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Uma tragédia moderna

Nos países mais pobres, a disputa pelos poucos recursos é feroz e desesperada. Resultado: miséria gerando violência, que resulta em mais miséria e mais violência.

Texto José Francisco Botelho

Entre todos os conflitos armados da última década, as guerras civis africanas são os que melhor ilustram uma tragédia moderna: a violência endêmica que assola as regiões menos desenvolvidas do planeta. Nos últimos 10 anos, a maioria dos países com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH) foi sacudida por algum tipo de conflito. O IDH é um cálculo anual feito pela ONU, que tenta medir o nível de bem-estar social das populações ao redor do mundo.

A República Democrática do Congo, fustigada pela guerra civil de 1998 a 2002, ocupa apenas a 167ª posição no ranking mundial desse índice, numa lista de 177 países. Mas não é o Estado africano em pior situação. Quem ocupa a lanterna é Níger, onde a guerra ocorreu entre 1991 e 1994. Na verdade, todos os 38 últimos colocados na lista são africanos – à exceção do Timor Leste (142º lugar), que viveu em conflito com a Indonésia até 1999, e do Haiti (154º), mergulhado no caos exatamente agora.

“Ocorrem mais guerras em países pobres porque seus habitantes não conseguem suprir necessidades básicas, o que torna a disputa por recursos muito mais feroz e desesperada”, escreve o analista internacional Dan Smith no livro Atlas dos Conflitos Mundiais (Companhia Editora Nacional, 2007). “Nessas regiões, a miséria gera violência, e a violência gera ainda mais miséria.”

Estados fracassados

Nas áreas mais pobres do planeta, convulsões sociais podem levar à implosão de governos e ao surgimento dos chamados “estados fracassados” – no jargão da geopolítica, países incapazes de controlar seus territórios, deixando fronteiras abertas para a livre circulação de narcotraficantes e milícias radicais. Ironicamente, a invasão americana teve precisamente esse efeito no Afeganistão e no Iraque. Após a queda de Saddam Hussein, grupos inspirados na Al Qaeda multiplicaram-se como erva daninha em solo iraquiano, alimentados pelo mercado negro de armamentos. Enquanto isso, o tráfico de ópio prosperou nas planícies sem lei do Afeganistão (leia mais na pág. 58).

Não por acaso, a maior parte dos tais “estados fracassados” está nas regiões colonizadas pelo Ocidente nos últimos dois séculos. A independência das antigas colônias, a partir da Segunda Guerra Mundial, deu origem a dezenas de novos países na África e na Ásia – territórios que, até o século 19, tinham organizações políticas bem diferentes do Estado nacional à moda européia.

Uma nota de esperança: segundo alguns analistas, o radicalismo que hoje abala o mundo pós-colonial é parte de um complexo – e inevitável – processo de modernização. “Os Estados europeus também se formaram de maneira violenta”, escreve o historiador Paulo Fagundes Vizentini no livro Relações Internacionais na Ásia e na África (Vozes, 2007). “E o início da modernidade ocidental foi marcado por guerras e extermínios de grande brutalidade.” Ou seja: antes de virar Primeiro Mundo, a Europa passou por convulsões bem parecidas com as que chacoalham boa parte do Terceiro Mundo neste exato momento. Os fracassados de hoje podem ser os vitoriosos de amanhã.

Desgraça pouca é bobagem

Mais de um terço das guerras registradas nos últimos anos aconteceu em países de baixo índice de desenvolvimento humano

40 anos

Essa é a expectativa de vida ao nascer em Serra Leoa, na África, contra 79 anos na Noruega e 72 no Brasil.

1,2 bilhão

Total de pessoas vivendo em situação de pobreza extrema no mundo (com menos de US$ 1 por dia).

800 milhões

Número aproximado de pessoas que passam fome no mundo, segundo os cálculos da ONU.

6 milhões

Crianças com até 5 anos que morrem de fome ou de diarréia todos os anos no mundo inteiro.

Onde falta mais comida

A fome é um problema crítico para 27 milhões de pessoas em 12 países. *

Etiópia

Famintos – 5,96 milhões

Sudão

Famintos – 5,86 milhões

Afeganistão

Famintos – 5,4 milhões

Quênia

Famintos – 4,42 milhões

Burundi

Famintos – 1,22 milhão

Rep. Dem. Congo

Famintos – 1,15 milhão

Somália

Famintos – 1,13 milhão

Haiti

Famintos – 850 mil

Chade

Famintos – 630 mil

Madagascar

Famintos – 512 mil

Guiné

Famintos – 384 mil

Moçambique

Famintos – 287 mil

* Na Coréia do Norte, a fome também é crítica, mas não há dados sobre a falta de alimentos naquele país.

Fonte: Programa Mundial de Alimentação (ONU)

Chifre da África fronteiras movediças

Texto José Francisco Botelho e Eduardo Lima

Colonização, guerra fria, terrorismo islâmico: há um pouco de tudo nas batalhas que fazem da região de Etiópia, Eritréia, Somália e Djibuti uma das mais instáveis do mundo.

