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Uma pequena ajuda dos deuses no caminho para o outro mundo

A religião egípcia girava em torno da morte e especialmente da vida além da morte. Para os egípcios, a vida na Terra era apenas um estágio para o que viria pela frente. Por isso criaram todo um sistema, que envolvia mumificações e rituais de sepultamento, e dá para entender por que os poderosos daquele tempo iam desta para a melhor carregados de alimentos, tesouros, funcionários e até de amigos. Quem cuidava de guiá-los no caminho era o deus Osíris.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h25 - Publicado em 19 mar 2011, 22h00

Texto Álvaro Oppermann

Quem criou o mundo, para os egípcios, foi Rá, o deus Sol. Tudo por aqui era um grande oceano primitivo, e ele precisava urgentemente de um lugar seco enquanto encarava a tarefa de dar forma a todas as coisas. Encontrou uma ilha pedregosa que ficou conhecida como a Pedra Benben. Dali, começou a imaginar como seria o mundo. Surgiram as plantas, os pássaros e os animais. Ele falava os nomes e as coisas surgiam na sua frente. Depois pediu ao seu olho, a deusa Hathor, para procurar outros deuses. Quando ela voltou, notou que nascera um outro olho no rosto de Rá. Ela ficou triste e começou a chorar: de suas lágrimas, nasceram os primeiros humanos. Os deuses encontrados por Hathor eram Shu e Tefnut. Eles tiveram dois filhos, Geb, a Terra, e Nut, o céu. Eles se casaram e tiveram filhos: as estrelas. Com ciúme, Shu separou o casal e proibiu Nut de ter mais crianças em qualquer dia do mês. Mas a deusa ganhou 5 dias extras num jogo com o deus Thot e deu à luz as maiores divindades do Egito: Osíris, Seth, Néftis e Ísis.

Família complicada

Se os deuses egípcios fossem uma família, ela seria pra lá de disfuncional. Pegue o deus Seth. Matou e desmembrou o irmão Osíris. O “Titio Picadinho” – que tal o apelido? – detestava o sobrinho Hórus, primogênito de Osíris com a deusa Ísis. Num belo dia, Seth xingou Ísis de prostituta. Hórus, tomando as dores da mãe, foi tirar satisfações. Tio e sobrinho saíram no braço. Ísis, vendo o filho em desvantagem, atirou um arpão contra Seth. Mas a deusa tinha pontaria ruim e acertou Hórus, que, furioso, decapitou a progenitora. A seguir, na maior adrenalina, castrou o tio, mas teve um dos olhos furados pelo punhal de Seth. Resultado do entrevero: Hórus ficou caolho. Ísis, sem cabeça, ganhou uma sobressalente, só que retirada de vaca. E o encrenqueiro Seth, sem os testículos, ficou para titio no panteão dos grandes deus do Egito antigo.

As histórias da mitologia egípcia são quase sempre assim: extravagantes, coloridas, muitas vezes violentas como um filme do Martin Scorsese. Era também um povinho pra lá de estranho. Você iria se sentir num baile de máscaras no meio deles: Ísis, com, você sabe, a tal cabeça bovina. Rá, com uma baita carranca de touro. Hórus, com uma cara de falcão, e Thot, com uma de íbis, uma ave do rio Nilo. (O mais normal, Amon, só tinha uma exótica barbicha postiça.) “O estudo do antigo Egito nos submerge num mundo paradoxal e fascinante”, diz o egiptólogo espanhol Francis J. Vilar. O Egito possuía mais de 2 mil deuses, dos quais 114 principais. Como e quando surgiu essa galeria de figuraças incríveis?

Além de Atum, os principais deuses egípcios eram Rá, Khepra, Ptah, Shu, Geb, Osíris, Ísis, Hórus, Seth, Néftis, Thot, Hathor e Amon. A patota divina estava longe de ser decorativa. Os deuses eram, para a mentalidade egípcia, manifestações particulares de um princípio supremo, e com o tempo muitos ofuscaram Atum na devoção popular. “Para usar uma palavra da moda, os deuses seriam ‘avatares’”, diz o professor Antonio Brancaglion Jr. Mais ou menos como no hinduísmo, ou no Second Life.

Deuses pop

O destino de Ísis e Osíris era o de ser pop. No Egito antigo, poucos deuses foram tão amados pela população quanto eles. Na Antiguidade latina, granjearam fama graças ao ensaio De Iside et Osiride (“Sobre Ísis e Osíris”), de Plutarco (46-120). Hoje tal veneração seria escandalosa: Ísis e Osíris – apesar de irmãos gêmeos, filhos do velho deus Geb – se casaram entre si. O incesto era visto de forma branda pelos egípcios. Os textos sagrados, como os Textos das Pirâmides e os Textos dos Sarcófagos (os egípcios não tinham uma escritura única), mencionam vários casais de deuses formados por pares de gêmeos. O incesto divino acabou dando respaldo a vários casaizinhos de irmãos entre a realeza, como o faraó Tutmosis 2º, por volta de 1500 a.C., cuja esposa era a irmã Hatshepsut. Ou então da rainha Cleópatra 7ª (70-30 a.C.), casada com o irmão.

