problemas e aspirações do negro”, foi a primeira publicação a tratar – de forma séria – dos mais diversos aspectos da vida dos negros no Brasil.

Editado pelo ator e agitador cultural Abdias do Nascimento, a publicação é agora recuperada do esquecimento parcial (por preconceito ou pela crônica falta de memória do brasileiro) numa edição fac-similar. Quilombo (Editora 34) é um desses livros destinados a mudar um pouco nossa concepção do passado.

É uma deliciosa (ainda que dolorosa) viagem no tempo. O primeiro número, por exemplo, contém coisas tão sublimes, como o texto de Nelson Rodrigues (“Há preconceito de cor no teatro?”), quanto constrangedoras, geralmente quando os redatores analisam, de maneira autocomiserativa, a realidade do preconceito. Parece – e talvez seja traço da época – que o tema deveria ser tratado com luvas de pelica.

Quilombo traz de volta um passado precário e quase ingênuo. Poucos anos depois, na década seguinte, negros de várias nações “brancas” sairiam do breu infame da marginalidade e mostrariam o quanto ainda teriam que lutar para afirmar seus direitos.