No início de 2006, helicópteros de artilharia dos EUA atacaram uma vila situada no sul da Somália. Segundo o comando militar americano, a operação tinha como objetivo eliminar integrantes da Al Qaeda que participaram dos atentados às embaixadas do Quênia e da Tanzânia, em 1998 – ou seja, mais um capítulo da guerra ao terrorismo. Para muitos analistas internacionais, contudo, o episódio não se resumiu a uma ação antiterror. Teve a ver, também, com a pretensão do governo de George W. Bush de estabelecer uma hegemonia americana na região conhecida como Chifre da África – formada, além da Somália, por Etiópia, Eritréia e Djibuti.

A Etiópia, maior desses quatro países, já é um grande aliado da Casa Branca. Tanto que, no dia 24 de dezembro de 2005, mobilizou tropas e invadiu o sul da Somália. Cerca de 15 mil soldados fortemente armados, amparados por caças MiG da Força Aérea etíope, rapidamente dominaram toda a área que, até então, era controlada pelo Conselho Supremo das Cortes Islâmicas – grupo de líderes radicais no comando de várias milícias. Aqui, vale lembrar um detalhe: a Somália é um país de maioria muçulmana, enquanto a elite que comanda a Etiópia é majoritariamente cristã.

Para os EUA, a invasão etíope resolveu dois problemas de uma vez só: tirou os radicais do poder e desarticulou grande parte das milícias. Mas a “mãozinha” dada pela Etiópia não pôs fim à situação de instabilidade. Focos de conflito ainda estão espalhados por todo o sul do território somali e atingem até a capital, Mogadício. O presidente do chamado Governo Transitório, Abdullahi Yusuf, só continua no cargo porque segue à risca a cartilha de Washington. Nas ruas, ele é amplamente rejeitado pela maioria da população muçulmana.

Vulcão geopolítico

Do outro lado da Etiópia, na fronteira com a Eritréia, a pequena aldeia de Badme é outra fonte de discórdia. Ela tem pouco mais de 2 mil habitantes, o equivalente a um vilarejo no sertão brasileiro. Ao redor, nada além de colinas secas e pedregosas. Mas não se engane. Embora pareça um lugar sem qualquer importância, Badme está no topo de um vulcão geopolítico, cujas erupções já custaram a vida de 100 mil pessoas na última década.

Ponto sensível na nebulosa fronteira entre Etiópia e Eritréia, a aldeia é reclamada por ambos os países desde a década de 1990. Pelo domínio de alguns quilômetros de terra árida, as duas nações gastaram mais de US$ 5 bilhões numa guerra que se estendeu de 1998 a 2002. Hoje, o vulcão está adormecido. Mas pode explodir a qualquer momento. Por isso, os EUA também acompanham essa história de perto. Eles acusam a Eritréia de dar suporte a rebeldes em território etíope (como os da Frente Nacional de Libertação Ogaden) e aos insurgentes do sul da Somália.

Outro interesse dos EUA nessa região é o acesso ao Mar Vermelho – uma das artérias do comércio global, hoje utilizada principalmente para escoar o petróleo do Golfo Pérsico. Isso explica, em parte, a presença militar americana no Djibuti. O litoral daquele pequeno país, do tamanho do estado de Sergipe, debruça-se justamente sobre a porta de entrada da importante via marítima. Sem contar que seu território está estrategicamente comprimido entre a Somália, a Etiópia e a Eritréia – sendo utilizado pelos americanos como centro de treinamento e de planejamento para operações militares.

Terra dos perfumes

O Chifre da África é uma das regiões mais miseráveis do planeta. Mas já foi uma das mais ricas. Habitado por etnias africanas e tribos semitas do Oriente Médio desde a pré-história, era famosa na Antiguidade pelo comércio de especiarias. Tanto que os romanos a apelidaram de Regio Aromatica, ou Terra dos Perfumes. Por volta do ano 330, missionários vindos do Líbano levaram o cristianismo para lá, numa época em que a maior parte da Europa ocidental ainda era pagã. Três séculos depois, chegaram os primeiros seguidores do profeta Maomé, que acabava de lançar os alicerces do Islã. Durante séculos, sultanatos muçulmanos e reinos cristãos viveram lado a lado, entremeando períodos de disputa e convivência pacífica.

Ao longo do século 19, as grandes potências européias lançaram olhares gulosos sobre as águas do Mar Vermelho e trataram de espetar suas bandeiras na antiga Regio Aromatica. Em 1890, os italianos dominaram as terras que hoje formam a Eritréia, enquanto ingleses e franceses dividiam a Somália. Quem escapou à colonização foi a Etiópia, um reino cristão ortodoxo no centro do Chifre.