Segundo os Textos dos Sarcófagos, Osíris era o deus do amor familiar. Era também o deus da geração da vida, associado às terras férteis e negras do Egito. Já Ísis, além de simbolizar a maternidade, tinha um ladinho místico. Era a deusa da magia. Sob a aparência de casal perfeito, porém, não faltaram rusgas na relação conjugal. Osíris pulou a cerca, dormindo com sua outra irmã, Néftis. Ísis – como boa Amélia, do samba de Mário Lago – o perdoou. “Desculpe-me, Ísis, me enganei: achei que fosse você na cama”, foi a desculpa esfarrapada do deus. Osíris também tinha uma velha rixa com o irmão Seth. Seth matou Osíris e desmembrou o corpo dele em 14 pedaços, que foram dados aos crocodilos do Egito. Ísis chorou tanto que de suas lágrimas nasceu o rio Nilo. Desesperada, procurou em vão os restos mortais do marido, mas só encontrou intacto… o pênis. (O que é do homem o bicho não come, certo?) Mas a poderosa deusa não se deu por vencida, e com sua mágica reconstruiu o corpo do morto. Depois, temendo o vingativo Seth, não contou para ninguém onde o enterrou.

Política e religião andavam de mãos dadas, o que não é de estranhar. O povo acreditava que o Egito fosse uma terra sagrada. Tudo ali tinha a bênção dos deuses, em especial o sistema político-religioso. “Para os egípcios, a sociedade ideal era um reflexo de uma ordem divina”, escreve o egiptólogo Barry J. Kemp em Ancient Egypt: Anatomy of a Civilisation (“Egito Antigo”, inédito no Brasil, 1992). Só um exemplo: a fundação do Egito era explicada pelo mito do casamento entre os irmãos gêmeos Ísis e Osíris. Não, leitor, não é sacanagem. A unificação dos reinos do Alto e do Baixo Egito – origem do Egito antigo -, em 3150 a.C., foi simbolizada pelo incesto.

O faraó também era divinizado. “Parte humano, parte divino, ele era um intermediário entre os deuses e os seres humanos”, diz Antonio Brancaglion Jr.

Segundo a crença, o faraó seria uma encarnação de Hórus em vida e, após a morte, uma encarnação de Osíris. Só um detalhe: o termo “faraó” – de origem hebraica e bíblica – custou a entrar no vocabulário egípcio. Nos primeiros dois milênios, o termo para designar o chefe de Estado era Per-aa, uma palavra que significava “habitante do grande palácio”. “Os deuses conferiram prestígio não só ao faraó mas também ao clero e às cidades”, diz José Carlos Calazans, professor de ciência das religiões da Universidade Lusófona do Porto. Cada região tinha os seus deuses de preferência. Em Heliópolis, adorava-se sobretudo Rá. Em Tebas, Amon. Em Mênfis, Ptah e Hathor. Essas cidades viraram fervilhantes centros de peregrinação, enquanto que a multidão de deuses fomentava feiras e festas populares, além de um intenso comércio de amuletos e imagens, diz a professora de história antiga da Universidad Autónoma de Madrid Elisa Castel Ronda, autora de Los Sacerdotes en el Antiguo Egipto, de 1998, inédito no Brasil.

Templos fechados

O povão, contudo, tinha especial adoração ao faraó (ou à rainha, quando o cargo de governante era ocupado por mulheres, como foi o caso de Hatshepsut ou Cleópatra 7ª). Faraós e rainhas eram uma espécie de “paizões” e “mãezonas” do país. A vida religiosa sempre girava em torno deles.

No Egito, os templos não eram abertos ao público. “Não eram lugares de devoção popular, mas, sim, da realização dos ritos pelo faraó. Os ritos serviam para manter a harmonia do Cosmos”, diz Brancaglion Jr. Como o faraó não podia – obviamente – estar em vários templos ao mesmo tempo, delegava a função aos sacerdotes. No cerimonial faraônico, os sacerdotes entravam mais ou menos como funcionários terceirizados. O símbolo do faraó era a esfinge. O corpo de leão em repouso e a cabeça humana, sempre plácida, simbolizavam a harmonia entre a força (do leão) e a sabedoria (do ser humano), sintetizadas no governante. “A autoridade espiritual e o poder temporal não estavam separados como funções diferenciadas”, escreveu sobre isso o orientalista francês René Guénon em Autorité Spitituelle et Pouvoir Temporel (“Autoridade Espiritual e Poder Temporal”, de 1929).