Após a Segunda Guerra Mundial, as antigas colônias européias ganharam independência, mas o jugo estrangeiro continuou sob outros nomes. Nas décadas da Guerra Fria, EUA e URSS manipularam os governos da região num sinuoso baile de alianças. Do lado americano estava Hailé Selassié, imperador da Etiópia desde 1930. Governante ultraconservador, ele manteve seu poder absoluto graças ao dinheiro e às armas do Ocidente. Em troca da amizade etíope, que prometia espantar para longe o espectro soviético, o presidente americano Franklin Roosevelt apoiou, em 1951, a anexação da Eritréia – que havia recém-escapado do domínio italiano. Selassié reprimiu brutalmente o nacionalismo eritreu, chegando a proibir nas escolas o ensino do árabe, uma língua falada por lá desde o século 7.

As regras do jogo mudaram em 1974, numa reviravolta típica da Guerra Fria: milícias etíopes financiadas pela URSS assassinaram Selassié e instalaram uma ditadura ainda mais sanguinária. Com a Etiópia vestida no uniforme comunista, os EUA inverteram a estratégia e passaram a financiar grupos separatistas da Eritréia. O desmembramento do império soviético acelerou a vitória dos novos aliados de Washington: em 1991, milícias eritréias forjaram uma aliança com rebeldes etíopes da região do Tigre. Juntos, os insurgentes avançaram sobre Adis Abeba, capital da Etiópia, e derrubaram a ditadura comunista. Em 1993, num referendo pacífico, a Eritréia tornou-se a mais nova nação independente da África. E os dois países passaram a ser governados por regimes “irmãos” – controlados por veteranos da guerrilha anti-Moscou, que acabariam se desentendendo algum tempo depois.

Quem luta contra quem no Chifre da África

Tropas regulares, milícias e etnias rivais engalfinham-se desde 1998.

Adversários – No sul da Somália, milícias (fundamentalistas ou não) contra tropas da Etiópia apoiadas pelos EUA; na fronteira entre Etiópia e Eritréia, forças militares dos dois países; nas regiões etíopes de Tigre e Ogaden, grupos separatista contra forças do governo; em todo o Chifre da África, etnias rivais.

Desde quando – 1998

O que está por trás – Terrorismo, controle sobre o Mar Vermelho, disputas territoriais, diferenças étnico-religiosas e interesses estratégicos dos 4 países.

Análise

Coincidência dramática

A probreza provoca violência na áfrica ou a áfrica é pobre por ser violenta?

Texto Denise Galvão

Há décadas o continente africano é vítima de uma coincidência dramática: conflitos armados e pobreza. Como as guerras não estão presentes em todos os contextos de miséria, conclui-se que a pobreza nem sempre é capaz de causar conflitos violentos por si só. Apesar disso, deve ser observada como uma causa – ela contribui de maneira decisiva para que as guerras aconteçam.

Grupos insurgentes costumam alegar que querem substituir um determinado governo para que, com o poder em mãos, possam defender segmentos marginalizados da sociedade em regimes não-democráticos. Afirmam que a idéia é conferir-lhes expressividade política e promover seus interesses sociais e econômicos, a fim de reverter injustiças. Essa motivação costuma atrair amplo apoio popular à iniciativa de travar uma guerra civil.

No decorrer de vários conflitos na África, porém, os combatentes empregaram táticas de guerra, como o recrutamento de crianças, a servidão sexual, as mutilações de civis, o deslocamento forçado e a limpeza étnica. Quando rebeldes voltam-se contra a própria população, torna-se evidente que há outros fatores envolvidos, além da luta contra a marginalização.

As causas fundamentais desses conflitos estão, em geral, relacionadas à fraqueza e à pouca – ou nenhuma – legitimidade dos governos. Uma cultura de violência e personalismo na política ainda marca os jovens Estados africanos, herdeiros do domínio colonial europeu. Essa fragilidade manifesta-se no caráter vulnerável a intervenções internacionais e na permissividade ao mercado informal, que possibilita a circulação de armas ilegais. Ao agir em nome de interesses privados, o Estado permite que outras forças políticas – incluindo grupos armados – preencham o vácuo do poder público.

É interessante notar que na África há um paradoxo entre a pobreza do povo e a riqueza da terra. Ao mesmo tempo em que o continente concentra os piores índices de desenvolvimento humano, também tem reservas de extraordinárias riquezas naturais, como petróleo, diamantes, ouro, cobre, cobalto e coltan (liga metálica usada na fabricação de componentes eletrônicos). Parte dessas riquezas foi drenada para financiar a violência contra as próprias populações africanas – como, por exemplo, os “diamantes de sangue” de Angola, Congo e Serra Leoa. Outra parte enriqueceu grandes investidores estrangeiros, com as bênçãos de governos instáveis e corruptos.

Conflitos prolongados e de difícil solução, como é o caso dos países que compõem o Chifre da África, não só causaram mortes, mas também pioraram as condições de vida dos sobreviventes – entre os quais imensas massas de refugiados. Dessa forma, percebe-se claramente a correlação entre miséria e conflitos armados: ao mesmo tempo em que a miséria consiste em uma causa profunda de guerras, também é intensificada pelas práticas de extrema violência, num ciclo vicioso dos mais cruéis.

Denise Galvão é mestra em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Grupo de Análise de Prevenção de Conflitos Internacionais da Universidade Cândido Mendes.