Tudo isso funcionava bem na teoria. Já na prática… A história política egípcia foi um constante jogo de xadrez entre o faraó, os militares e os sacerdotes. Nesse jogo, os deuses eram peões. Os sacerdotes, sobretudo, eram mestres de estratégia. O prestígio do clero variava muito, dependendo da divindade a que servia. Sacerdotes de Ísis eram muito amados e respeitados por sua sabedoria. Segundo Plutarco, por exemplo, o filósofo e matemático Pitágoras foi instruído na Escola de Heliópolis, ligada aos mistérios da deusa Ísis. Contudo, o seu poder político era quase nulo. Em contrapartida, os sacerdotes de Amon constituíam uma elite poderosa e temida.

Os sacerdotes de Amon administravam os templos mais ricos do Egito, como os de Luxor e Karnak. Discretamente, nos bastidores, influenciavam ou manipulavam faraós, e também faziam conchavos com os generais do norte e do sul para a manutenção da estabilidade política do reino. A cidade de Tebas, centro irradiador do culto desse deus, serviu de palco a inúmeras intrigas políticas. “O sacerdócio egípcio não esteve livre de corrupção”, escreve Elisa Castel Ronda em Los Sacerdotes en el Antiguo Egipto. Em Tebas, sacerdotes corruptos emitiam licenças de cargos sacerdotais em troca de ouro, pedras preciosas ou favores políticos.

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Múmias

O tema da morte estava constantemente presente na vida do egípcio. Mas não havia nada de mórbido nessa atitude. “O egípcio era funerário. Isso não quer dizer que ele fosse funesto”, observa Brancaglion Jr. Não à toa, quando a gente pensa no Egito antigo, vêm à mente sarcófagos e múmias. Reza a lenda que a primeira múmia do Egito foi a de Osíris, embalsamada pelo pitoresco deus Anúbis. Para o egípcio médio, a vida terrestre era uma mera passagem à Outra Vida. Numa analogia, seria como passar de nível num videogame. Se num videogame a gente coleciona tokens e ‘vidas’, o egípcio da Antiguidade abastecia o túmulo com utensílios pessoais, roupas, joias, preparando-se para a viagem ao além. A tumba era um entreposto dos mundos terrestre e celeste. “Quando se entra numa tumba egípcia, a última coisa que se vê é a morte. É a vida que se prolonga”, nota Brancaglion Jr. Os caixões, muitas vezes, eram simples caixas retangulares de madeira decoradas com olhos (para que o morto pudesse ver). Também havia frequentemente uma porta falsa, para que o espírito do morto pudesse entrar e sair do caixão. Tudo para ficar bem à vontade. Havia inclusive um livro para guiar o morto nos meandros do Além: o famoso Livro dos Mortos. “Era o Guia Michelin para o outro mundo”, brinca Brancaglion Jr. Seu título original, contudo, era “Livro para sair à luz do dia”, bem menos fantasmagórico. (Colocar “morte” no título foi ideia de um editor alemão do século 19, que publicou uma seleção dos textos em 1842.)

Tudo isso parece exótico e provoca estranheza. Mas é só uma questão de percepção. Na verdade, diz Antonio Brancaglion Jr., os egípcios foram a primeira sociedade humanista da história. “A mensagem do Egito antigo é que o homem pode se divinizar”, conclui o professor. As histórias dos deuses egípcios, tão divinamente humanas, ou tão humanamente divinas, dão prova disso. A inteligência humana, para a mitologia egípcia, é um reflexo da inteligência divina.

O grande deus egípcio Amon gostava de usar trajes decorados com plumas. Uma barbicha postiça, longos cílios igualmente postiços e uma pesada maquiagem de cor lápis-lazúli. A maquiagem representava a cor celeste. Os pelos postiços signifcavam a majestade. Era o símbolo por excelência da realeza. Era adorado na cidade de Karnak. No início era um deus do caos, mas tornou-se um grande deus criador e associado ao poder do Sol.


 

OSÍRIS E ÍSIS
Os irmãos gêmeos eram casados. Osíris era o deus da fertilidade e associado ao Nilo. O rio foi criado com as lágrimas de Ísis, depois que o marido foi despedaçado pelo irmão Seth. A deusa, símbolo da maternidade, reconstruiu Osíris.

BRIGA CÓSMICA EM FAMÍLIA
As histórias do panteão egípcio são extravagantes e coloridas e muitas vezes tão violentas quanto um filme de Martin Scorsese.

THOT
O descobridor da química, da matemática, da geometria e da música. Reza a lenda que inventou a forma das pirâmides. Podia aparecer sob forma humana, ou num híbrido, com corpo de gente e cabeça da ave íbis.

ANÚBIS
Seu rosto tinha uma coloração escura, própria dos corpos putrefatos. Muitas vezes, aparecia sob a forma de cão, ou então com focinho de chacal. Era o chefe do Submundo dos mortos, guardião das necrópoles e das tumbas.

HÓRUS
O deus era representado com a cabeça de falcão num corpo humano. Os egípcios acreditavam que seus olhos representavam o Sol e a Lua. Seu olho, o Wadjet, se tornou um dos mais populares amuletos do Egito.

SETH
Figura sinistra que combateu Hórus, era o deus do caos e do deserto. Hórus matou Seth, que se tornou o deus do Submundo.

 

 

 

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